UNIÃO
Duas gerações da música baiana se encontram no Tiny Desk Brasil
Josyara e Roberto Mendes apresentam músicas autorais e uma versão de “Massemba”


A cantora e instrumentista Josyara recebe o compositor e violonista Roberto Mendes no 20º episódio do Tiny Desk Brasil, que estreia nesta terça-feira, 29, às 11h, no YouTube.
O encontro reúne artistas de diferentes gerações da música baiana, conectando a produção contemporânea de Juazeiro à tradição do samba chula de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.
Durante a apresentação, os músicos interpretam canções como “Apreciação” e “Rota de Colisão”, além de uma versão de “Massemba”, composição de Roberto Mendes e Capinan. A música aborda a travessia dos navios negreiros, a ancestralidade africana e a transformação da dor em resistência cultural e espiritual no Brasil.
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Josyara e Roberto Mendes cantam “Massemba”
A apresentação reúne Josyara (violão e voz), Roberto Mendes (violão e voz), Léo Mendes (violão de aço e voz), filho de Roberto, e Lucas Martins (baixo e voz). A interpretação de “Massemba” emocionou o público presente no escritório onde o programa é gravado.
Pesquisador e guardião do samba chula, manifestação do samba de roda de Santo Amaro reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, Roberto Mendes participou da apresentação com uma abordagem que valoriza a dimensão rítmica dessa tradição musical.
“Adorei ter participado do Tiny Desk Brasil com Josyara, pois ela tem uma maneira de tocar o violão muito parecida com a minha. E a ideia de juntar dois artistas de sotaques diferentes da Bahia, é muito boa, eu adorei.”, celebra.
Para Mendes, o encontro também representa uma perspectiva de continuidade para a música brasileira. “Vejo o sonho de um Brasil feliz e a Josy e esses meninos fazem isso muito bem. Eu, que tinha saudade do futuro, não tenho mais.”, afirma.
Com uma técnica marcada pelo uso percussivo do violão, Josyara apresentou canções que destacam a relação entre voz, instrumento e composição. A artista também falou sobre como se reconhece como instrumentista.
"Ser instrumentista é muito orgânico pra mim. É uma coisa só: metade mulher, metade violão. Ainda assim, demorei para assumir que sou violonista, por não ter a coisa da teoria.” explica a artista.
A experiência no Tiny Desk Brasil também aproximou a cantora de suas origens musicais. Sem microfone para amplificar a voz, a apresentação permitiu explorar nuances da interpretação e da sonoridade do instrumento.
"Foi muito interessante não ter microfone na voz, esse retorno da voz, porque eu me coloquei ali como estivesse em casa, do jeito que eu comecei. Minhas oito horas dentro do banheiro trancada, compondo, pra tentar ouvir melhor. Ou em algum cantinho que eu pudesse me concentrar e ouvir as dinâmicas do corpo e da intenção do violão. Acho que as pessoas vão perceber essas nuances. Tentei e fui mais perto de mim mesma no Tiny Desk Brasil.", revela a artista.
A trajetória musical de Josyara
Cantora, compositora, instrumentista e produtora musical, Josyara nasceu em Juazeiro, na Bahia, e construiu uma carreira que aproxima tradição e experimentação. Seu trabalho é marcado pela observação do cotidiano, das relações humanas e das paisagens de sua origem, com composições que exploram as possibilidades do violão e da voz.
Seu primeiro álbum, “Mansa Fúria” (2018), foi apontado pela crítica especializada entre os destaques daquele ano, recebeu indicações ao APCA e ao Prêmio Multishow e rendeu à artista o WME Awards na categoria Revelação, em 2019.
Na sequência, Josyara lançou “Estreite” (2020), em parceria com Giovani Cidreira, e “ÀdeusdarÁ” (2024). Também apresentou o EP “Mandinga Multiplicação”, no qual revisita canções do Timbalada.
Em 2024, voltou a receber um prêmio do WME Awards, desta vez na categoria Melhor Instrumentista. Seu trabalho mais recente, “AVIA” (2025), reúne parcerias com Liniker, Iara Rennó e Juliana Linhares, além de participações de Pitty e Chico Chico. A artista também passou por festivais como Primavera Sound, Bananada e DoSol.
Roberto Mendes e a tradição do samba chula
Natural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, Roberto Mendes tem mais de quatro décadas de carreira e lançou onze álbuns. Suas composições foram interpretadas por artistas como Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Virgínia Rodrigues.
Entre suas canções estão “Yayá Massemba”, “Filosofia Pura”, “Manda Chamar” e “Caribe Calibre Amor”. Sua trajetória é marcada pela pesquisa das tradições musicais do Recôncavo e pela criação de uma linguagem própria para o violão popular brasileiro.
Ao longo da carreira, Mendes se dedicou ao estudo e à preservação do samba chula. A partir do contato com mestres da viola machete, instrumento central da manifestação, desenvolveu uma técnica que incorpora ao violão a pulsação rítmica característica dessa tradição.
O músico define o resultado como um “instrumento percussivo de cordas feridas”, expressão que sintetiza a combinação entre ritmo, harmonia e ancestralidade presente em seu trabalho.


