Dignidade da história

Estudantes reúnem-se no Quilombo do Quingoma

Publicado domingo, 03 de julho de 2022 às 06:18 h | Atualizado em 02/07/2022, 21:46 | Autor: Gilson Jorge
Durante a semana, os participantes aprenderam fundamentos do audiovisual, com aulas de fotografia e roteiro
Durante a semana, os participantes aprenderam fundamentos do audiovisual, com aulas de fotografia e roteiro -

Além de conhecerem  narrativas que não constam nos livros didáticos tradicionais, os estudantes  participam de oficinas de audiovisual,  interpretação, roteiro, som e fotografia para produzirem curtas-metragens  que serão exibidos e divulgados como resultado do projeto, podendo garantir a passagem para Portugal em novembro.

O mais jovem dos monitores do projeto na Bahia, com 18 anos de idade, Ednei William usa sua juventude como ponte para facilitar a comunicação com os integrantes dessa turma. Ele mesmo participou como aluno do projeto em 2017, mas não teve a experiência de visitar uma aldeia e um quilombo, atividade incluída posteriormente no programa. 

Mas ressalta a convivência no campus como uma oportunidade de interagir com pessoas de diferentes lugares, níveis de renda e visões de mundo. "Aqui todo mundo come as mesmas coisas, aprende o mesmo conteúdo. Não vi por aqui nenhum caso de racismo ou homofobia", defende. 

Sobre a viagem a Portugal, onde ficou 10 dias, além da curiosidade sobre o país colonizador do Brasil, Ednei ficou impactado com as visitas aos museus: "Nós, pretos, não estamos acostumados a acessar lugares de oportunidades".

Um dos integrantes deste ano, Daudi Silva, 14 anos, sentiu-se um pouco mais à vontade desde o início do acampamento por ter mais 10 colegas da Escola Amália Rodrigues, de Salvador, por perto. 

Quando teve que produzir uma história em quadrinhos, requisito para a seleção, acabou topando a sugestão de uma professora para que ele abordasse Mestre Bimba.

 "Eu não o conhecia, mas achei legal que ele fez muito pelo bairro onde eu moro", conta o jovem estudante do Engenho Velho da Federação. Apenas Engenho Velho, para os íntimos.

Moradora ali mesmo de Mata de São João, Jaqueline Sales, 13 anos, da Escola Célia Goulart, não sentiu tanta pressão pelo deslocamento. Sentiu uma timidez inicial, mas estava muito interessada em conhecer pessoas novas e até dividir o quarto com 19 meninas desconhecidas lhe pareceu uma experiência fascinante. 

"Eu nunca tinha acampado e estar com tanta gente nova é muito legal”, conta a adolescente que quase não se inscreveu, com medo de não ser aprovada, mas com o incentivo de uma professora e de um amigo que fez a viagem a Portugal, acabou se animando. 

Ela escolheu desenhar a vida de Antonieta de Barro, jornalista e escritora catarinense que se tornou a primeira negra a ocupar uma vaga no parlamento brasileiro.

Multiplicidade

“Nosso foco é valorizar a perspectiva dos povos indígenas e africanos na formação identitária, histórica e cultural do Brasil, exaltando a ancestralidade, diversidade, pluralidade, multiplicidade e trabalhando conceitos importantíssimos como antirracismo, afrocentricidade, indigenismo e ecossocialismo em todas as etapas do projeto”, destaca Marici Vila, diretora executiva da Origem Produções.

A parte criativa do projeto empolga os jovens.  Mas, um ponto importante do programa, para quem está começando a difícil travessia rumo à vida adulta, é entender como funciona a lógica do mercado de trabalho e a existência do Estado como agente do bem-estar social.

No exercício proposto pelo projeto, as turmas se dividem em famílias, cuja formação dos integrantes de cada núcleo familiar fica a cargo dos próprios estudantes.  Eles decidem quem casa com quem e quantos filhos terão. 

A partir daí, é feito um sorteio em que cada família é designada com uma renda mensal de um, três ou dez salários mínimos. E uma lista com preços de aluguel, supermercado, transporte e outras despesas é colocada no quadro de giz, para que todos entendam didaticamente a origem das desigualdades sociais. 

"O mais importante é o pensar coletivamente. É impossível termos uma situação em que todos ganhem o suficiente para pagar educação e saúde privadas. Então, a questão é lutar para que esses serviços sejam oferecidos pelo poder público com boa qualidade", afirma o professor Paulo Sérgio da Silva, que juntamente com a colega Jaqueline Queiroz, também ensina história no Instituto Steve Biko.

Uma das soluções que já foram apresentadas por alunos do programa para driblar a falta de dinheiro para pagar as contas foi fazer gato de luz e água. "Por mais que a gente saiba que não é a forma correta, é o jeito que eles têm de garantir a água”, diz Jaqueline.

"As questões materiais determinam também as questões morais. As pessoas precisam de luz e água para sobreviver e vão fazer o necessário para sobreviver", completa Paulo Sérgio.

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