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"Diabetes é uma doença que age em silêncio", diz Thaisa Trujilho

Publicado domingo, 21 de novembro de 2021 às 10:30 h | Atualizado em 19/11/2021, 18:47 | Autor: Gilson Jorge
Thaisa Trujilho, endocrinologista | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE
Thaisa Trujilho, endocrinologista | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE -
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Cientistas acreditam que a mudança de hábitos em função da pandemia, com menos exercícios físicos, aumento de ingestão de calorias e menos idas ao médico pode estar por trás do aumento de 16% nos casos de diabetes em todo o mundo entre 2019 e 2020. Para analisar o relatório, que será publicado em dezembro, ouvimos a endocrinologista Thaisa Trujilho, que é presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes – Regional Bahia, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia – Regional Bahia, preceptora do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (Cedeba), coordenadora de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UniFTC e médica responsável pelas provas funcionais dos Laboratórios Sabin.

A Federação Internacional de Diabetes (IDF, na sigla em inglês) vai divulgar em dezembro o relatório anual sobre diabetes no mundo. O que a senhora pode adiantar sobre a situação no Brasil?

Os dados do IDF mostraram um aumento importante nos casos de diabetes no Brasil e no mundo. Os dados mostram que 537 milhões de pessoas no mundo têm diabetes, sendo que houve um aumento de 16% em relação aos dados de 2019. Em relação ao Brasil, estima-se que 15 milhões de brasileiros tenham a doença, embora um terço desconheça isso. É um problema porque o diabetes é uma doença que é importante ter diagnóstico precoce para evitar as complicações decorrentes da doença, como problemas renais, cardíacos, nos nervos, inclusive levando ao comprometimento da circulação nos pés, amputações e problemas de visão que podem levar à cegueira.

Quando se deve fazer o exame?

O rastreamento desses pacientes de risco deve ser feito o quanto antes. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda o rastreamento em pessoas acima de 45 anos ou aqueles com fatores de risco para a diabetes, como obesidade, sedentarismo, casos de parentes de primeiro grau com diabetes, síndrome dos ovários policísticos, pessoas que tenham hipertensão e doença cardiovascular devem fazer o rastreio porque uma vez diagnosticada precocemente se previnem essas complicações citadas anteriormente. Este ano, a Campanha do dia Mundial do Diabetes tem sido pautada na importância dessa prevenção. O diabetes é uma doença que age em silêncio. Estamos passando por uma pandemia de Covid-19 e, nesse período, houve o aumento do sedentarismo. Com mais tempo em casa as pessoas ficaram mais ociosas. Alguns estudos apontaram o aumento da obesidade. Isso tudo combinando com uma falta da atenção básica. As pessoas não iam ao consultório para fazer uma avaliação, então, isso tudo pode ter contribuído também para o aumento desses números. Inclusive, percebemos que alguns pacientes descompensados tinham um pior prognóstico em relação à Covid-19. Os pacientes diabéticos tinham mais complicações com a Covid-19. Assim como percebemos que pacientes que não eram sabidamente diabéticos, após a Covid-19 tiveram diagnóstico de diabetes. Aí não se sabe se foi o uso de corticoides ou o próprio processo infeccioso. Às vezes, poderia até existir o diabetes não diagnosticado precocemente ou a própria Covid-19 levando a uma elevação da prevalência do diabetes. A Covid-19 tem se mostrado um fator complicador do diabetes.

Os dados são novos, já se pode ter uma certeza sobre o impacto da Covid-19 no diabetes?

O que temos visto é que houve esse aumento de prevalência em um grupo de pacientes. Ainda está se estudando o que poderia ter levado a esse aumento. Vários fatores poderiam ter contribuído. O corticoide é um medicamento que sabidamente eleva a glicemia e outros fatores que estão sendo estudados para se entender melhor a relação entre Covid-19 e diabetes.

O diabetes é, como a senhora falou, uma doença silenciosa. Mas os médicos falam também na pré-diabetes. Já sabemos que é importante fazer o rastreio, mas além da glicemia há algum sintoma que possa ligar o alerta e a pessoa pensar que talvez esteja com pré-diabetes?

Normalmente, o pré-diabetes é assintomático, porque os níveis de glicose ainda não estão muito elevados. Só para ter uma ideia de como a gente diagnostica o pré-diabetes: quando a pessoa tem uma glicemia em jejum entre 100 e 126 mg/dL (miligrama por decilitro), quando a pessoa tem uma hemoglobina glicada entre 5,7 e 6,5 ou quando o paciente faz o teste de tolerância que se faz em laboratório ingerindo a glicose, e ele tem após duas horas entre 140 e 200 ml/dL. Os níveis não são muito elevados, mas se esses valores forem mantidos podem levar a complicações. Muitas vezes, o paciente não sabe que tem pré-diabetes, mas apresenta o início de algumas complicações, como as oftalmológicas, renais ou neurológicas. Para o diagnóstico de diabetes, isso tudo precisa ser repetido. Uma glicemia só não dá o diagnóstico. Mas, repetidamente, uma glicemia superior a 126 mg/dL, uma hemoglobina glicada igual ou maior que 6,5 ou um teste de tolerância superior a 200 mg/dL. Muitas vezes, o paciente evolui anos com esse quadro inicial de pré-diabetes, evoluindo para um diabetes ainda sem sintomas, início de complicações que ele não percebe e só chega no médico porque tem uma descompensação mais aguda ou o diabetes está tão elevado que começa a dar aqueles sintomas que são mais conhecidos, como muita sede, muita fome, perda de peso, depois da diurese a urina junta um pouco de formiguinha ao redor do vaso porque a glicose foi eliminada na urina. Aí ele fica preocupado e vai ao médico e já diagnostica níveis muito elevados. Algo que poderia ter sido evitado se tivesse feito o diagnóstico precoce.

Um artigo publicado na página nacional da SBD indica que 25% dos pacientes de diabetes vão desenvolver pelo menos uma úlcera nos pés…

Não sei dizer a prevalência exata, mas infelizmente é um problema que temos vivenciado com muita frequência. Por causa da neuropatia diabética (degeneração progressiva dos nervos), ele nem sente quando pisa numa superfície com temperatura mais quente ou quando o pé atrita com uma pedrinha, um objeto perfurante. O paciente coloca o sapato, entra uma pedrinha no sapato, lesa aquela região e não sente. Infelizmente, as pessoas não fazem um autoexame do pé. Por isso que temos que ensinar esse paciente a olhar todos os dias os pés e tratar, hidratar. Às vezes, a pele muito ressecada leva a fissuras, que são portas de entrada para bactérias entre os dedos dos pés, muitas vezes se formam micoses, principalmente quando se toma banho e não seca de forma adequada entre os dedos. Essa umidade acumulada forma micoses, porta de entrada para infecções bacterianas, levando a problemas de gravidade muito grande porque, às vezes, o paciente só chega quando o pé está infectado e, muitas vezes, por problemas vasculares, acabamos não conseguindo resolver, levando em muitas situações a uma amputação dos dedos e do próprio pé.

Quem tem os fatores de risco, mas não tem diagnóstico, quais são os alimentos que deve cortar?

Essa pergunta é extremamente importante porque sabemos que ao mudar o estilo de vida conseguimos prevenir a doença ou a evolução da doença. Prevenindo a obesidade, com certeza reduz a chance de ficar diabético. Podemos fazer isso através de uma refeição balanceada, evitando carboidratos simples, que são os açúcares, as gorduras e o excesso de calorias. Devemos ter uma alimentação mais balanceada, rica em frutas, legumes, com muita fibra, que é favorável à melhora do trânsito intestinal e também para evitar a obesidade; e hidratação, uma alimentação rica em líquidos, evitando refrigerantes e líquidos com muito açúcar.

E as bebidas alcoólicas, qual a relação com o diabetes? Tem gente que prefere uma determinada marca de cerveja, por exemplo, por não conter açúcar em sua composição.

Claro que tem as bebidas alcoólicas com açúcar, que realmente não devemos ingerir em excesso. O paciente não-diabético beber com moderação não tem problema. Mas mesmo as bebidas alcoólicas pobres em açúcar, infelizmente, têm calorias. Então, muitas vezes o paciente ingere à vontade por não ter açúcar, mas está ingerindo calorias.

Ainda estamos na pandemia e muita gente segue trabalhando em casa. Aliás, o home office em alguns casos deve prosseguir mesmo após o fim das restrições sanitárias. Quais são os conselhos que a senhora dá para quem está nessa rotina de trabalhar em casa e se move menos do que fazia antes?

Quanto mais o paciente se movimentar, melhor. Claro que tem que haver uma readequação mesmo da nossa vida pós-pandemia. Mas dentro de casa mesmo o paciente pode estar se movimentando. Evitar ficar muito tempo sentado. Se estiver fazendo atividade que o obrigue a permanecer no computador por muitas horas, que ele faça uma pausa e ande, se alongue em casa, fazer caminhada em locais próximos a sua casa para não ficar muito sedentário.

Pensando em obesidade, no cálculo da massa corpórea, a partir de que índice a pessoa deve ficar preocupada?

O cálculo é o peso sobre a altura ao quadrado, assim achamos o Índice de Massa Corpórea (IMC). De 30 a 34,9, é o grau 1 de obesidade. O grau 2 é de 35 a 39,9, e grau 3 acima de 40. Uma coisa é que quanto mais o paciente vai ganhando peso, mais vai aumentando a resistência à insulina. Às vezes, tem uma genética que predispõe ao sobrepeso e que junto com o fator ambiental, que seria uma dieta irregular e ao aumento do peso, poderia então desencadear o diabetes. No início, o pâncreas tenta aumentar aumentar a produção do hormônio insulina na tentativa de compensar essa resistência, só que chega num momento em que ele não consegue produzir a quantidade necessária para vencer essa resistência e aí começa a haver uma falência do pâncreas e a subir a glicemia no sangue. E ele começa lentamente a ficar diabético. Isso eu estou falando no caso do diabético 2, que é o paciente associado ao sobrepeso, dieta desequilibrada e sedentarismo. O paciente tipo 1 é aquele que tem um quadro autoimune, em que há anticorpos com anticélulas pancreáticas que leva a uma redução da produção de insulina por causa desses anticorpos que ficam agredindo o pâncreas. Aí, geralmente, são pacientes mais jovens, crianças e adolescentes que ficam diabéticos. O Índice de Massa Corpórea está relacionado ao tipo 2. Cerca de 90% dos pacientes diabéticos hoje são do tipo 2.

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