IMOBILIÁRIO
Eleições favorecem negociação para aquisição de imóveis
Quem deseja comprar fica mais cauteloso e quem pretende vender, mais flexível


A proximidade das eleições presidenciais costuma colocar uma série de decisões em compasso de espera. A compra de um imóvel, por envolver uma quantia elevada e, em muitos casos, um financiamento de longo prazo, está entre as escolhas que mais sofrem com a cautela dos consumidores. Em 2026, esse comportamento pode criar uma situação peculiar para quem pretende comprar: enquanto parte do mercado aguarda o resultado das urnas, os compradores que permanecem ativos podem encontrar mais espaço para negociar.
Uma pesquisa da Loft em parceria com a Offerwise, divulgada em abril, mostrou que 35% dos brasileiros pretendiam antecipar ou adiar uma decisão de compra ou aluguel por causa das eleições deste ano. O dado revela que o calendário eleitoral influencia uma parcela significativa dos consumidores, mas também indica que o mercado não fica completamente parado.
Para o corretor Paulo Garcia, as eleições afetam principalmente a percepção de risco. “Eleições impactam o sentimento das pessoas, mas não necessariamente os fundamentos do mercado imobiliário”, afirma. Segundo ele, o período costuma trazer mais cautela, comparação e análise, mas não necessariamente uma interrupção das transações.
É justamente essa cautela que pode beneficiar quem está disposto a continuar procurando. Com menos compradores concorrendo pelos mesmos imóveis, vendedores que precisam concluir uma negociação podem aceitar conversar mais sobre preço e condições. “Em anos eleitorais, muitos vendedores ficam mais flexíveis, justamente porque parte do público adota uma postura de espera”, diz Garcia.
José Alberto Vasconcelos, 2º vice-presidente e diretor do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia (Creci-BA), observa o mesmo movimento no mercado baiano. “É um bom momento, porque a oferta continua, mas a procura diminui. Muitas pessoas param tudo o que estão fazendo, esperando o resultado”, afirma.
Para ele, a consequência direta é o aumento do poder de barganha de quem está comprando. “Nesse momento, o consumidor ganha poder de negociação, vai se sentir na condição de fazer uma proposta mais vantajosa.” A margem para negociação, porém, depende do imóvel e da disposição do proprietário. Não se trata de uma regra segundo a qual todos os preços cairão durante o período eleitoral.
Leia Também:
A corretora imobiliária Gabriela Maurus chama atenção justamente para essa diferença entre a expectativa criada pelas eleições e o comportamento efetivo do mercado. Segundo ela, o histórico recente mostra que não há uma relação consistente entre ano eleitoral e queda dos preços dos imóveis. Em 2018, por exemplo, o mercado imobiliário teve crescimento mesmo diante de uma eleição marcada por elevada incerteza. Em 2022, outro pleito bastante disputado, o setor também manteve um volume relevante de vendas, apesar de um ambiente de juros altos e inflação internacional.
“Não existe correlação consistente entre ano eleitoral e queda no preço de imóveis”, afirma Maurus. Para ela, os fatores que efetivamente sustentam o mercado são outros, como taxa de juros, oferta, demanda local e disponibilidade de crédito.
O argumento é especialmente relevante para quem pensa em simplesmente esperar outubro para decidir. Se a eleição não determina, por si só, uma redução dos preços, o consumidor pode acabar deixando passar uma oportunidade de negociação sem garantia de encontrar condições melhores depois.
Há ainda o efeito da valorização dos imóveis. O Índice FipeZAP registrou alta de 6,52% nos preços residenciais no país em 2025. Em Salvador, a valorização chegou a 16,25%, de acordo com o indicador. Isso não significa que todos os imóveis tenham subido na mesma proporção, mas mostra que esperar não é uma estratégia necessariamente associada a preços menores.
“Cada mês de espera, na média histórica, é um mês em que o imóvel que você quer está um pouco mais caro”, diz Maurus. Para ela, o comprador precisa avaliar se o motivo para adiar a aquisição está relacionado a uma necessidade concreta ou apenas à expectativa em torno do resultado eleitoral.
Garcia também chama atenção para o chamado custo de esperar pelo momento ideal. Quem posterga uma compra pode perder um imóvel que interessava, enfrentar maior concorrência quando voltar ao mercado ou se deparar com condições diferentes de financiamento. Para ele, a pergunta mais importante não é o que acontecerá depois das eleições, mas se o comprador tem hoje condições de assumir a aquisição com segurança.
Isso não significa que todos devam antecipar a compra. Quem ainda não reuniu o valor necessário para a entrada, está com a renda comprometida ou ainda não encontrou um imóvel compatível com suas necessidades pode usar o período para se preparar. A decisão também muda de acordo com o objetivo. Para quem compra para morar, estabilidade financeira, valor da parcela, localização e qualidade do imóvel tendem a ser pontos centrais. Para o investidor, entram na conta potencial de locação, demanda, liquidez e retorno.
Escassez de usados
Outro aspecto é o tipo de imóvel disponível. Em Salvador, Vasconcelos identifica comportamentos distintos entre segmentos. Segundo ele, há escassez de imóveis usados no mercado, enquanto os compactos, como estúdios e smart apartments, tiveram boa saída. Os lançamentos de quatro quartos na orla também vêm apresentando bom desempenho.
A variedade, portanto, não significa necessariamente que o comprador encontrará descontos em qualquer endereço. Um imóvel com alta procura pode continuar valorizado mesmo em um período de maior cautela. Já uma propriedade há mais tempo anunciada pode oferecer uma margem de negociação maior.
Para aproveitar o momento, Vasconcelos recomenda ampliar a pesquisa e visitar os imóveis antes de tomar uma decisão. O comprador também deve ter atenção à documentação. “Antes de assinar o contrato e iniciar qualquer pagamento, é fundamental fazer um levantamento completo do imóvel para ter uma ideia se ele está totalmente regular”, afirma.
A preocupação é importante porque o desconto obtido na negociação pode perder significado diante de um problema documental, uma dívida ou alguma irregularidade que comprometa a compra. O auxílio de um corretor e, quando necessário, de uma assessoria jurídica pode ajudar nessa etapa.
No fim, as eleições podem produzir uma janela de negociação, mas não uma fórmula para comprar barato. O que muda no período é, sobretudo, o comportamento dos participantes do mercado. Parte dos consumidores prefere esperar; alguns vendedores, diante de uma procura menor, podem ficar mais abertos a propostas; e os compradores que permanecem ativos passam a ter mais tempo para comparar imóveis e condições.
Para Maurus, a questão central é não deixar que o calendário eleitoral substitua a análise individual. “A melhor hora para comprar um imóvel é quando ele faz sentido para sua realidade financeira e seus objetivos, e não apenas para o noticiário”, afirma.


