POLÍCIA
Primeiro Comando do Golpe: nova facção ameaça explodir guerra nos presídios
Disputa dentro dos presídios envolve ameaças de morte e tentativa de tomada de galerias


Uma disputa que começou dentro das celas pode estar dando os primeiros sinais do surgimento de uma nova facção criminosa no Rio de Janeiro. O grupo, chamado Primeiro Comando do Golpe, nasceu de uma ruptura dentro do Povo de Israel (PVI) e já é alvo de monitoramento da Secretaria estadual de Polícia Penal (Seppen).
A movimentação deixou de ser apenas uma disputa interna entre presos e passou a provocar episódios de violência em diferentes unidades. Há relatos de espancamentos, ameaças de morte e até de uma galeria incendiada durante uma tentativa de tomada de controle.
O cenário levou a Seppen a acionar seu setor de inteligência para identificar os integrantes do novo grupo. Entre as medidas adotadas está o isolamento dos detentos apontados como participantes da dissidência.
A preocupação ganhou dimensão porque, caso se consolide, o Primeiro Comando do Golpe poderá se transformar na quinta organização criminosa do estado.
Incêndio expõe escalada da disputa
Um dos episódios que revelam o nível de tensão aconteceu no Presídio Lemos de Brito, no Complexo de Gericinó, em 23 de julho. Segundo um servidor da Seppen, presos ligados ao novo grupo atearam fogo em uma galeria durante uma tentativa de assumir o controle do espaço.
A ação teria sido conduzida por Thiago Faustino Apolinário dos Santos, conhecido como TH, apontado como um dos dissidentes do PVI.
Ainda conforme o relato do servidor, antes do incêndio os presos teriam tentado criar uma situação de emergência médica para conseguir dominar a galeria. Como a estratégia não teria dado resultado, o grupo colocou fogo no local.
O episódio teria provocado caos dentro da unidade e servido também como uma demonstração de força diante dos demais detentos.
Depois do incêndio, TH e outros cinco presos foram isolados e passaram a cumprir pena em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
Racha que deu origem ao grupo
O Primeiro Comando do Golpe surgiu após a morte de Avelino Gonçalves Lima, de 54 anos, apontado como chefe do Povo de Israel. A morte ocorreu no ano passado e, depois dela, uma dissidência começou a se organizar dentro das penitenciárias fluminenses.
O PVI tem uma característica diferente das principais facções do Rio: nasceu dentro dos presídios e não mantém territórios fora deles.
A organização reúne os chamados “neutros”, presos que não integram o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) ou os Amigos dos Amigos (ADA). Em geral, também não são aceitos por esses grupos devido a acusações relacionadas a crimes como estupro e estelionato.
Os golpes aplicados por telefone são a principal fonte de renda do PVI, que também comercializa drogas dentro das unidades.
A atuação do grupo já havia entrado no radar da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). No início deste mês, um policial penal foi preso sob suspeita de facilitar a entrada de celulares e entorpecentes para integrantes do PVI.
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Agora, a ruptura dentro da organização coloca o sistema penitenciário diante de uma possibilidade que pode alterar o cenário das facções no estado: o surgimento de um novo grupo, formado dentro das próprias prisões e já envolvido em uma disputa que tem produzido medo, ameaças e episódios de violência.
Medo de um confronto maior
Os sinais de que a disputa poderia sair do controle também foram registrados pelo Conselho Penitenciário do Estado do Rio (Cperj).
Durante uma vistoria realizada em julho no Presídio Evaristo de Moraes, conhecido como Galpão da Quinta, em São Cristóvão, os conselheiros ouviram diretamente dos internos relatos sobre a briga entre integrantes do PVI e os dissidentes.
Um dos presos contou ter quebrado três costelas durante uma dessas disputas.
O relatório produzido após a inspeção descreveu um ambiente marcado pelo medo e pela possibilidade de novos confrontos.
“Ouvimos relatos de espancamentos, ameaças e medo de morte. Alguns presos disseram temer ser mortos dentro da unidade. Outros afirmaram que matariam na primeira oportunidade. Um dos presos no seguro, área em que fica separado dos demais, relatou estar com medo de morrer em razão da disputa interna. Afirmou que a unidade estaria ‘a um passo de um banho de sangue’”, diz um trecho do relatório elaborado pelo órgão.
Em ofício encaminhado à Seppen em 9 de julho, o Conselho classificou a situação como “crítica”. Segundo o documento, a disputa entre os presos, junto à superlotação e à falta de servidores, formava um quadro de “grave instabilidade, com iminência de episódios de violência”.
Pelo menos 60 já foram identificados
A possível nova facção não estaria restrita a uma única prisão. Um servidor da Seppen afirmou que pelo menos 60 presos já foram identificados como integrantes do Primeiro Comando do Golpe e que os confrontos com o PVI vêm ocorrendo em várias unidades.
A Seppen informou que produziu um relatório sobre a formação do grupo e encaminhou o material aos setores de inteligência dos órgãos de Segurança Pública.
A secretaria, porém, negou os relatos de agressões registrados no relatório do Conselho Penitenciário. Sobre a superlotação, informou que está “adotando medidas cabíveis” para enfrentar o problema.
No Presídio Evaristo de Moraes, a situação é agravada pela quantidade de internos. A unidade foi projetada para 1.497 pessoas, mas tinha 3.244 presos durante a vistoria, mais que o dobro da capacidade.


