DIA DAS CRIANÇAS
Rock, baby! Crianças roqueiras mostram que gênero não é só para adultos
Portal A TARDE conversou com pequenos fãs que ajudam a quebrar estereótipos


Enquanto muitas crianças crescem embaladas por músicas de desenhos, sucessos virais e hits que dominam as redes sociais, uma turma baiana escolheu aumentar o volume para outro som. Na playlist deles aparecem nomes como Nirvana, Red Hot Chili Peppers, Queen, Charlie Brown Jr., Guns N’ Roses e Pitty. E não para por aí: guitarra, bateria, piano e planos de montar uma banda também fazem parte da brincadeira.
Na Bahia, terra de Raul Seixas, considerado o pai do rock brasileiro, talvez não pudesse ser diferente. Décadas depois de o “Maluco Beleza” ajudar a colocar o estado no mapa do gênero, uma nova geração começa a descobrir riffs, solos e batidas ainda na infância.
Neste Dia das Crianças, o portal A TARDE conversou com pequenos fãs que desafiam a ideia de que rock é “música de adulto”. Mais do que ouvintes, todos já estudam música e alguns escolheram justamente instrumentos historicamente ligados ao gênero. Entre camisas de banda, aulas e playlists compartilhadas com os pais, eles mostram que o futuro do rock baiano pode estar começando bem cedo.
Rock é coisa de criança?
Preto, guitarras, cabelos compridos, rebeldia e sons pesados fazem parte do imaginário construído em torno do rock ao longo das décadas. Quando o público é infantil, esses mesmos símbolos ainda podem provocar estranhamento. Valentina, de 8 anos, por exemplo, percebe que seu gosto não é exatamente o mais comum entre os colegas. Fã de Pitty, Nirvana e Red Hot Chili Peppers, entre os colegas da escola, ela não encontra muitos fãs do gênero. “Acho que eu sou a única”, contou.
Isso, porém, não virou problema. Segundo ela, os colegas aceitam seu gosto tranquilamente. E se alguém disser que rock não é música para criança, Valentina também já sabe o que responder. “Eu diria que rock é um som bom, influencia em muitas coisas pra pessoa correr atrás. É boa música”.
A mãe, Anamara, também rejeita os estereótipos associados ao gênero, entre eles, de que o preto é uma cor inadequada para crianças. A filha costuma usar camisas de bandas como Pitty, Nirvana, Amy Winehouse e Red Hot Chili Peppers, inclusive quando vai às aulas de música.
“Para mim, é uma cor normal, como outras cores, como rosa. Ela também gosta de rosa. Gosta mais de preto, mas gosta também de rosa, vermelho. [...] Eu não acho que o rock influencie outras coisas ruins, não”, afirmou.
A discussão também aparece na casa de Rafael Guerreiro da Costa Pinto, de 6 anos. O menino faz aulas de guitarra e já ouviu adultos se surpreenderem com seu gosto musical. “Já [ouvimos comentários], tipo: ‘Ele gosta de rock? Nessa idade?’. Muito mais porque nessa idade eles costumam ouvir músicas mais leves, de desenho ou filmes”, relatou o pai, o engenheiro Roberto Ferreira da Costa Pinto, de 41 anos.
Para ele, porém, a divisão entre música infantil e música de adulto não é tão simples. “Jamais. Música não tem idade nem geração”.
O rock que passa de pais para filhos

Em boa parte dessas histórias, a primeira descoberta aconteceu dentro de casa. “Minha mãe, meu pai escutavam rock. Aí eu comecei a escutar também e a gostar”, lembra Valentina.
O mesmo ocorreu com Melissa Costa Bosque, de 5 anos. Antes mesmo de ela nascer, o gênero já fazia parte da rotina da família, que mora em Vilas de Abrantes. O pai, Alexandre Bosque, de 46 anos, técnico de operação na Petrobras, começou a tocar violão aos 11 anos e lembra de juntar dinheiro para comprar discos de Guns N’ Roses. Em casa, mantém instrumentos e um pequeno estúdio, espaço que rapidamente passou a ser frequentado pela filha.
“Ela sempre, desde pequenininha, tem vários vídeos dela tocando. [...] Eu gosto de Pink Floyd, de Red Hot. Aí toco uns sons mais tranquilos e ela sempre me acompanhava cantando”, contou.
A mãe, a empresária Marília Bosque, de 37 anos, lembra de cenas que deixavam claro que Melissa não seria apenas uma espectadora. “O Alexandre ia tocando a guitarra e ela pegava o violãozinho e cantava com vontade, batia cabelo. [...] A gente colocando o Mundo Bita e a Melissa cantando Alice in Chains”.
Hoje, Melissa faz iniciação musical com o teclado, mas quando precisa escolher entre ele, o violão e a guitarra, aponta para a guitarra. Ao responder o que quer ser quando crescer, criou até uma profissão própria: “Bandista”.
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Das caixas de whey protein para a bateria

Na casa de João Ferraz Pompa, de 9 anos, a música também vem de longa data. O pai, o economista Oscar Pompa, de 52 anos, esteve nos três primeiros Rock in Rio e tem o rock entre seus gêneros favoritos. Mesmo assim, garante que a escolha do filho surgiu espontaneamente. “Eu gosto muito de música também, mas o meu estilo preferido é rock. Mas nunca influenciei muito o João nesse sentido, não”.
João já estudava música quando resolveu experimentar a bateria. Antes de ter o instrumento diante dele, encontrou outras formas de produzir som pela casa. “Ele começou a tocar em caixa de whey protein e creatina, as coisas que tinha aqui em casa, e ele começou a fazer som em casa. Improvisando”.
Foi o próprio menino quem pediu para fazer aulas e, quando questionado sobre o que mais gosta no rock, não hesita: “A bateria”.
Hoje, Red Hot Chili Peppers está entre seus favoritos, ao lado de Queen, The Beatles, Capital Inicial e Barão Vermelho. Na bateria, já passou por músicas como “We Will Rock You” e “Californication”. Se pudesse escolher qualquer banda para assistir a um show, João também já tem uma favorita: “Queen”.
A aula de bateria na Badermann Academia de Música, em Lauro de Freitas, virou um dos momentos mais aguardados da semana. “Agora, a coisa que ele mais gosta na vida é a aula de bateria. Então ele passa a semana inteira ansioso, esperando pela aula dele. A coisa que ele mais gosta”, afirmou o pai.
E João explica a razão em poucas palavras: “Eu gosto muito da aula de bateria”. Ao dizer o que mais gosta de fazer nela, completa: “Tocar rock”.
Rafael Guerreiro da Costa Pinto, de 6 anos, também encontrou cedo seu instrumento. Ele faz aulas de guitarra há três meses e explica de maneira simples o que mais gosta nela: “O som”.
Entre suas preferências aparece principalmente o Charlie Brown Jr. Segundo o pai, o engenheiro Roberto Ferreira da Costa Pinto, de 41 anos, o pedido já virou rotina dentro de casa: “Alexa, tocar Charlie Brown Jr.”.
A escolha tem influência familiar. O rock sempre esteve entre os gêneros ouvidos por Roberto, que acredita que essa convivência ajudou a despertar a curiosidade do filho. Se pudesse escolher uma música para tocar em um grande palco, Rafael iria de “Céu Azul”, do Charlie Brown Jr.
Para a família, apresentar diferentes estilos musicais às crianças também é uma forma de ampliar referências. “Mostrar às crianças que conhecer coisas novas e sair um pouco da própria bolha é importante e faz parte do aprendizado. Isso amplia os horizontes e ajuda a desenvolver o senso crítico”.
Meninas também seguram a guitarra

Se entre os pequenos ainda surge a pergunta “criança gosta de rock?”, Catarina Rossiter Tavares e Marina Mendonça Bastos, ambas de 12 anos, mostram que o interesse pode atravessar a infância e ganhar ainda mais força na adolescência. Nas duas histórias, o gênero apareceu cedo, permaneceu com o passar dos anos e acabou encontrando também um instrumento em comum: a guitarra.
Moradora de Lauro de Freitas, Catarina começou a demonstrar interesse por rock, pop e MPB por volta dos 6 ou 7 anos, segundo a mãe, a analista de sistemas Erica Rossiter Tavares, de 50 anos. Quando passou a criar as próprias playlists, o gosto ficou ainda mais evidente.
Hoje, Nirvana, System of a Down, The Smiths, Arctic Monkeys e The Killers aparecem entre seus favoritos. “Eu gosto muito do som que a guitarra faz. A música que eu mais gosto de tocar é ‘Come As You Are’ porque eu sei tocar bem”, contou Catarina.
Entre suas referências no instrumento está Slash, guitarrista do Guns N’ Roses e um dos nomes mais conhecidos da guitarra no rock.
Marina também cresceu cercada pelo gênero. “Desde que eu era pequena, tipo, bem pequenininha, os meus pais já botavam rock para eu escutar e eu gostava. Eu fui crescendo, eu fui desenvolvendo meus gostos pelo rock”.
O pai, Mateus Bastos, 46 anos, servidor público, guarda uma lembrança curiosa daquela época. “A gente bota rock desde que ela era bebê. [...] Já quando ela era uma bebezinha, ela fazia o símbolo do rock”, diz.
Na adolescência, a influência dos pais encontrou espaço para um gosto próprio. Marina cita Metallica, Iron Maiden e Rage Against the Machine entre os favoritos. Do Brasil, aparecem Pitty, Rita Lee, Legião Urbana, Inocentes e Black Pantera.
Mas mesmo depois de passar da infância, gostar de rock ainda pode colocar Catarina e Marina em uma minoria entre os colegas. Na escola, Catarina resume: “Só eu gosto mesmo”. Ela também já ouviu um comentário que coloca o gênero como algo pertencente a outras gerações. “Já ouvi falar que era ‘música de velho’. Acho meio ridículo”.
Erica conta que o gosto musical da filha já chamava atenção quando ela era menor. “Surpreendeu, pois se diferenciava da maioria das crianças nessa idade que gostam de músicas mais ligadas ao funk ou pagode”.
Marina também percebe que o grupo de fãs não é tão grande. “Eu sou amiga das poucas pessoas que gostam de rock”.
Além da idade, existe outra camada nos estereótipos envolvendo Catarina e Marina: as duas são meninas que escolheram a guitarra. Erica acredita que ainda existe alguma associação do rock com o universo masculino. “Um pouco. Entre os poucos amigos dela que curtem mais rock, a maioria são meninos”.
Por isso, uma das estratégias da família é apresentar à filha referências femininas. “Mostrando mulheres que fazem rock e pop, como Pitty, Rita Lee, cantando as letras e as interpretando”.
Marina também escolheu o instrumento a partir da própria relação com as bandas que escuta. “Com a guitarra eu consigo colocar um monte de efeito legal e também a guitarra é um instrumento principal. E aí eu consigo tocar a maior parte das músicas das bandas que eu gosto”.
Mas se quando bebê Marina já crescia ouvindo o gênero dentro de casa, hoje a experiência ultrapassou as caixas de som. A adolescente já curtiu o Palco do Rock, durante o Carnaval de Salvador, inclusive no dia da apresentação do Ratos de Porão.
Mateus defende que o contato com o gênero, como com qualquer outro estilo musical, precisa vir acompanhado de diálogo. “Todo gênero tem suas dificuldades, tem seus problemas e suas qualidades também. Eu acho que, se você introduz e você acompanha, você está lá para eventualmente conversar sobre uma coisa ou sobre outra e contextualizar para a criança, não vejo problema”.
O servidor público também faz uma ressalva importante ao falar sobre a influência dentro de casa. “Eu nunca toquei nada para mostrar para ela. A gente toca o que a gente gosta e a gente também bota no rádio o que a gente gosta”.
Entre o som pesado e o cuidado dos pais

Assim como acontece no pop, no rap, no funk, no sertanejo e em outros gêneros musicais, o rock também reúne canções que abordam temas mais sensíveis, letras com palavrões ou histórias de artistas marcadas por excessos, conflitos e comportamentos que podem exigir mais cuidado quando o público é infantil. Para os pais ouvidos por A TARDE, no entanto, isso não significa que o gênero precise ser tratado como proibido para crianças. A saída encontrada pelas famílias passa por acompanhar o que os filhos escutam, conversar sobre determinadas letras e contextualizar conteúdos de acordo com a idade.
Pai de Marina, Mateus defende justamente a contextualização. “Todo gênero tem suas dificuldades, tem seus problemas e suas qualidades também. Eu acho que, se você introduz e você acompanha, você está lá para eventualmente conversar sobre uma coisa ou sobre outra e contextualizar para a criança, não vejo problema”.
Na casa de Rafael, a lógica é semelhante. O engenheiro Roberto Ferreira da Costa Pinto, de 41 anos, prefere acompanhar e conversar com o filho em vez de simplesmente transformar determinadas músicas em algo proibido.
“Algumas coisas podem fugir um pouco do que consideramos adequado para a idade dele. Nesses momentos, acredito que o mais importante é conversar, explicar e ajudá-lo a entender que nem tudo o que vemos ou ouvimos deve ser reproduzido, e que não precisamos concordar com tudo”.
Alexandre Bosque, de 46 anos, pai de Melissa, acrescenta outro cuidado: a escolha do repertório apresentado à filha de 5 anos. Fã de diferentes vertentes do rock, ele procura priorizar canções que considera mais adequadas para esse momento da infância.
“Eu sempre procuro colocar coisas mais pra cima, com mensagens de músicas que não envolvem esses temas”.
Rock in Bahia: o festival dos sonhos da nova geração

Depois de tantas bandas e histórias compartilhadas, sobra uma pergunta: e se essas crianças e adolescentes pudessem montar o próprio festival de rock, quem estaria no palco?
O line-up seria daqueles difíceis de reunir. Valentina não pensa duas vezes ao escolher Pitty, artista que já toca até no piano e que gostaria de ver ao vivo. João, diante da possibilidade de assistir a qualquer banda do mundo, também foi direto: “Queen”.
Rafael escalaria o Charlie Brown Jr., embora aos 6 anos já saiba que esse é um desejo impossível de realizar como imagina. “Charlie Brown Jr., só que não posso mais”, lamentou. Ao explicar o motivo, veio a resposta que mistura inocência e saudade de um artista que ele nem chegou a conhecer: “Porque Chorão já foi para o céu”.
Entre as adolescentes, o festival ganharia ainda mais peso. Catarina colocaria Arctic Monkeys, The Killers e System of a Down no mesmo palco. Marina, por sua vez, escolheria ver Angus Young, guitarrista do AC/DC. E, se pudesse desafiar até o tempo, acrescentaria outro nome: “Se eu pudesse trazer alguém de volta à vida, eu veria Ozzy Osbourne. Mas não dá. Mas aí eu pensaria em Angus Young, porque, não sei, eu queria ver alguém se esfregando no chão, tocando uma guitarra”.
Aos 5 anos, Melissa ainda não montou exatamente seu festival dos sonhos. Quando perguntada sobre a banda preferida, respondeu primeiro “a banda do papai”. Guns N’ Roses e Red Hot Chili Peppers estão entre os sons que fazem parte da rotina da família. Mas ela já tem uma ideia bem mais definida sobre o lugar que gostaria de ocupar no futuro: quer ser “bandista”, e, entre os instrumentos do estúdio de casa, escolhe a guitarra.
Talvez seja justamente aí que esse line-up imaginário ganhe seu nome mais importante. Hoje, Valentina, João, Rafael, Melissa, Catarina e Marina olham para o palco e escolhem quem gostariam de encontrar nele. Mas todos já estudam música; entre eles há pianista, baterista e guitarristas em formação. Valentina já pensa em montar uma banda, Melissa quer ser “bandista” e os demais seguem descobrindo o que conseguem fazer com teclas, cordas e baquetas.
Por enquanto, eles estão na plateia escolhendo seus ídolos. Daqui a alguns anos, o nome no cartaz pode ser o deles.


