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Comprar arte é coisa de rico? Feira em Salvador quer mudar essa ideia
Palacete Tirachapéu recebe feira de arte inédita com entrada gratuita


Na infância, em Aporá, no agreste baiano, Heitor Gabriel ia às olarias da cidade buscar barro para brincar. Anos depois, com seis anos de São Paulo nas costas e uma pausa na produção por frustração com o circuito de galerias, ele descobriu que ainda sabia o caminho até aquele “barro escuro, cheio de matéria orgânica e de texturas”.
Hoje, é com cerâmica feita de barro de Aporá e de argilas recicladas do laboratório da Ufba que ele integra os mais de 70 artistas e coletivos da Trama, a 1ª Feira de Arte Contemporânea da Bahia, que ocupa de 12 a 15 de novembro os salões do Palacete Tirachapéu, casarão de 1917, no Centro Histórico de Salvador.
A pergunta que ronda a feira é menos “quem expõe” e mais “quem compra”. Artista, a Bahia tem de sobra. Comprador é que anda raro, de acordo com a idealizadora e diretora-geral do evento, Monique Badaró. “Sabemos que boa parte de quem compra arte produzida na Bahia vem de fora”, diz. “Isso confirmou o que já percebíamos: há poucas pessoas comprando arte aqui”.
Internacionalista e doutora em Ciências Sociais, Monique passou anos na Secretaria de Cultura do Estado levantando a bandeira da Bahia para fora. Foi de lá que trouxe a convicção que hoje move a feira. Em uma tese de 2018 sobre diplomacia cultural, ela concluiu que circular no exterior não basta: curadores estrangeiros que não encontram uma cena organizada por aqui deixam de voltar.
“Não existe inserção lá fora sem inserção aqui dentro”, resume. “Há muitos artistas produzindo na Bahia que nem o público daqui conhece”.
A solução ensaiada pela Trama começa pelo bolso. As obras custam de R$ 500 a R$ 9 mil, e 80% de cada venda vai direto para o artista. A lógica é quase didática. Existe, diz Monique, “uma ideia muito arraigada de que comprar obra de arte é coisa de rico”, quando um trabalho original pode custar o mesmo que muito objeto comprado em fast shop.
Gravuras, múltiplos, peças de pequeno formato e artistas em início de carreira são a porta de entrada. “Toda coleção começa com uma primeira obra".
Só que preço baixo não resolve tudo, ela avisa. Muita gente não compra porque não se sente à vontade, acha que não entende, não sabe por onde começar. Por isso a feira não tem estandes: os trabalhos ocupam os salões como uma grande exposição, com artistas representados por galerias como RV Cultura e Arte, Paulo Darzé, Midlej e Galatea, dividindo o espaço com independentes e coletivos como Acervo da Laje, Pinacoteca do Beiru, Zumví e Ativa Atelier Livre.
Na programação, também há visitas mediadas, ateliês abertos e conversas com artistas. A compra, na visão de Monique, é “consequência de uma relação construída com tempo, escuta e repertório”.
O repasse de 80%, explica, nasce da constatação de que quem cria é o artista. A conta, claro, fecha com ajuda: a comissão de 20% não paga sozinha curadoria, montagem e equipe, e o Palacete Tirachapéu, por meio do programa Palacete Arte, dá apoio direto a esta primeira edição. “Costumo dizer que esta primeira edição é um laboratório”, comenta Monique.
Os artistas ajudam a medir o tamanho da lacuna. Anderson AC, por exemplo, sente que não encontra o reconhecimento do trabalho na Bahia. Ele começou no grafite, nas ruas de Salvador, no início dos anos 2000, e hoje trabalha com telas rasgadas, costuradas e entrelaçadas, na série Tessituras da Alvorada. “Muito me interessa o que podemos construir a partir dos fragmentos, sem necessariamente apagar as marcas das rupturas”, diz.
Para Anderson, ser independente é “construir continuamente as condições para que o trabalho exista e tenha continuidade”. Depois de perdas familiares, passou a ver fotografias e documentos como matéria-prima. Em 2022, fez a individual Alvorada, na Paulo Darzé Galeria, endereço que conhecia desde menino: “Quando criança, conheci aquela casa porque um tio meu trabalhava como caseiro”.
A artista Jasi Pereira vem de outro caminho, mais atlântico. Depois de dois meses de residência em Luanda, a palavra falada passou a ocupar um lugar cada vez mais presente em seu trabalho, com o kimbundo em conversa com o português de Salvador. O processo, ela explica, começa fora do ateliê. “O primeiro passo para o surgimento de uma obra é a vida”.
Jasi pesquisa quilombos urbanos a partir do bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, e leva à feira pinturas sobre madeira que carregam a tradição da iconografia: camadas sobrepostas, começando em cores escuras das quais vão emergindo os focos de luz. “A Bahia não é o tema das minhas obras", afirma. "A Bahia é a minha obra”.
Heitor diz que a ideia da Trama de ser uma ponte direta entre artistas e compradores parece promissora. Ele sonha com uma plataforma digital que una artistas independentes e financiadores, com preços mais acessíveis. Em paralelo à feira, no sábado, 14, das 10h às 15h, ele inaugura sua primeira individual, “os rastros, as pistas, um caminho”, na galeria do Ativa Ateliê, no Rio Vermelho.
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Diálogos

Quem organiza o caldeirão é a curadora Stella Carrozzo, que prefere falar em plural. “Não há uma narrativa única, e sim muitas narrativas”, diz. Seu ponto de partida é acreditar nos encontros. Para ela, o maior desafio do artista hoje é criar sem a urgência de comercializar sua obra imediatamente. "O artista é um trabalhador”, afirma.
É esse o espírito dos Diálogos Interdisciplinares. Na sexta, 13, colecionadores baianos contam como começaram, em “Como começar uma coleção”. No sábado, 14, a discussão é “Quem sustenta o sistema de arte?”, e também “Como construir trajetórias sustentáveis para os artistas?”. Stella já deixa uma pergunta no ar: leis de Salvador, Recife e João Pessoa preveem obras de arte em empreendimentos urbanos. “Estas leis são cumpridas?”, provoca.
Os ateliês abertos seguem a mesma linha. Neles, o visitante vê obras em processo, materiais e ferramentas e conversa com quem as faz. Para Stella, na arte contemporânea, o próprio processo é a obra. Ela nota ainda uma certa timidez do grande público diante das obras, herança de instituições que ditaram por muito tempo como o espectador deveria se comportar em um museu ou em uma galeria. A feira quer, aos poucos, soltar o público, diz. Já a ideia de olhar para dentro, avisa Monique, não é fechar a porta. “Autonomia não é isolamento, é o que permite dialogar de igual para igual”.
Stella diz ainda que a produção baiana não cabe em rótulos prontos. Muitas das soluções formais e conceituais dos artistas presentes estão ligadas à territorialidade e à ancestralidade, mas podem não ser imediatamente reconhecíveis como tais. Para ela, a Bahia é criativa também na maneira como produz. “A muitos artistas foi negado o espaço para que pudessem mostrar sua produção, e há muito para se descobrir ainda”.
A programação ainda inclui performances de Marcondes Dourado e de Ana Dumas (Missy Blecape). Na mesma região, na Rua Chile, o Salvador Cocktail Festival toma conta, nos dias 14 e 15, com mais de 40 bares.
O cenário tem sua ironia. O Palacete foi erguido em 1917 como sede da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia. A casa de quem trabalhava no comércio agora vende arte e discute o trabalho de quem a faz. Com a feira, volta a abrigar trocas entre quem vive e trabalha no Centro e visitantes de outros bairros, cidades e países.
A direção do evento quer que o experimento torne-se anual, com dados de público e vendas para um mercado ainda pouco conhecido, e ambiciona formar gente que ame a produção de artistas que se implicam, cultivam e se relacionam com o que amam.
O primeiro teste é simples, segundo o artista Anderson AC. “Queremos que as pessoas saiam da Feira com outra relação com a arte, tenham ou não comprado uma obra”. Ele resume a aposta ao falar de Salvador: "É um território que não é apenas origem, mas também presente, criação e futuro”.
SERVIÇO
Palacete Arte | Trama – 1ª Feira de Arte Contemporânea da Bahia
Quando: 12 a 15 de novembro. Dia 12, das 17h às 22h; dias 13, 14 e 15, das 10h às 22h
Onde: Palacete Tirachapéu (Rua Tira-Chapéu, 1, esquina com a Rua Chile, Centro Histórico)
Quanto: entrada franca, sujeita a lotação. Obras de R$ 500 a R$ 9 mil
Diálogos: 13/11, às 17h30; 14/11, às 15h e às 17h30. Vagas limitadas, inscrição em feiratrama.com


