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AFROPUNK Brasil 2026: veja atrações e o que esperar do festival em Salvador

Salvador recebe estrelas internacionais e ícones da música baiana

Manoela Santos*
Por Manoela Santos*
Jorja Smith, Edcity e Kehlani são atrações do evento
Jorja Smith, Edcity e Kehlani são atrações do evento - Foto: Divulgação

Considerado um dos maiores festivais de cultura negra do mundo, o AFROPUNK chega a mais uma edição em Salvador. Enquanto boa parte dos festivais de música se concentra no eixo Rio-São Paulo, o evento segue um caminho diferente ao trazer para a capital baiana a experiência de um movimento cultural nascido nas ruas do Brooklyn, em Nova York. O evento acontece no Parque de Exposições, em Salvador. Os ingressos estão disponíveis na plataforma oficial de vendas, a IDW Tickets.

Com dois dias de programação, o festival reúne, no sábado, 7, Jorja Smith, Flo, Emicida, Ajulliacosta, Lazzo, Edcity Fantasmão, Telefunksoul e Paredão. Já no domingo, 8, sobem ao palco Kehlani, Kelela, Gilberto Gil, Gaby Amarantos, NandaTsunami, Criolo (com o show Nó na Orelha), DJ Belle e Paredão. Entre as atrações internacionais, Jorja Smith é um dos destaques do R&B contemporâneo, com uma trajetória marcada pela mistura de soul e diferentes vertentes da música negra.

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O grupo britânico Flo e a cantora norte-americana Kehlani, que transita entre o R&B e o pop, também integram a programação. Outra presença é Kelela, artista norte-americana conhecida por combinar R&B, música eletrônica e experimentação sonora.

Para Ana Amélia Nunes, sócia da IDW Company, responsável pela realização do AFROPUNK Brasil, a presença do festival em Salvador envolve um processo de adaptação às características culturais da cidade, sem perder a conexão com sua origem internacional.

“A própria chegada do AFROPUNK em Salvador mostra que, desde o início, é feito um processo de localização, e não apenas de tradução. Mantivemos o DNA das edições internacionais, mas adicionamos o molho baiano, entendendo quais seriam as especificidades que um festival na cidade mais negra fora da África atenderia. Essa ideia de localização se alarga a todas as edições do AFROPUNK Experience que, mesmo estando em diferentes cidades, carregam no DNA o mesmo compromisso em valorizar a cultura negra”, afirma.

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Brotar das sementes

A trajetória de Lazzo Matumbi está intimamente ligada à história da música negra na Bahia. Com mais de quatro décadas de atuação, o cantor acompanha as transformações na presença de artistas negros nos palcos e nos espaços de visibilidade. Para ele, participar do AFROPUNK Brasil é uma forma de reafirmar a força dessa produção musical.

“Ocupar o AFROPUNK é uma declaração de amor e soberania. É o reconhecimento de que a música negra brasileira é vanguarda, é o coração pulsante da cultura deste país”, afirma.

Ao olhar para o caminho percorrido, Lazzo destaca a atuação dos blocos afro e de artistas que, desde as décadas anteriores, reivindicavam espaço e reconhecimento para a cultura negra nas ruas de Salvador. A presença de um festival de alcance internacional, com a participação de diferentes gerações de artistas negros, representa, para ele, um sinal de que essa luta continua produzindo resultados.

“Ver a nossa semente brotar e dar frutos desse jeito é de uma emoção maravilhosa! Quando a gente começou lá atrás, com o Ilê Aiyê, com os blocos afro, cantando a nossa verdade, que vinha dos terreiros sagrados, nas ruas, nas praças de Salvador, a gente lutava por mais espaço, visibilidade e dignidade pra nossa gente e pra ver nossa imagem mais respeitada”, relembra.

Para o cantor, a presença da juventude negra em grandes palcos também evidencia mudanças na maneira como esses artistas constroem suas trajetórias. Ele avalia que, atualmente, há mais possibilidades de atuação independente e de participação nas decisões sobre a própria produção artística, embora as desigualdades estruturais ainda imponham obstáculos.

“Muita coisa mudou, graças aos Deuses Ancestrais! Antigamente, o artista negro que alcançava os grandes meios de comunicação muitas vezes precisava se enquadrar em moldes que não eram os nossos, ou ficava relegado a nichos específicos. Hoje, a nossa representatividade acontece de dentro para fora, de forma mais consciente, com a força da nossa cultura, nossa arte, nosso discurso e a nossa postura sendo colocadas com mais autonomia”, afirma.

Apesar dos avanços, Lazzo chama a atenção para as barreiras de acesso ao financiamento, aos espaços de decisão e aos grandes veículos de comunicação. Para ele, é necessário garantir condições econômicas e mercadológicas para artistas que mantêm a cultura negra viva, inclusive aqueles que atuam nas bases, nos blocos afro e nos terreiros. “Os desafios ainda são grandes, por conta da estrutura racista ainda existente neste país, que não desaparece do dia para a noite", pontua.

Para a apresentação no AFROPUNK Brasil 2026, o cantor adianta que o repertório vai aproximar diferentes momentos da sua trajetória. “Vamos trazer clássicos que o povo carrega na alma e na ponta da língua, canções que falam da nossa história, da nossa resistência, com muito orgulho, vestindo as canções com roupagens novas e arranjos encorpados em encontros musicais muito especiais com artistas que vêm somar comigo no palco”, antecipa.

Encontro de gerações

Outro aspecto destacado por Lazzo Matumbi é a possibilidade de dividir o palco com artistas de diferentes trajetórias, gerações e sonoridades.

Para o cantor, essa diversidade representa “a verdadeira celebração da diáspora” e transforma o festival em um espaço de troca entre artistas que compartilham referências culturais.

“A gente se alimenta da energia da nova geração, que traz o vigor da bagunça positiva abençoada pela ancestralidade! Essa cumplicidade mostra que a nossa música é viva, é plural e não cabe em caixinhas. Estar ali é dizer que, mesmo que tentem nos matar, nós estamos aqui vivos e resistindo, criando espaços de pertencimento por direito”, afirma.

Entre os representantes dessa geração mais recente está Edcity Fantasmão, que sobe ao palco também no sábado (7). A apresentação reúne músicas que marcaram a trajetória do Fantasmão, grupo que contribuiu para a música baiana ao misturar pagode, rock e elementos da cultura negra.

Entre os sucessos que marcaram a história do grupo estão Conceito, Revolução e Gaiola. A trajetória do Fantasmão também é marcada por canções que abordam questões relacionadas à negritude, à desigualdade social e à valorização da população negra. Ao falar sobre a presença do pagode baiano em grandes festivais, Edcity destaca a importância de reconhecer a produção artística das periferias e ampliar as oportunidades para esses músicos.

“O nosso pagodão conquistou um espaço importante e temos orgulho de fazer parte desse movimento. A periferia sempre foi um celeiro de talento e criatividade. Hoje nossos artistas ocupam grandes palcos, mas ainda precisamos avançar em oportunidades, reconhecimento e valorização. Talento na favela nunca faltou, o que faltou muitas vezes foi uma oportunidade”, afirma.

A participação no AFROPUNK Brasil 2026 também marca um novo momento na relação do artista com o festival. Depois de participar da edição de 2025 durante o show de Larissa Luz, Edcity retorna neste ano com uma apresentação própria, à frente do Fantasmão.

Para o cantor, levar o pagode baiano ao festival significa representar não apenas um gênero musical, mas também a história e a identidade das periferias de Salvador a um público de alcance internacional. “ Estar no AFROPUNK é ocupar um espaço que também é nosso, que também nos pertence. Não estamos apenas levando música, estamos levando um povo, uma história, e isso tem um valor imenso”, ressalta.

Edcity também aproxima o pagode baiano das demais sonoridades presentes no festival pela relação com a cultura negra e suas formas de expressão. “Nosso pagode dialoga com essas sonoridades porque tem a mesma essência: a música negra como expressão de identidade, resistência e liberdade. São ritmos diferentes, mas que carregam história, ancestralidade e a força das comunidades. Esse encontro mostra que música não tem fronteiras”, conclui.

Salvador como centro

Para Ana Amélia Nunes, a importância do festival também está na possibilidade de movimentar a economia de Salvador e valorizar a produção cultural negra local.

Segundo ela, manter a capital baiana como centro da iniciativa é parte de uma proposta que busca ampliar o alcance do evento. “Crescer para o mundo sem perder Salvador como centro sempre foi nosso principal desejo”, afirma.

Ela explica que a IDW surgiu da reunião de mulheres baianas que decidiram contar novas histórias diante da resistência do mercado em apoiar produções realizadas fora do eixo Rio-São Paulo.

O impacto do festival, segundo a empresária, ultrapassa os limites do Parque de Exposições e alcança diferentes setores da cidade. Ela cita o aumento da procura por voos, a movimentação na rodoviária e a demanda por serviços de profissionais da beleza no período do evento como exemplos dessa repercussão.

“Esses números não se refletem apenas no festival, mas sim na cidade inteira”, destaca. Para Ana Amélia, o objetivo é utilizar a cultura para movimentar a economia de Salvador e descentralizar a concentração dos lucros.

A proposta também orienta a expansão do AFROPUNK para outras cidades brasileiras, como Belém, Rio de Janeiro e Recife. De acordo com a sócia da IDW, as edições em diferentes regiões dão continuidade ao caráter itinerante do festival, com o compromisso de difundir a cultura negra e estabelecer diálogos com as particularidades da produção cultural de cada local.

Ao mesmo tempo, a organização busca ampliar a estrutura do evento sem perder de vista a experiência do público. “A experiência do AFROPUNK vai além dos palcos e nossas principais atrações estão na plateia”, afirma Ana Amélia, que destaca os cuidados com segurança, governança e questões ambientais como parte da produção.

Para a empresária, realizar o festival na Bahia também significa enfrentar a resistência de possíveis patrocinadores em reconhecer a dimensão do evento. Apesar dos desafios, ela reforça a importância de manter Salvador como centro da iniciativa.

“Estar na Bahia não é uma fraqueza, mas sim nosso principal ativo”, conclui.

AFROPUNK Brasil 2026 / Sábado (7) e domingo (8), 17h / Parque de Exposições de Salvador (Av. Luís Viana Filho, 1590) / Ingressos entre R$ 80 e R$ 308 / Vendas: plataforma IDW Tickets / Byinti e balcões Pida! / Programação completa e mais informações: @oafropunkbrasil

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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