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ANÁLISE

Grammy 2026: 'rótulo' americano não cabe na grandeza de Caetano e Bethânia

Vitória no Grammy 2026 celebra dois patrimônios da música brasileira e reacende o debates sobre reconhecimento e identidade cultural

Chico Castro Jr. com agências

Por Chico Castro Jr. com agências

03/02/2026 - 14:45 h

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A importância do prêmio para Caetano e Bethânia não passou despercebida pelo Brasil
A importância do prêmio para Caetano e Bethânia não passou despercebida pelo Brasil -

A forma descontraída com que Caetano Veloso e Maria Bethânia receberam a notícia de que haviam ganhado um prêmio Grammy 2026 de Melhor Álbum de Música Global – seja lá o que for este rótulo inventado pelos norte-americanos –, pelo álbum CAE-BTH – Caetano e Bethânia ao vivo, talvez tenha sido a melhor parte (que não foi ao ar) de toda a cerimônia.

Nada mais baiano (ou santoamarense) do que a distração dos irmãos frente a um prêmio que faria qualquer outro artista subir pelas paredes e berrar pela janela.

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“Nem sabia que horas era (a cerimônia)”, disse Bethânia. “Nem eu”, respondeu Caetano. Logo depois, ela diz ter adorado ver Caetano fantasiado de Capitão Marvel (Shazam) para uma festa à fantasia, já mudando de assunto. Enfim, só mais um dia normal na residência dos Veloso.

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A importância do fato, porém, não passou despercebida pelo resto do Brasil, que viu esta premiação como mais um motivo de orgulho pela cultura nacional, onda recente que vem rolando desde o ano passado, com os prêmios dos filmes Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva celebrou nas redes sociais a vitória de Caetano e Bethânia no Grammy: “Orgulho de ver dois gigantes da nossa arte sendo celebrados assim”, escreveu Lula. “A música de vocês atravessa gerações, toca a alma do nosso povo e mostra ao mundo a grandeza da cultura brasileira”, acrescentou.

O álbum, gravado ao longo da turnê que lotou estádios, reúne sucessos das trajetórias individuais dos dois artistas, como Reconvexo e Vaca Profana, entre outros.

Para Maria Bethânia, este primeiro Grammy representa a consagração internacional após décadas de carreira. Vale lembrar que nenhuma outra cantora brasileira havia sido sequer indicada antes, nem Elis Regina, nem Gal Costa, nem Nana Caymmi, embora todas fossem merecedoras.

Para Caetano, essa foi a sexta indicação ao Grammy e a terceira premiação. O artista baiano já venceu duas vezes: com Livro (1998) e João Voz e Violão (2000), álbum de João Gilberto que ele produziu.

Leituras afirmativas

Aqui em Salvador, muitos artistas felicitaram os irmãos. Paulo Costa Lima, ex-diretor da Escola de Música da Ufba, membro da Academia de Letras da Bahia, destaca o caráter afirmativo das obras de ambos:

“Com Caetano Veloso e Maria Bethânia, estamos diante de duas leituras fundamentais do que é o Brasil. Leituras ativas, afirmativas, que não descrevem o país, mas o reinventam pela inteligência, pela originalidade e pela força poética da canção”, disse Paulo ao jornal A TARDE.

“O Brasil sempre cantou essas vozes – e o Grammy Global soma-se agora a uma longa história de reverberações dessa obra tão nossa e tão profunda: caminhando contra o vento! (Um abraço especial para minha Confreira da ALB, Dona Maricotinha)”, completou.

Somos da periferia

Especialista em Maria Bethânia e articulista de A TARDE, o antropólogo Marlon Marcos também se sentiu elevado pela premiação e não só: para ele, esta vitória eleva a periferia do mundo.

“É uma vitória para a Bahia, para o Brasil. Eu olho para a Maria Bethânia e vejo uma eleita de Deus. E Caetano, esse grande mestre que produziu tantas belezas, que ensinou tanto a gente, esses dois artistas imensuráveis que melhoram a vida humana, que melhoram a nossa condição. Com o que fazem, não é só o alimento do espírito, não é só o engrandecimento pela beleza, mas é a aprendizagem, é o conhecimento que esta obra traduz e afeta a todos nós. É uma vitória baiana, é importante que se diga isso, mas é também uma vitória da humanidade, porque são dois da periferia do mundo”.

“Então, essa música que é qualificada como uma música mundial, é agora mais do que uma música mundial. É uma música que retrata Santo Amaro da Purificação. É uma música que retrata a sociedade brasileira. É uma música que faz a gente ter esperança. Esperança de que a humanidade pode continuar a habitar nesse planeta. É um cântico do tipo purificar o Subaé, mandar os malditos embora. Caetano e Bethânia iluminam a humanidade”, acrescenta Marlon.

Outro que nem sabia “que horas era” a premiação, Ivan Huol, o criador e mestre de cerimônias das jam sessions do Museu de Arte Moderna da Bahia, soube por este jornalista que Caetano e Bethânia haviam ganhado:

“Veja só, mas eu nem sabia que eles tinham ganhado o Grammy. Mas Caetano é um bolsão de criação musical. Volta e meia a gente visita as obras dele e fica maravilhado com a capacidade que ele tem de compor, especialmente letras, melodias também, ele realmente é um verdadeiro ET. Ele junto com o Gilberto Gil são compositores que a gente às vezes não entende como eles podem ser tão férteis assim, né?”. admira-se Ivan.

“E Bethânia é aquela intérprete maravilhosa, que tem uma força e que extrapola os conceitos de cantar. E se for botar uma régua nela, você vai quebrar a cara, porque ela é tudo, menos previsível. É como se ela estivesse declamando poesias, cantando. Enfim, muito merecido”, completou.

Tios geniais

Sobrinha de Caetano e Bethânia, Belô Velloso, como não poderia deixar de ser, é só orgulho dos parentes geniais: “Mais uma vitória da cultura brasileira, que voltou a ser valorizada dentro e fora de casa. Eu acho o prêmio super merecido! Um trabalho primoroso, de recortes de uma vida inteira, legado de composições de Caetano e as vozes dos dois. Bethânia e Caetano merecem muito esse Grammy. E todos os envolvidos. O Brasil precisa se amar e a nossa cultura faz esse papel”, afirma Belô, com razão.

Outra cantora baiana, Illy não tem dúvidas: o mundo precisa da música brasileira, só não sabe disso ainda. “Ver Caetano e Maria Bethânia ganharem o Grammy é a certeza de que a força da música brasileira é de suma importância para o mundo. É como se fosse um prêmio pra carreiras de artistas que serão pra sempre referência”, observa.

Mestres atemporais

Outro cantor e compositor bastante ativo no cenário baiano, Alexandre Leão credita o reconhecimento no Grammy à atemporalidade: “Essa premiação de Caetano e Bethânia, ela prova que a música que é feita com verdade, com qualidade, não tem idade, né”?

“Acabou rimando, mas pois é, Caetano sempre na vanguarda, sempre de olho no que é novo, Bethânia sempre fiel às raízes, sempre fiel às suas convicções – e isso é prova de que a música brasileira é sempre forte, sempre atual, sejam qual forem seus protagonistas, pessoas de qualquer idade. Fico muito feliz e celebro essa premiação”, acrescentou Leão.

Provedor de trilha sonora para inúmeros espetáculos teatrais, músico de renome, Luciano Salvador Bahia nota que o prêmio, na verdade, não traz surpresa: “É uma vitória que não traz surpresas, né, dada a importância e o caráter tão especial desse encontro de duas carreiras tão brilhantes na música brasileira. Eles merecem isso e muito mais”.

Já o multi-instrumentista Júlio Caldas parabeniza os irmãos por construírem uma carreira que passa ao largo da vulgaridade que grassa nas playlists mais populares:

“Acredito que a vitória destes dois grandes ícones da música brasileira seja muito significativa diante do cenário musical instalado no país, que não valoriza a cultura, com novos artistas que não se preocupam com a arte, que só pregam desilusão amorosa e uma infinidade de temas dispensáveis. Mostra que ainda estamos aqui, pensando em cantar boas melodias e poesias. Viva Santo Amaro, viva Caê e Betha”, reivindica.

Viva os vira-latas

Apesar da importância e do peso da premiação, há também quem não se impressione tanto assim. Vamos encarar os fatos, né? O que é um Grammy perante a grandeza das obras e das carreiras de Caetano e Bethânia?

Vale lembrar que, nesta quadra específica da história, demonstrar simpatia por manifestações norte-americanas, mesmo que a nosso favor, não está sendo visto exatamente com bons olhos.

Será mesmo que artistas desta ordem de grandeza ainda precisam de validação de gringo? É por aí que vai a reflexão curta e grossa do cantor e compositor Paquito: “Acho importante o reconhecimento internacional do trabalho deles, mas não tenho complexo de vira-lata. Acho Caetano e Bethânia imensos na vida da gente brasileira”.

“Aliás, não tenho complexo de vira-lata porque admiro os vira-latas”, acrescentou.

E quem há de julgá-lo?

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