IMOBILIÁRIO
Quando a arte habita a casa
Casa Cor Bahia 2026 incorpora pinturas e objetos afetivos aos projetos de arquitetura


Antes de acomodar o corpo, os ambientes da Casa Cor Bahia 2026 pedem um instante ao olhar. Há pássaros pintados sobre a cabeça dos visitantes, formas que escapam das molduras, pedras e troncos convertidos em esculturas, fios que narram histórias e objetos de família retirados das gavetas para ocupar as paredes.
Na Casa Nossa Senhora das Mercês, edifício setecentista no centro de Salvador, a arte não chega ao fim do projeto como ornamento. Ela orienta percursos, interrompe passos e devolve à arquitetura algo que a pressa cotidiana costuma apagar: o tempo necessário para observar.
Em sua 32ª edição, a mostra adota o tema “Mente e Coração” e propõe uma reflexão sobre o morar em um período marcado pela hiperconectividade. O manifesto deste ano convida o público a desacelerar, recuperar o gesto manual e retomar as trocas entre gerações. Dentro dos ambientes, esse princípio aparece em pinturas, fotografias, gravuras, esculturas, cerâmicas, mosaicos, tapeçarias e peças de valor afetivo.
“A arte estava dentro dos ambientes, mas não como protagonista da mostra”, afirma a diretora da Casa Cor Bahia, Magali Santana, ao recordar o início do movimento para ampliar sua presença na programação. Desde a primeira edição sob sua direção, realizada no antigo Othon Palace, ela passou a reservar áreas específicas para galerias e exposições. A intenção era também apresentar nomes que ainda não circulavam com frequência entre os profissionais de interiores.
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“Muitas vezes, os arquitetos só buscam artistas já consagrados, que trazem maior peso, mas gosto de olhar para os ainda pouco conhecidos e que também são muito talentosos”, diz Magali. Nesta edição, apenas uma das galerias reúne cerca de 240 obras. O conjunto vai de artistas em início de trajetória a nomes estabelecidos, como Vik Muniz.
As galerias também funcionam como intervalos no percurso. Em vez de conduzir o visitante por uma sequência ininterrupta de salas, quartos, cozinhas e áreas de convivência, a mostra cria espaços nos quais a própria arte determina o ritmo da visita.
“Entrar e sair dos ambientes traz um cansaço. Queria criar grandes respiros e que eles fossem arte”, explica a diretora.
No corredor 2 do primeiro andar, uma das exposições reúne obras de Almira Reuter, Elvio Rocha, Nagi Maron, Ramiro Barnabé e Ranchinho. Traços livres, narrativas têxteis e esculturas que combinam pedras e troncos ocupam o espaço sem se limitar às convenções da pintura emoldurada. O corredor deixa de ser apenas passagem e se converte em lugar de permanência.
Outro marco da edição é a primeira exposição individual do artista soteropolitano Aurelino dos Santos, morto em janeiro deste ano.
Autodidata, Aurelino construiu uma linguagem reconhecível pelo uso de formas geométricas, cores intensas e representações particulares da paisagem urbana. A mostra permite observar sua produção fora da posição acessória que, durante muito tempo, foi destinada às obras de arte nos projetos de interiores.
Essa inversão também atravessa os ambientes assinados pelos arquitetos. No Quintal Brasis, cafeteria projetada por Pedro Chezzi, 52 pássaros pintados por Neto Robatto formam uma paisagem suspensa.
A obra remete à fauna e à flora brasileiras e conduz a leitura de um espaço composto por mobiliário assinado, cerâmicas produzidas especialmente para o projeto, mosaicos autorais e móveis antigos que poderiam ter pertencido à casa dos avós.
“O Quintal Brasis tem uma proposta que valoriza o fazer manual e cria uma atmosfera capaz de despertar memórias afetivas sem recorrer a uma abordagem nostálgica”, explica Chezzi. O ambiente incorpora ainda referências a Burle Marx e Carybé e toma o quintal como lugar de convivência entre diferentes expressões culturais do país.
No Ressonar, também assinado pelo arquiteto, a arte assume escala cenográfica. Instalado sob a cúpula da edificação, o espaço abriga uma estrutura invertida que paira sobre o visitante. Murais coloridos ultrapassam margens e molduras, enquanto as superfícies brancas reduzem a interferência visual e a vegetação aproxima o projeto de uma experiência corporal.
“A arte é algo inerente ao ofício do arquiteto. Quis trazê-la como um elemento instigante, algo que pudesse paralisar o visitante e agregar contemplação”, afirma Chezzi. A composição mistura mobiliário de diferentes estilos, em uma referência aos interiores brasileiros dos séculos XVIII e XIX. Para ele, a sobreposição, embora arriscada, traduz a formação cultural do país.
A memória pessoal orienta o Living Reflexo, de Sabine Rosas. O ambiente de aproximadamente 40 metros quadrados reúne obras de Guel Silveira, Calasans Neto, Carybé e Floriano Peixoto, além de peças de designers como Jader Almeida, Roberta Banqueri e Sérgio Rodrigues. Grafite, pintura, serigrafia, dobraduras de papel, tapeçaria e escultura convivem no mesmo projeto.
Sabine trabalhou com cinco galerias e incorporou ao espaço peças de seu acervo. “Não escolho só por ser belo, mas pelo que o artista representa e pelo que a peça comunica. Cada designer, cada obra foi escolhida pensando no conceito”, conta. Entre os nomes presentes estão Alex Roca, Bel Borba e Gabriela Daltro.
A arquiteta identifica também uma mudança na relação dos clientes com a produção artística. As redes sociais facilitaram o acesso ao processo de criadores de diferentes lugares e ampliaram o repertório de quem deseja formar um acervo.
Com isso, a escolha começa a levar em consideração não apenas a correspondência cromática entre obra e decoração, mas também a história, a técnica e o contexto cultural da peça.
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No espaço projetado por Marlon Gama para a 55Design, o ponto de partida foi o trabalho de Vik Muniz. O arquiteto encontrou na loja móveis criados pelo artista, como mesas em formato de botão e pufes acolchoados que remetem a alfinetes, e decidiu construir uma homenagem a ele.
Em 100 metros quadrados, o projeto reúne arte, design, memória afetiva e referências aos vínculos de Muniz com a Bahia. A homenagem ultrapassa a exposição das peças assinadas por ele e aparece na escolha dos materiais, dos objetos, da iluminação e do paisagismo.
Marlon defende que o investimento em arte deve ocupar um lugar mais permanente no orçamento dos projetos.
“Se você gasta uma fortuna com papel de parede, cortinas e coisas descartáveis, não pode se engasgar na hora de comprar uma obra de arte”, provoca.
Para todos
A composição de um ambiente pode começar por uma única peça, sem a obrigação de preencher todas as paredes. Para Pedro Chezzi, uma obra com presença e significado produz mais efeito do que várias aquisições feitas apenas para eliminar espaços vazios.
Essa escolha tampouco precisa se restringir a artistas consagrados ou aos circuitos de maior valor. Gravuras, fotografias, cerâmicas e trabalhos de artistas emergentes permitem iniciar uma coleção com orçamentos distintos. Feiras, ateliês, galerias dedicadas a novos nomes e perfis de artistas nas redes sociais ajudam a conhecer técnicas e acompanhar trajetórias antes da compra.
Sabine Rosas recomenda combinar obras de procedências variadas. Um trabalho assinado pode dividir a parede com fotografias feitas em viagens, lembranças de família ou peças compradas diretamente de jovens artistas.
“É possível usar o próprio acervo do cliente para compor um ambiente”, afirma.
As chamadas galerias de parede apresentadas na Casa Cor oferecem uma referência possível: fotografias familiares emolduradas podem aparecer ao lado de chapéus, bengalas, desenhos, pequenos objetos e recordações. Uma tapeçaria também pode deixar o uso convencional e ser instalada sobre o sofá ou atrás da mesa de jantar, acrescentando textura à composição.
Antes da compra, é importante observar dimensões, incidência de luz, umidade e circulação no cômodo. Trabalhos em papel e fotografias exigem proteção contra sol direto; cerâmicas e esculturas precisam de apoio estável; já peças têxteis devem ser posicionadas em locais que permitam conservação e limpeza adequadas.
Mais do que buscar uma correspondência exata com cores e móveis, a orientação dos profissionais é escolher algo capaz de manter uma relação duradoura com o morador. “A arte não precisa combinar com a arquitetura; ela precisa conversar com quem vive ali”, resume Chezzi.


