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Grupo Botequim celebra 20 anos com roda de samba em Salvador

Edição especial reúne convidados no Santo Antônio Além do Carmo

Manoela Santos*
Por Manoela Santos*
Grupo Botequim celebra 20 anos em Salvador
Grupo Botequim celebra 20 anos em Salvador - Foto: Divulgação

O que começou a partir da reunião de amigos sambistas em Itapuã tornou-se uma trajetória marcada pela pesquisa sobre a história do gênero, pela valorização de seus mestres e pela contribuição para o fortalecimento das rodas de samba em Salvador.

Nesta sexta-feira, 9, às 21h, Grupo Botequim comemora as duas décadas de história com uma edição especial da roda de samba no Pátio da Igreja de Santo Antônio Além do Carmo, com convidados.

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Fundador e único integrante remanescente da primeira formação, Roberto Ribeiro acompanha as transformações do grupo desde o início. Aos 45 anos, o músico soma 26 anos de relação com o samba e 20 de Botequim.

Para ele, essa trajetória também foi um processo de formação pessoal. O contato com o gênero ampliou sua compreensão sobre a história do Brasil, a cultura preta, as lutas e as formas de resistência construídas ao longo do tempo.

“O samba me ajudou a ter visão política. O samba me ajudou a ser uma pessoa melhor no mundo, a como me colocar na sociedade”, afirma Roberto. Ele também destaca que o gênero ampliou sua visão de mundo e sua compreensão sobre as diferenças, além de ensiná-lo a lutar pelo samba e pelos direitos.

Além de Roberto no cavaquinho e na voz, atualmente o grupo é composto por Washington Rodrigues (violão e voz), Tito Fukunaga (flauta e percussão), Bolota (percussão), Lalá Evangelista (percussão) e Brinquedo (surdo). Juntos, eles contribuem para o fortalecimento do Botequim como uma das principais referências do samba na Bahia e reafirmam o seu compromisso com a valorização da cultura popular.

Da pesquisa à roda

A proposta inicial do grupo Botequim era criar um projeto de pesquisa dedicado à memória do samba e à aproximação com compositores que haviam construído essa história. A intenção era manter vivos os trabalhos dos mestres e mostrar que aquele legado continuava sendo importante para novas gerações.

A iniciativa ganhou novos caminhos quando Pedrão Abib, um dos fundadores e ex-integrante do grupo, teve aprovado o projeto “Cinema, Capoeira e Samba”, no Forte da Capoeira, no Santo Antônio Além do Carmo.

A programação reunia a exibição de um filme nacional, uma roda de capoeira e, para encerrar, uma roda de samba. Foi justamente a última atividade que ganhou vida própria e passou a ser realizada mensalmente em um bar próximo.

Naquele momento, Salvador ainda não tinha a quantidade de rodas de samba que existe atualmente. O Botequim começou a fazer seus encontros nas ruas e apostou em um repertório voltado para a preservação da memória do gênero. A identificação do público com a proposta fez a roda crescer e, segundo Roberto, o grupo nunca abriu mão dessa identidade.

A relação construída com quem acompanha o Botequim também é apontada por Lalá Evangelista como uma das marcas das duas décadas de trajetória.

“Eu acho que o Botequim criou esse vínculo porque, desde o começo, o grupo nunca enxergou a roda só como um lugar para tocar samba. Sempre foi muito mais sobre estar junto, encontrar as pessoas, trocar energia”, afirma.

Ao longo dos anos, segundo Lalá, muitos frequentadores se tornaram amigos, levaram novos amigos e, depois, suas próprias famílias. “Tem pessoas que acompanham a gente há tanto tempo que acabam fazendo parte da própria história do Botequim. E isso é muito forte.”

Essa relação também atravessa gerações. Lalá conta que jovens que eram levados às rodas pelos pais passaram, com o tempo, a convidá-los para retornar. “Hoje convidam os pais para irem com eles reviver toda aquela emoção juntos.”

Para ela, uma das características mais interessantes dessa trajetória é justamente perceber que o público também se transformou junto com o grupo.

Referência para as rodas

O crescimento do Botequim aconteceu paralelamente à expansão das rodas de samba em Salvador. Roberto lembra que, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, havia poucas iniciativas desse tipo na cidade. O grupo começou a ocupar espaços públicos com rodas que, inicialmente, nem sequer contavam com microfone ou estrutura de som.

Com o passar dos anos, novas rodas surgiram e o movimento ganhou força. Na avaliação de Roberto, o Botequim foi uma parcela importante desse processo e ajudou a fortalecer a compreensão da roda como uma manifestação da cultura popular. Para ele, a própria estrutura circular tem uma dimensão ancestral. “A roda é o lugar de você congregar energia, espiritualidade, alegria, tristeza também, dores também, compartilhar tudo – e tudo aquilo vira uma coisa de regeneração.”

Tito Fukunaga também identifica a influência do Botequim na criação de novos projetos. Segundo o percussionista, ao longo dos anos ele acompanhou iniciativas que nasceram a partir da influência do grupo, seja por ex-integrantes ou por pessoas próximas à roda.

O cenário atual é diferente daquele encontrado pelo Botequim em seus primeiros anos. Tito observa que o samba ganhou novas formas e maior visibilidade, reunindo diferentes vertentes, como o samba tradicional, o samba e pagode românticos e o pagodão. Nesse cenário, considera que o Botequim se tornou uma referência em Salvador quando se trata do samba mais tradicional.

Memória no corpo

Para Lalá, a permanência dessa tradição também passa pela experiência de quem está dentro da roda. Percussionista, ela considera um privilégio fazer parte de um grupo que valoriza a memória e a ancestralidade do samba.

“Eu venho da percussão, e foi por ela que aprendi a sentir o samba de uma maneira muito profunda e a entender que uma roda só acontece de verdade quando todo mundo está conectado”, conta.

A percussionista entende que cada apresentação também representa continuidade. “O samba tem memória, ancestralidade, tem muita gente que abriu caminho para que hoje a gente pudesse estar ali naquela roda”, afirma.

Resistência

Manter um trabalho independente durante duas décadas, no entanto, também significou enfrentar dificuldades. Roberto recorda problemas relacionados à falta de apoio e incentivo e situações em que o grupo perdeu espaços onde já realizava suas rodas.

Um desses episódios aconteceu no Largo de Santo Antônio, onde o Botequim manteve durante cerca de quatro anos uma roda gratuita. O grupo buscou apoio do poder público para garantir uma estrutura mínima, mas acabou retirado do local.

O músico também lembra de outras rodas interrompidas pela intervenção policial. Para ele, essas experiências estabelecem uma relação com a própria história do samba e com a repressão enfrentada por manifestações da cultura negra.

Ainda assim, o grupo chegou aos 20 anos com um público que reúne diferentes gerações. Roberto considera essa diversidade uma das grandes conquistas. Ao lado das pessoas que acompanham a roda desde o começo, novos frequentadores passaram a conhecer o trabalho e a se interessar pela preservação da memória cultural brasileira.

A permanência, para o fundador, também está ligada à decisão de não abandonar a identidade construída desde os primeiros anos. Entre mudanças de integrantes, dificuldades financeiras e busca por espaços, o grupo manteve a proposta que o colocou na cena do samba de Salvador.

A celebração dos 20 anos reúne, assim, diferentes partes da história do Botequim: a pesquisa sobre os mestres do samba, a ocupação dos espaços públicos, a formação de novos públicos e a resistência necessária para manter uma roda de pé por duas décadas.

Nesta sexta-feira, o grupo volta ao Santo Antônio Além do Carmo para celebrar essa trajetória ao lado de quem ajudou a construí-la.

Roda de Samba do Grupo Botequim - Especial 20 anos

  • Data: Sexta-feira, 9
  • Horário: 21h
  • Onde: Pátio da Igreja do Santo Antônio Além do Carmo
  • Ingressos: R$ 30
  • Vendas: Sympla

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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