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Protestos usam nudez contra ditaduras e discriminações

Publicado sexta-feira, 25 de novembro de 2011 às 23:21 h | Atualizado em 25/11/2011, 23:26 | Autor: Ranulfo Bocayuva, jornalista e diretor executivo do Grupo A TARDE
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Paralelamente  à “Primavera Árabe”, que já entrou quase no inverno sem que as revoltas cessassem, nota-se outro tipo de protesto mais silencioso que se alastra pelas ruas e redes sociais, mas igualmente provocador, não pelas armas ou gritos, mas pela nudez.

Ucranianas, no Leste Europeu, não hesitam em mostrar os seios para protestar contra a falta de liberdade de expressão, corrupção e discriminação contra as mulheres num país que apoia não oficialmente, segundo denúncias do movimento feminista, o turismo sexual. Na China, conhecida por reprimir violentamente manifestações pró-liberdade, artistas e intelectuais nus divulgaram sua foto coletiva na internet para protestar contra a prisão do artista plástico e um dos criadores do Ninho do Pássaro, estádio olímpico de Pequim, Ai Weiwei.

Ele foi libertado após 81 dias por suposta fraude fiscal e condenado a pagar 1,5 milhão de euros (o equivalente a cerca de R$ 3,75 milhões). Esta  foto foi classificada como “pornografia” e seu ator está sendo processado. Aliás, bela exposição de Weiwei está em cartaz com o sugestivo título Absent (Ausente) no Museu de Formosa.

Há dias, mulheres israelenses mostraram o corpo em solidariedade à blogueira egípcia Aliaa Elmahdy, uma estudante de 20 anos que usou o nu para protestar contra o conservadorismo islâmico em seu país após seu namorado ter sido condenado a quatro de prisão por criticar o Islã e o então presidente Hosni Mubarak.     

Até que ponto estes protestos ditos artísticos e sociais resultarão em recuo e anulação de práticas autoritárias e discriminatórias, não poderemos, é claro, determinar. Mas um fato é certo: o uso da nudez tem o poder de chocar mentes mais conservadoras e chamar a atenção mundial sem, no entanto, ferir ninguém, senão os egos mais sensíveis e retrógrados.

A arte sempre foi e continua sendo inteligente forma de protesto e única na sua capacidade de sensibilizar sociedades e abrir as mentes contra estados de obscurantismo próprios de regimes fechados. Desde as ditaduras latino-americanas e regimes comunista e nazista até os atuais extremismos islâmicos e populismos demagógicos espalhados pelos diversos continentes, tanto o cinema, como o teatro, a música e as artes plásticas continuam desempenhando papel fundamental na luta contra a censura e abrindo novas visões de mundo com o objetivo de torná-lo, certamente, mais humano e mais ecológico, com todas as contradições que estas palavras podem representar. Exemplos não faltam, e todos conhecem suas canções e imagens favoritas de protesto e indignação.

Torcemos para que a nudez, dentro do contexto artístico e social, continue sendo encarada como manifestação legítima  desprovida de qualquer intenção pornográfica, o que significaria exibicionismo puramente comercial e sexual.

Sabemos que os bravos egípcios estão lutando em praça pública por autêntico regime democrático a ser eleito nas urnas, na segunda-feira, e sem participantes do antigo governo. A exposição do nu de Aliaa induz e agrega mais apoio à abertura do regime egípcio, principalmente por parte das mulheres.

Na Ucrânia, conforme observações da União Europeia, que analisa a candidatura de Kiev, há indícios de que o presidente Viktor Ianukovich manipule a Justiça em seu país, onde faltariam “garantias para funcionamento de Estado de direito e independência judicial”.

Ele teria induzido os tribunais a condenarem, no mês passado, a então primeira-ministra Yulia Timochenko, de oposição, a sete anos de prisão por abuso de poder após assinatura, em 2009, de acordos de venda de gás natural para a Rússia. Estes acordos teriam sido “lesivos” à Ucrânia.

Portanto, a luta das feministas ucranianas também chama a atenção para a falta de liberdade e transparência políticas.

Nem tudo será resolvido com a arte de protesto, mas não se pode negar que ela seja ferramenta política de alto impacto, principalmente nos regimes sem liberdade.

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