OPINIÃO
O paradoxo do prato
Confira o editorial do jornal A TARDE deste sábado


A Bahia está hoje no degrau de bronze do indesejado podium nacional do número de pessoas com excesso de peso. Em dez anos, cresceu 54,5% a proporção de adultos com obesidade, acompanhados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sivan), uma ferramenta do Sistema Único de Saúde (SUS).
Passam de um milhão e 500 mil os baianos flagrados pela balança. O dado na capa d’A TARDE de sexta-feira expõe o hipercalórico absurdo. Vivemos a contradição mais cruel da (in) segurança alimentar. Ao mesmo tempo de o programa Bahia Sem Fome garantir o mínimo a quem acorda de geladeira vazia, uma epidemia de sobrepeso e obesidade ajuda a desencadear cerca de 200 doenças.
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Estas enfermidades respondem,ao lado do diabetes, por quase metade dos oito mil atendimentos mensais do Centro de Referência Estadual para Assistência ao Diabetes e Endocrinologia da Bahia (Cedeba).
Combate à fome e estímulo ao sobrepeso constituem inequívoca figura de paradoxo, pois é impossível a “A” (saúde) ser idêntica a si e a “B” (doença) ao mesmo tempo, como se "bem" e "mal" coexistissem. Como alertou no XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado em Salvador, a endocrinologista Fernanda Braga, o enfrentamento da fome pede cardápio de qualidade.
No entanto, os chamados “ultraprocessados” nutrem o lucro – obeso – da indústria alimentícia. Como disse a médica, “a caixinha de suco da criança o que menos tem é fruta”.
Neste ponto de desequilíbrio, a dieta deve ser ressignificada. É preciso garantir acesso ao alimento de verdade. Isso exige educação alimentar, rotulagem fácil para reduzir o risco de interpretações, regulação da publicidade infantil e linha de cuidado estruturada no SUS.
Combater a fome e combater a obesidade são agendas complementares. São duas faces da mesma luta: direito a comer bem, com dignidade e saúde. Sem paradoxo.


