DODECAFONISTA SERTANEJO
De Irará para o mundo: Tom Zé celebra 90 anos de uma trajetória surpreendente
Artista revela segredo para continuar ativo na música


De todos os personagens da Tropicália, talvez o que venha primeiro à memória do público é o cantor e compositor santamarense Caetano Veloso, 84, tido como o cabeça do movimento sociomusical que revolucionou a música e os costumes a partir da década de 1960.
Mas, seguramente, o verdadeiro tropicalista que vem construindo uma carreira mais vinculada à provocação e à liberdade estética que o movimento pregava é, sem dúvida, o cantor e compositor iraraense Tom Zé.
Pois é justamente este bardo tropicalista performático que está fazendo 90 anos em 2026. Dono de uma obra iconoclasta e irreverente, Tom Zé continua na ativa, segundo ele mesmo, graças aos cuidados com a saúde. Afirma que segue fazendo show de 15 em 15 dias e ainda se autointitula um 'dodecafonista sertanejo'.
E apesar de estar radicado em São Paulo há mais de 50 anos e seguir trabalhando, o Brasil só voltou a se interessar pelo artista baiano depois de um show no Central Park, em Nova York, na década de 1990, após anos de ostracismo – graças a uma crítica do New York Times, falando maravilhas de seu show.
Sons híbridos
Mesmo assim, ainda hoje Tom Zé pouco toca na rádio. Segundo o escritor imortal Aleilton Fonseca, presidente da Academia de Letras da Bahia, isto acontece porque sua música é uma arte que não se rende ao mercado, não faz concessão comercial ao gosto do consumo fácil.
“Ele é sempre inventivo e experimental, como um genuíno poeta da nossa MPB mais elaborada, que quebra o ritmo, torce a melodia, e é sempre imprevisível. Tom Zé é um eterno tropicalista”, ressalta Aleilton.
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Nascido Antônio José Santana Martins, em outubro de 1936, em Irará (Ba), Tom Zé é casado com a jornalista e produtora Neusa Martins desde 1970 e sempre foi um ávido pesquisador das linguagens e sonoridades que os instrumentos musicais, mesmo os não convencionais, podem oferecer. É capaz de tirar som de uma enceradeira, por exemplo.
Por isso mesmo, o aniversariante, além de ser um artista fabuloso, tem uma obra muito importante, segundo Aleilton.
“Ele é um elo entre a vanguarda e o popular, que radicalizou, expandiu e intensificou a proposta do tropicalismo, com músicas desconcertantes e inesquecíveis, usando ruídos de objetos e até de eletrodomésticos. Produziu discos antológicos, como Todos os Olhos (1973), e Estudando o Samba (1976), verdadeiras obras-primas da música brasileira”, ressalta o escritor baiano.
“Em março deste ano encontrei Tom Zé em São Paulo, numa solenidade da Academia Paulista de Letras [em 2022, o músico passou a ocupar uma cadeira na APL]. Sabia que estava diante de um gênio da música popular brasileira, com uma obra inventiva, instigante e original, internacionalmente reconhecida”, complementa o imortal.
Redescoberta
Já o poeta e letrista baiano José Carlos Capinan, parceiro de Tom Zé desde os tempos do Centro Popular de Cultura (CPC), nos anos de 1960, não comunga da ideia de que o compositor de Irará seja o mais tropicalista de todos.
“Mas é imensa sua postura. Tom Zé tem um viés crítico, caracterizado pela imensa capacidade da ironia, transformando em humor cáustico sua linguagem”. E acrescenta: “Tem muito mais a se dizer, difícil esgotar as virtudes do nosso Tom”.
Grande amigo do menestrel de Irará, o cantor e compositor soteropolitano Tuzé de Abreu endossa que Tom Zé é uma pessoa fantástica. “Fizemos várias músicas juntos, ganhamos um festival de frevo com a música que depois se transformou em Pecadinho e foi gravada por Márcia Castro”.
“Recebi, pelo zap, uma foto da reinauguração do Teatro Vila Velha. E aí tem uma foto de um show que fizemos, Tom Zé e eu, nós dois com o violão, um negócio muito antigo, muito engraçado. Tom Zé é especial, ele foi presidente do diretório da Escola de Música e eu tive uma carteira de estudante assinada por ele”, complementa Tuzé, lembrando quão diversificada é a trajetória desse muso tropicalista.
Tom Zé faz obras que são de um poder de concisão muito grande, bem vanguardista, mas ao mesmo tempo tem algo de primitivo no trabalho dele, segundo o cantor, compositor e pesquisador musical jequieense Paquito (@jequietcong).
“E tem a importância dele como performer também. Nunca me esqueço de uma performance dele no programa Ensaio, em homenagem a Luiz Gonzaga, em que ele canta a música Xandúzinha. Ele faz uma coisa coreográfica mesmo, e nisso ele é muito bom”, ressalta Paquito.
No entanto, Paquito também não defende a ideia de que Tom Zé seja o mais tropicalista de todos.
“As pessoas dizem isso porque ele ficou um tempo esquecido e não tem essa ligação com a música de massa, como Caetano e Gil, por exemplo. Acho que os outros são também muito fortes nessa coisa de assumir a perda da inocência que tem o tropicalismo com relação à música comercial, à música estrangeira e à música brasileira em si”, nota.
E acredita, na verdade, que Tom Zé, nos seus devaneios musicais, encontrou um nicho. “Depois que ele foi redescoberto, esse nicho se tornou forte. Ele hoje tem uma audiência forte, que não é na rádio, mas é um nicho bem definido. Que é de uma audição de música considerada mais qualificada”, observa Paquito.
“No primeiro disco, ele é satírico. Isso vai se equilibrando nos discos seguintes, com uma música mais perene, e aí ele vai encontrar o seu momento, assim, exemplar, desse equilíbrio, quando faz justamente os discos Todos os Olhos e o Estudando Samba, que são incríveis, né?”, complementa Paquito.
O paradoxal é que é justamente aí que ele para de ter uma audiência maior, segundo o compositor jequieense. “O Brasil esqueceu de Tom Zé. Esqueceu mesmo. E aí ele é redescoberto por David Byrne [músico famoso por ter liderado a banda Talking Heads nos anos 1980]”. O resto é história.
Artista improvável
Compositor, violoncelista, professor e pesquisador musical, o também baiano Paulo Costa Lima, que ocupa a cadeira 21 da Academia Brasileira de Música, acredita que a maior invenção de Tom Zé talvez seja a própria presença.
“O personagem improvável de Irará que faz muito de aparentemente nada, abre a boca para falar ao Brasil inteiro e consegue ser São Paulo melhor do que muito paulista. Sendo improvável, Tom Zé é profundamente brasileiro. É um caminho brasileiro: uma hibridação radical que surpreende e emociona”, relata Costa Lima.
E prossegue: “Participante do Grupo de Compositores da Bahia, Tom Zé construiu uma ponte singular entre aquela aventura de renovação musical e o Tropicalismo. Do protesto quase panfletário de Parque Industrial à leveza de Namorinho de Portão, da dor de São São Paulo, Meu Amor à explosão afetiva, eletrônica e sinfônica de Xiquexique (com Wisnik), tudo por causa de um caxixi”.
Paulo conta ainda que, em 1998, perguntou a Tom Zé sobre sua relação com o compositor, regente e pianista suíço-brasileiro Ernst Widmer, de quem fora aluno na Universidade Federal da Bahia.
“Ele respondeu: ‘aquilo era um arado suíço, pernudo e branco, rasgando o nosso peito para leito das sementes’. Desse peito rasgado, brotaria um artista que fez do namoro com o improvável uma perspectiva de criação”, finaliza, poeticamente – como é do feitio de Tom Zé – Paulo Costa Lima.


