INVESTIGAÇÃO
Fornecedor do CV movimentou milhões e tinha vida de luxo no Nordeste
Criminoso foi preso na última segunda-feira, 28


Uma cobertura de luxo em Jatiúca, em Maceió, foi a moradia de Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, de 42 anos, por cerca de dois anos. De lá, ele comandava um esquema de fornecimento de drogas para comunidades dominadas pelo Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro. Ele foi preso na última segunda-feira, 28.
As investigações apontam que a operação movimentou cerca de R$ 70 milhões. Ele morava com a companheira em um prédio com apartamentos avaliados em R$ 3 milhões, com vista para a praia.
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Esquema bem organizado
Para se manter escondido e sustentar uma vida de alto padrão, Júnior criou sistemas de segurança para dificultar seu rastreamento, falsificou documentos para ocultar sua identidade e recorreu a laranjas para movimentar e esconder o dinheiro obtido com o tráfico de grandes quantidades de drogas.
Segundo a Polícia Civil, ele, que era conhecido como Boyzão ou Boss, ainda planejava expandir os negócios para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e passar a fornecer armas para a maior facção criminosa do Rio.
Laércio foi preso durante uma operação integrada entre as polícias civis do Rio e de Alagoas. O delegado Igor Diego Vilela Costa, da Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado de Alagoas, disse que o criminoso viveu no estado como um cidadão sem antecedentes, sem levantar suspeitas.
“Ele tomava muito cuidado para não aparecer. Inclusive, não atuava em nenhum tipo de crime aqui no estado. Todos os negócios dele eram no Rio, em São Paulo e em outros estados. E, como usava documentos falsos, ninguém sabia que ele era procurado pela Justiça”, revelou.
De acordo com as investigações da Polícia Civil do Rio, Laércio fraudou diferentes documentos, entre eles identidade, passaporte e a Carteira de Identidade Nacional (CIN), documento que substitui o antigo RG e utiliza o CPF como registro único de identificação.
A polícia falou que a CIN usada por Laércio não era uma falsificação comum. O documento foi emitido por órgãos oficiais de forma fraudulenta, em nome de outra pessoa e com dados de filiação diferentes dos verdadeiros.
Viagens
Boss usou desse mecanismo para conseguir transitar entre os estados em viagens de avião e até deixar o país sem levantar suspeitas. Para evitar ser rastreado pela polícia, ele também desenvolveu um esquema de substituição de celulares, trocando de aparelho semanalmente.
Quando os agentes chegaram à casa dele, encontraram sete caixas de iPhones fechadas, três aparelhos em uso e seis passaportes. Também foi apreendida no local uma bolsa cheia de dinheiro, cartões, joias e itens de luxo.

Criminoso há mais de dez anos
Laércio Isidoro do Nascimento Júnior começou a sua vida no crime há mais de dez anos. Ele tem passagens e processos por estelionato e fraude. Conforme uma denúncia do Ministério Público de Minas Gerais, o criminoso é um dos chefes de uma organização criminosa que, em 2016, sacou R$ 225 mil de contas bancárias por meio de fraude.
Ainda segundo o MP, o grupo contratava hackers para obter dados sigilosos de clientes e senhas e produzia cartões bancários clonados, usados para retirar os valores das contas.
A denúncia apontou que Boss era um dos líderes do grupo e tinha como função recrutar pessoas para realizar os saques e orientá-las durante a execução dos crimes. Os delitos foram cometidos em Belo Horizonte, e a denúncia foi apresentada em 2023.
Na época, Boss ainda morava no Rio de Janeiro e, segundo as investigações da Polícia Civil, foi por meio dos crimes de estelionato que ele se aproximou de integrantes do Comando Vermelho.
“Ele foi se conectando com pessoas do Comando Vermelho e passou a atuar fornecendo pequenas quantidades de drogas. Só que, por ser um cara articulado, foi crescendo no ramo e expandiu sua atuação. Fez viagens para Mato Grosso e Amazonas, por onde entra droga vinda de outros países, entendeu a dinâmica e passou a vender no atacado para o CV”, explicou o delegado Alexandre Capote, corregedor-geral da Polícia Civil do Rio e um dos responsáveis pela investigação
Ligação com PCC
Depois que montou um esquema de fornecimento, Laércio passou a levar drogas de São Paulo e a atuar com o aval do PCC, ou seja, autorização logística da facção para transportar as drogas pelo território paulista e também montar empresas para lavar o dinheiro ilícito.
Em menos de dois anos, o esquema montado por Boss movimentou cerca de R$ 70 milhões. O delegado Capote disse que Boss também planejava começar a traficar armas para as organizações criminosas, utilizando a mesma estrutura que já tinha desenvolvido.
“Pelas conversas obtidas na investigação, vimos que ele falava com chefões do PCC e estava se expandindo para atuar da mesma forma para eles. Aqui no Rio, o Boss tinha muita intimidade com chefes do CV e era um fornecedor de grandes quantidades de drogas, que geralmente fornecia no atacado de emergência. Sempre que uma carga era perdida ou apreendida, os traficantes procuravam por ele”, finalizou o delegado.


