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"Se não quiser, não precisa ficar careca"

Publicado segunda-feira, 22 de janeiro de 2018 às 11:12 h | Atualizado em 22/01/2018, 11:55 | Autor: Luis Fernando Lisboa
A dermatologista Helga Abreu é especialista em tricologia, que estuda as doenças do cabelo e do couro cabeludo
A dermatologista Helga Abreu é especialista em tricologia, que estuda as doenças do cabelo e do couro cabeludo -
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Ao olhar no espelho e pensar no melhor acabamento para os cabelos num novo dia, pouca gente  atenta sobre a relação dos fios com a própria saúde. O impulso imediato talvez seja atribuir a eles apenas a função de moldura estética. Uma área da dermatologia, no entanto, dedica-se a estudar as doenças do cabelo, couro cabeludo e unhas. Chamada de tricologia, a especialidade apresenta uma curva crescente de importância no campo médico, com incremento de pesquisas e mais conhecimento para a população. Em 2016, por exemplo, Belo Horizonte recebeu um número de especialistas acima do esperado no 1º Simpósio Internacional de Cabelos e Unhas, com  chancela da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Neste ano, a terceira edição do evento acontece entre maio e junho, na capital federal. A dermatologista baiana Helga Abreu, 37, é membro da Associação Brasileira de Cirurgia da Restauração Capilar (ABCRC), e se dedica às áreas de cirurgia dermatológica, cosmiatria e tricologia. Frequentando tais encontros científicos e outros eventos dentro e fora do país, a médica ressalta que há um interesse cada vez maior com os cuidados capilares. Homens e mulheres vão ao consultório, na maior parte das vezes, para descobrir causas para a queda de cabelo. Nesta entrevista, ela afirma que há dez anos “não existia a ideia de que é possível estabilizar a queda, parar a evolução”. Também explica o desenvolvimento da área, detalha o papel do dermatologista nos procedimentos estéticos e recomenda cuidados para o verão. 

O cabelo, de modo geral, é visto como um elemento de menor importância na saúde?  

Quando se pensa em cabelo, muita gente ainda vê como uma área superficial, mais cosmética. É uma ideia comum e, por isso, é importante contextualizar o interesse dos dermatologistas, como um todo, pela tricologia. É como se estivéssemos nos posicionando numa área que mexe com a saúde, portanto, é da abrangência do nosso conhecimento. Desde o início, a gente estuda tudo sobre cabelo, unha, que também é uma coisa  esquecida. Mas atendo um volume grande de pacientes e percebo que, aos poucos, essa postura tem mudado. Alguns  já sabem que uma queixa relacionada ao cabelo exige a procura de  um especialista.  

E para quem é calvo, o couro cabeludo também entra nessa zona de cuidados?

Couro cabeludo também, porque tratamos da caspa, da seborreia e outras patologias da região. É uma área que apresenta avanços consideráveis, com maior segurança na hora do diagnóstico.  Às vezes, o paciente está com alguma doença no couro cabeludo ou no próprio fio de cabelo e está achando que é uma coisa simples, superficial, e não é. Em alguns casos, é preciso receitar medicação oral ou tópica à base de tônicos. 

A busca pelo auxílio médico surge pela importância do cabelo na aparência pessoal? 

Também, já que o cabelo, de um modo geral, mexe demais com o que a gente vê no espelho. É uma coisa que impressiona no consultório. É muito importante para a autoestima. Se você tem uma autoimagem com cabelo cheio, volumoso, a evolução para um cabelo ralo e fraco, por exemplo, deixa o emocional abalado. Diz respeito à imagem de si. Mesmo no inconsciente, há uma relação do cabelo com saúde. Ouço muito a pergunta: “Será que tenho alguma coisa grave para meu cabelo estar caindo?”.  Como algumas doenças, ou o tratamento delas, envolvem perda de cabelo, as pessoas me abordam com muita ansiedade pelo medo de ficarem carecas. Às vezes, as emoções se somam. Já há uma demanda de estresse que se junta à dúvida do que vai acontecer. Não dá para reduzir a importância do cabelo a um adereço estético, ainda que realmente ele seja responsável por compor o rosto. 

Dados da Associação Brasileira de Cirurgia de Restauração Capilar (ABCRC) indicam que 25% das brasileiras, entre 35 e 40 anos, sofrem de queda de cabelo. No caso dos homens, 40%  passam por isso antes dos 35 anos. Quais as principais causas dessa incidência? 

Se formos listar  todas as possíveis questões associadas à queda de cabelo, vou encher muito mais que os dedos da mão. Antigamente, o paciente chegava ao consultório dizendo “estou com queda de cabelo” e até tínhamos algumas armas de diagnóstico, como exame laboratorial, mas era um desafio  abrangente. Hoje, já há um exame específico do couro cabeludo, por exemplo, chamado tricodermatoscopia. Um aparelho é colocado em contato direto com o couro cabeludo, aumentando a imagem daquela região. Por isso, estão estabelecidos parâmetros para os diagnósticos. Quando uma mulher chega ao consultório com queda de cabelo,  provavelmente depois de alguns exames consigo dizer se a queda é relacionada à calvície ou se é apenas passageira. Esses casos envolvem tratamentos diferentes de quando  aparecem aquelas áreas arredondadas com o couro cabeludo liso. Temos mais certeza nos diagnóstico para diferenciar doenças.     

E os tratamentos já mostram resultados com validação científica?  

Os estudos estão acontecendo para comprovação da eficácia de tratamentos e da tecnologia associados às queixas de queda de cabelo. O microagulhamento, por exemplo, é uma arma que tem apresentado bons resultados. No caso do couro cabeludo, é um estímulo físico. Um rolinho com múltiplas agulhas bem pequenas, com variações de largura e comprimento, faz uma abrasão física que consegue estimular o crescimento do cabelo. Nos congressos, discute-se muito a validação da eficácia. Os eventos de tricologia, sejam nacionais ou internacionais, têm tido uma procura enorme e indicam essa vontade de mais conhecimento.  

Homens e mulheres buscam em igual medida esses tratamentos?

Sim, a procura dos dois públicos é proporcional. Mesmo que seja inconsciente, a importância do cabelo é cultural e não vejo diferença entre sexos. Há dez anos, quando um paciente homem, por exemplo, tinha uma queda de cabelo, logo dizia: “Ah, é porque meu pai é calvo”. Não existia a ideia de que é possível estabilizar a queda, parar a evolução. Se não quiser, não precisa ficar careca. Hoje, é possível manter os fios, sem precisar evoluir o quadro e ficar igual aos parentes. Não é um fato dado. 

No final de 2017, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) lançou a campanha Não Arrisque Sua Pele, no intuito de valorizar o trabalho especializado do dermatologista no cuidado de pele, cabelos e unhas, além da capacitação para conduzir procedimentos estéticos invasivos. Ainda é comum a confusão com o trabalho de esteticistas? 

Há quem chegue ao consultório depois de procurar um profissional não médico, mas me sinto no papel de esclarecer. É importante delimitar o trabalho do dermatologista porque há critérios para receber o título e uma prova nivela os profissionais credenciados do Brasil. Dentro da dermatologia, existem áreas de atuação. Então, há a cosmiatria, a cirurgia dermatológica e a tricologia, por exemplo. A cosmiatria é uma das áreas que pode causar confusão, sempre tem muita procura e é bem ampla: alcançamos toda a parte estética com cuidados preventivos e tratamentos para a pele. Os procedimentos vão desde prescrição de cosméticos  para a pele, com fotoproteção e hidratação, até acompanhamento alimentar. 

A toxina botulínica, o famoso botox, faz parte desses procedimentos?

Na abrangência de procedimentos contemplados na cosmiatria, estão a aplicação de toxina botulínica, os preenchimentos com ácido hialurônico, os fios de sustentação e outras técnicas como o peeling, dermoabrasão e microagulhamento. Na parte de tecnologia, aparelhos de laser melhoram a superfície da pele, seja na textura de rugas ou no aparecimento de manchas. Na verdade, a cosmiatria abrange tudo que fazemos para alcançar um resultado estético compatível com a vontade do paciente e com nosso bom senso  profissional. 

Conceitos de dermatologia são absorvidos pela área estética e, às vezes, perdem sua ideia original? Hoje fala-se muito  sobre harmonização facial, mas ainda é uma ideia confusa, não? 

Sim, com certeza. Eu, por exemplo, só uso o termo quando é possível explicar. Profissionais não médicos  usam bastante para legitimar seus procedimentos. Mas é preciso pensar no tratamento. A harmonização procura um resultado natural àquela demanda do paciente que chega com uma queixa na área de cosmiatria. O que ele quer? Pode ser uma vontade de parecer mais jovem ou melhorar a aparência de cansaço, por exemplo. Se você trata uma ruga localizada de maneira exagerada, com uso excessivo de substâncias, não é  possível alcançar um resultado harmônico.

Algumas pessoas, às vezes, pesam a mão...

Em alguns casos, dá para reconhecer na rua quem exagerou na medida. Muitos pacientes me exemplificam assim: “Quero injetar botox, mas não quero parecer com tal artista”. Há cinco anos, a área médica vem normatizando esses tratamentos. Não adianta, por exemplo, injetar toxina botulínica ou ácido hialurônico se você não tem uma pele tratada. O paciente precisa ser orientado pelo dermatologista nos mínimos detalhes.    

No verão, com sol, praia e piscina na programação de férias e fins de semana, quais os comportamentos sugeridos para a proteção da pele e cabelos? 

No caso dos cabelos, o ideal é usar produtos siliconados porque criam uma película em volta do fio e preservam dos possíveis danos. Alguns desses produtos têm fator de proteção solar, também defendendo da radiação. São os melhores. O indicado é uma barreira física mesmo. E não só para molhar o cabelo na piscina ou na praia: deve aplicar numa corrida  ou para jogar bola, por conta do vento e sol. Na pele, a gente fala da hidratação de dentro para fora e vice-versa. Para a saúde, no verão, é preciso uma alimentação adequada, com bastante água, aumentando a ingestão de líquidos. Também vale priorizar banhos frios porque ressecam menos a pele. Com o tempo quente, é melhor utilizar hidratantes leves, em gel, à base de água. No caso dos protetores, de modo geral, FPS 30 ou um número superior é adequado para uso. Normalmente, aqueles indicados por dermatologistas têm proteção contra raios UVA e UVB, que causam danos complementares. Hoje, é impressionante a gama de opções na indústria de protetores, que vão desde pigmentos que se encaixam nas colorações das diferentes peles até possibilidades de bronzeamento. Os laboratórios maiores têm se preocupado, inclusive, em produzir protetores exclusivos para a diversidade de peles brasileiras. Não há mais desculpa. A orientação básica é colocar 30 minutos antes da exposição ao sol. Saindo de casa, é o ideal. Se decidir colocar quando chegar, fica um pouco sob o guarda-sol até esperar o tempo mínimo. Além disso, a reposição é importantíssima. Se estiver na exposição ao ar livre, na praia, piscina ou caminhada, deve-se aplicar de duas em duas horas.

O uso de produtos siliconados para proteção vale para qualquer tipo de cabelo? 

Depende. Há algumas novas linhas de cuidados para cabelos cacheados e crespos que não têm detergente. Não espumam tanto. As pacientes que têm cabelos cacheados e usam essas linhas não devem usar silicone, já que o shampoo não tira a substância. Então, ela vai acumular resíduo no fio do cabelo, causando caspa ou seborreia, por exemplo. 

Nas redes sociais de beleza, um tópico muito debatido atualmente é o cronograma capilar. Do que se trata, exatamente?

É a melhor utilização de cuidados no cabelo, como máscaras para nutrição, hidratação e reconstrução. Elas se complementam, mas têm funções totalmente diferentes. Por isso, existe o chamado cronograma capilar. Sugiro sempre aos meus pacientes que façam planejamento. Não adianta, por exemplo, usar apenas um produto de  reconstrução, à base de queratina, toda semana. O cabelo fica pesado. É preciso alternar com nutrição, com ativos como óleo de coco, ou hidratação, usando produtos que consigam água para o fio. E aí dá para organizar em casa mesmo, ou no salão, para quem preferir, oferecendo ao cabelo  uma série de benefícios complementares. Conversando com o dermatologista, há o momento do diagnóstico, mas as  conversas vão além disso. 

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