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CRÔNICA

Renunciar é desistir? Os sentidos de uma palavra que atravessa gerações

Confira a crônica do caderno Muito deste domingo, 8

Antonia Damásio*
Por Antonia Damásio*
A difícil arte de renunciar ao amor, às certezas e à própria história
A difícil arte de renunciar ao amor, às certezas e à própria história - Foto: Editoria de arte A TARDE

Gabarito a prova de esquisitices. Meu mundo é povoado por uma lista infinita de soluções mirabolantes, pouco convencionais e, quase sempre, subversivas. Gastava parte do meu tempo, na infância, consultando o dicionário. Uma palavra nova, sua semântica, seus muitos sentidos. Sentia muito. Etimologica-mente.

Na fase de inquirir o de onde vêm as coisas, pouco me importei com o modo que a natureza entregava os bebês. O objeto causa do meu desejo estava afeto à origem de certas palavras. Sua arbitrariedade e torpeza traziam um brilho especular aos meus olhos.

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Primo por descobrir o mistério dos números primos. Eles poderiam até contrair casamento, suportando os riscos. Não curto análise sintática. Vislumbro a intangibilidade das palavras que assumem a forma da água. Verbetes condensam e se precipitam sobre mim. O ruído difuso de alguns deles me incomoda. Os excessos me ofuscam obnubilosamente.

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Há uma palavra que retorna. Como um vocábulo recalcado. Renúncia! O instituto da renúncia me instiga. E ele me é caro. Eu ainda nem habitava o reino dos viventes e o Brasil já o experimentava. Há neste significante um não sei o quê de abortivo. Mal completou sete meses e o homem da vassoura varreu os seus pés do chão do Alvorada. Um movimento que mudou meu mundo, muito antes que eu me tornasse parte incorporada nele. Minha mãe nasceu de sete meses. Desistiu de morrer. Cinco anos para andar para, em seguida, ganhar as ladeiras do centro da cidade, atuando como Visitadora Sanitária.

Aprendemos a desistir e não é com os livros. A minha renúncia enche-me a alma e o coração de tédio. Triste memento. As consequências das renúncias nossas de todos os dias deixam marcas. Algumas profundas, outras nem tanto. Nasci velha, no auge da ditadura, e já gostava de Nelson Gonçalves e de Vicente Celestino, e de Ângela Maria. E agora, cinquentenária que sou, sinto que no amor e na guerra é sempre difícil saber renunciar.

*Psicanalista

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