“Não podemos ficar em silêncio”, diz antropólogo e escritor Ordep Serra

Publicado domingo, 28 de junho de 2020 às 09:41 h | Atualizado em 28/06/2020, 10:09 | Autor: Marcos Dias

O antropólogo e escritor Ordep Serra tem ficado em casa, mas está em plena atividade: orienta estudantes e diz que deve sair do isolamento com meia dúzia de livros prontos. Em meados de junho, ele e o poeta e advogado Luiz Antonio Cajazeira Ramos (ambos da Academia de Letras da Bahia) lançaram o Manifesto dos Escritores, Artistas, Cientistas, Jornalistas, Professores e Pensadores Baianos pela Democracia. Um dia depois já eram mais de 400 assinaturas. Na última terça-feira, 23, chegaram a 1.456. Para aderir, é possível entrar em contato com eles pelo Facebook. A partir de amanhã, o manifesto, acompanhado do abaixo-assinado, será encaminhado para as principais autoridades políticas e culturais de Salvador e das esferas estadual e federal. “Vamos sair disso pelo diálogo e pela crítica. O que não pode é fazer de conta que está todo mundo de acordo com o que está aí. À medida que formos fazendo os contatos e o diálogo, vamos criando um novo caldo de cultura”.

Como você e Luiz Antonio Cajazeira Ramos chegaram à ideia de elaborar o Manifesto dos Escritores, Artistas, Cientistas, Jornalistas, Professores e Pensadores Baianos pela Democracia?

Cajazeira e eu estamos mantendo contato, somos muito amigos, e ambos sentimos que havia um sentimento geral das pessoas ligadas à cultura, pensadores, poetas, escritores de um modo geral, cientistas, jornalistas e filósofos, com uma reação forte contra o fascismo que está se impondo no Brasil; contra o racismo, essa brutalidade policial de toda hora, a maneira irresponsável com que o governo reage à pandemia, incrementando o perigo. Tudo isso nos levou ao sentimento que a gente precisa reagir, os artistas não podem ficar parados, aqui na Bahia sobretudo. A Bahia sempre teve um papel importante, de vanguarda, na área da arte e da cultura, e não pode ficar silenciosa nesta hora. Então, decidimos partir para este manifesto, e logo na primeira proposta que a gente fez foram 400 pessoas que subscreveram, e agora temos mais de 1.500 pessoas, com nomes da maior importância.

Como será o desdobramento dessa ação?

Passamos a trabalhar no sentido de criar um fórum permanente. A gente lançou o manifesto pelas redes sociais, estamos comunicando à imprensa, e a primeira medida será enviar este manifesto às autoridades de todas as áreas que têm a ver com isso, a Justiça, o STF (Supremo Tribunal Federal) e outras instâncias do Judiciário, que precisam ter conhecimento dessa posição dos intelectuais baianos. Vamos mandar para todos, as academias de ciências e letras do Brasil e da Bahia, de uma maneira particular, Ministério Público e demais setores: não estamos satisfeitos e estamos dispostos a mudar essa situação em defesa da democracia.

Qual o efeito prático, a seu ver, da criação do manifesto?

A primeira coisa é romper o silêncio, porque o fascismo se alimenta do silêncio. Quem está calado consente. A gente está dizendo que não consente. Estamos revoltados com essa situação e dispostos a combater o fascismo que está despudorado no Brasil, com grupinhos de milicianos pedindo intervenção militar e aderentes pedindo fechamento do Congresso, do Supremo, AI-5, um recuo para o que é mais tenebroso na história do Brasil. O manifesto é um passo importante para marcar essa posição. A Bahia pensante não está de acordo com isso.

E mais à frente?

Com o fórum, vamos nos manter em diálogo e tomar iniciativas diversas, vamos tentar comunicação com organismos de cultura e de luta pela democracia do mundo todo. Vamos fazer denúncias da situação, tomar posição diante dos desafios que são colocados. Temos propostas a encaminhar a diversas instâncias, a área da cultura precisa reagir. Essa negação da ciência, essa negação do pensamento que está se espalhando, afinal, os princípios do fascismo.

Há algum aspecto que o senhor considera prioritário?

É até difícil hierarquizar, porque são coisas de extrema gravidade, mas uma coisa que me vem logo à mente é a necessidade de a gente fortalecer o SUS e mudar a política de saúde do Brasil, porque está sendo assassina. Não é possível essa falta de transparência diante de uma pandemia. Como pode fazer reação epidemiológica se você não tem dados confiáveis, se se impõe um sigilo absurdo? Mas tem também a questão da economia e a questão da cultura, a gente vai atuar nessas áreas todas, a desigualdade e o racismo. A gente pretende cobrar das autoridades, saber o que elas estão fazendo, nos níveis municipal estadual e federal, de combate à brutalidade policial e ao racismo, a explosão das milícias. Temos que cobrar, afinal de contas o governo está usando nossos impostos em que mesmo? Se não está atendendo à saúde, à educação, à cultura, nada disso, o que é que está acontecendo? A gente tem que criar um espaço de conversação entre as pessoas que pensam no nosso estado, criar diálogo com outros estados, trocar ideias e que tipo de iniciativas podemos tomar.

Algumas dessas condições, como o desprezo à cultura e ao pensamento por parte do governo federal, são anteriores à pandemia. O que cabe ao estado e ao município neste momento?

A primeira coisa é avisar as autoridades do município e do estado que há esta insatisfação de todo esse imenso setor e fazer nosso papel de crítica. Se desenvolverem alguma iniciativa positiva, também estaremos apoiando, mas vamos estar vigilantes. Tudo depende do diálogo que vamos iniciar entre nós, não eu e Cajazeira que vamos propor, nós vamos conversar com a comunidade que está se formando, eleger metas e partir para a tarefa de reivindicação e crítica.

O que pensa, como antropólogo, que justifica essa “acomodação” do brasileiro?

A sociedade civil brasileira, quando estava começando a se organizar, teve uma série de rejeições a suas propostas de participação da gestão das políticas públicas. Não nos organizamos suficientemente, esse é o problema, precisamos nos organizar, nos movimentar e não podemos ficar em silêncio, é o que estamos tentando corrigir, em primeiro lugar, acabar com esse silêncio. Política é coisa de todo mundo, não é só de partido político, política é a vida, é preciso tomar a defesa dos direitos.

Como diria Ítalo Calvino, “o que no inferno não é inferno”?

A Ufba e as universidades baianas têm até sido exemplares nesse particular, não tenho queixas contra isso, têm sido centros de resistência a essa onda de negação de direitos, esse ataque contínuo ao saber. Então, a gente precisa se articular e formar uma grande rede, até para a gente saber, se sou informado sobre os problemas que vocês (jornalistas) estão enfrentando, eu posso me pronunciar, trazendo outras categorias para se mostrarem aliadas. A gente não pode é ficar isolado, isolado a gente apanha e fica por isso mesmo. Mas quando todo mundo se junta, porque cada um tem uma voz, vamos botar essa voz para vibrar e provocar mudanças.

Mas para quem mais importa saber sobre fascismo, como chegar a estas pessoas?

A gente não vai tentar convencer fascistas, eles estão aí dizendo que a terra é plana e não adianta. Estamos tentando mobilizar quem está em condições de reagir, é isso que vamos tentar fazer. É difícil, é, mas não é impossível. É muito importante que agora os intelectuais digam que estão escandalizados com a brutalidade do racismo que está dominando este país, precisamos somar forças com o movimento negro, o movimento indígena. Sou membro da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), estamos tentando lutar contra a política da ignorância, e é preciso criar redes. Temos excelentes artistas e pensadores importantes , mas não estão se comunicando.

O senhor organizou na Casa de Oxumarê (2019) um encontro com representantes de diversas orientações religiosas por questões ambientais. Essa pluralidade faz parte da ideia do Fórum?

A ideia é essa. Tem organizações religiosas, por exemplo, que a gente vai precisar contatar, como a própria CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o Sine (Sistema Integrado da Nova Evangelização), o pessoal dos terreiros, e criar uma liga para reagir. Em relação ao manifesto, muita gente do terreiro assinou, o arquiabade do Mosteiro São Bento assinou, há muita disposição.

Há quem diga que a própria religião é uma forma de as pessoas não reagirem às condições da realidade. Isso se sustenta?

O campo religioso no Brasil é muito diversificado. Você pode ter essa inércia, o conformismo, como você pode ter o contrário também. Você tem a CNBB agora pregando o inconformismo diante da injustiça social e o racismo, tem o Sine protestando contra a violência feita aos indígenas, não é só uma religião, claro. Tem as igrejas-empresas extremamente reacionárias anestesiando e explorando o povo, mas tem também um movimento evangélico forte pela democracia. Temos que nos valer desse pessoal que tem ânimo de luta contra a desigualdade social, o obscurantismo. O problema para nós, dessa área múltipla de artistas, escritores, etc., é o obscurantismo que está se espalhando e a gente não pode concordar com o obscurantismo. Até há pouco tínhamos um ministro da Educação analfabeto funcional, não consegue fazer uma fala articulada, não conhece a língua, diz disparates, insulta todo mundo, isso não se pode aceitar.

A seu ver, trata-se de um projeto deliberado ou algo que veio à tona do pior das entranhas psíquicas dessas pessoas?

Há um movimento que não é só no Brasil, é internacional, de cultivo do obscurantismo. Trump é um bom exemplo disso. Os Steve Bannon, o papel que ele desempenha não só nos EUA, mas na Europa e aqui, é: vamos fomentar o obscurantismo, porque é a única saída diante da pressão de uma desigualdade monstruosa e crescente no mundo e não há como se justificar isso racionalmente, você precisa produzir mentira e obscurantismo, é a única saída. Como é que você justifica que meia dúzia de bilionários tenha a renda igual à de mais da metade da população? Não tem como defender isso racionalmente, os projetos do neoliberalismo hoje são claramente indefensáveis, então, é preciso recorrer a fake news, ao obscurantismo, aproveitar o que já existe e disseminar mais ainda, porque temos pregadores do obscurantismo hoje no mundo e, infelizmente, com muito destaque no Brasil.

Como isso repercute lá fora?

Tenho muito contato com colegas da Europa e dos EUA, e está todo mundo escandalizado com o Brasil, sem acreditar no que está acontecendo aqui. A gente ficou algo digno de lástima ou de escárnio. Como se o país sucumbisse a uma estupidez total, isso não podemos aceitar. Temos que mostrar que não somos isso, aqui existe pensamento. Aqui existe criação. Eu fico impressionado, quando fui à Europa há 10, 15 anos, o Brasil era visto com encanto, se falava de Brasil com esperança, um país bonito, interessante, novo, crescendo, com criações, todo mundo olhando para o Brasil e, de repente, de uma hora para outra, vira o contrário, como se a gente tivesse virado lixo. O fascismo produz esse efeito, perdemos o respeito mundial.

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