CRÔNICA
Uma caveira encontrada na Bahia virou motivo de discussão entre casais
Confira a crônica deste domingo, 1º


Meu marido obviamente ainda habitava esta dimensão quando voltávamos para Lençóis após visitar meu lugar preferido na Chapada Diamantina, a Lagoa da Pratinha. Eu estava ao volante e avistei uma ossada de boi ou cavalo, já branca pela exposição ao sol, à beira da estrada de barro. É possível que então tenha me baixado o espírito de Georgia O’Keefe, pois além de flores a pintora também gostava de retratar ossos calcinados de animais no deserto onde morava, no estado do Novo México, EUA.
A visão ficou em minha cabeça e, passados alguns quilômetros, anunciei que voltaria para coletar exemplares do esqueleto. Scott não se conformou. Teve início uma guerra que perdurou desde aquela decisão de retornar ao local onde jazia o objeto da discórdia até me tornar viúva, seis anos depois.
Não me lembro dos argumentos que ele usava, se é que tinha algum. Simplesmente rechaçava a ideia da caveira e fêmur (?) que recolhi, mais tarde colocados em cima da geladeira. Pra mim, era um gesto poético, como se O’Keefe me sussurrasse: “Acho que são estranhamente mais vivos do que os animais perambulando”. Pra Scott, era macabro, de mau gosto, não sei. Mas como eu vivia fazendo as vontades dele, ele agora que engolisse a minha – o que nunca aconteceu. Morreu execrando minha tentativa de poesia.
Quando meu atual namorado veio pela primeira vez à minha casa, adivinhem com o que ele implicou? Achou desrespeito com o pobre animal, enquanto eu considero uma homenagem: em vez de continuar abandonado e anônimo, tem meu carinho e apreço. Agora se mudou para o jardim da varanda e vive arrodeado de plantas bonitas, flores e perfumes.
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No entanto, as discussões foram tantas que cheguei a pensar em doar os restos do equino à Escola de Veterinária. Se tivesse chegado ao ponto de Ou eu ou eles! eu teria concluído que o namorado não era pra mim, mas felizmente ele se conformou com a minha bizarrice. Pelo menos até eu bater as botas, Cavalinho será amado na Terra.
A 473 milhões de km de nós gira o planeta Dimidium, morada do filósofo Kierkegaard, que sofreu sua dose de escárnio enquanto andou por aqui. Dia desses, ouvi um podcast sobre ele e o enviei a um amigo que parece ser uma reedição do atormentado dinamarquês. Há pouco, recebi um telefonema: “Me identifiquei tanto que me senti deflorado”.
Filósofo, poeta ou artista é tantas vezes esqueleto ardente, inadequado e marginal, enfrentando a vida sem os oba-obas que a tornam viável para nós. E embora isso pudesse lhes fazer presunçosos, sentindo-se melhores do que quem só nasce, cresce e morre, o preço que pagam com o isolamento sentido ou real certamente compensa qualquer pretensão de superioridade.
Esse amigo arrasta noites e dias por não conseguir ser “fútil e tributável”, condição também amargada pelo poeta Fernando Pessoa. Sente sua existência como uma ofensa a Deus. Às vezes me faltam palavras de afeição e hoje eu soltei uma gracinha: Vou te dar um massageador de cabeça pra você poder fazer uns cafunés em si mesmo. Ele riu, pois acha muita graça nas coisas, num encantamento de asas delicadas e elegantes que planam sobre tudo e tornam o azedume impossível.
Localizado na Galáxia do Redemoinho, o planeta M51-ULS-1 é o primeiro descoberto fora da Via Láctea e abriga uma senhora que conheço desde o último milênio. No passado, lançava mão de “Saiu no jornal!” como prova de que o que dizia era indiscutível; agora, se vale da internet para justificar as estultices mais absurdas. Há uma semana, incumbiu-se da missão de avisar aos entes queridos que o sol vai explodir em breve e assim vamos ficar três dias desconectados!!! Comecem logo a estocar água!!!!!
Fiquei pensando no inter-relacionamento de seres residentes em astros distando milhares de anos-luz uns dos outros. Ao mesmo tempo, em como é fácil fazer com que os habitantes de uns acreditem em qualquer coisa. Kierkegaard 2.0 certamente lançaria um olhar cheio de ternura sobre a senhora em seu bravo propósito, ao passo que dela só receberia o adjetivo “maluco”, com exclamação e desprezo indisfarçáveis.
Enquanto isso, Cavalinho polêmico me olha do jardim, indiferente a quem estaria certo: Se (a) Scott e meu namorado; b) Georgia e eu esquisitas; c) Os aflitos; d) D. Olímpia e os sobreviventes da explosão solar; e) Todas as alternativas anteriores.
*ró-Ã é autora de Dor de facão & brevidades


