A disparidade entre homens e mulheres na política brasileira tem um bom exemplo quando o recorte se dá sobre o comando dos partidos políticos. Das 30 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2026, apenas três são presididas por mulheres: o PCdoB, com Nádia Campeão; o Podemos, com Renata Abreu e o PSOL, com Paula Coradi.
Coincidência ou não, o número também é o mesmo na Bahia, onde Lídice da Mata (PSB), Isabela Sousa (Cidadania) e Eslane Paixão (Unidade Popular) lideram os diretórios estaduais das suas siglas.
Quando os números absolutos são convertidos para proporcionais, a distância entre a representatividade masculina e feminina fica ainda mais evidente. A quantidade significa somente 10% de todos os partidos, porcentagem inferior aos 30% estabelecidos na legislação eleitoral como mínimo para as candidaturas de mulheres por partido.
O Portal A TARDE falou com as dirigentes baianas, que fizeram uma análise sobre o cenário no estado e destacaram as dificuldades enfrentadas por mulheres em postos de poder na política.
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MARCAS HISTÓRICAS
A presidente do PSB baiano e deputada federal, Lídice da Mata, reconhece que houve avanços nos últimos anos, mas avaliou que a política brasileira ainda carrega marcas históricas de desigualdade entre homens e mulheres.
“Durante muito tempo, os espaços de decisão dentro dos partidos foram ocupados majoritariamente por homens, o que criou uma cultura política pouco aberta à liderança feminina. Embora tenhamos avançado, ainda existe uma resistência estrutural que dificulta que mulheres cheguem aos postos de direção partidária. Precisamos fortalecer mecanismos de participação, incentivar a formação política de mulheres e garantir que os partidos assumam, de fato, o compromisso com a igualdade”, disse a socialista.

Primeira e única mulher eleita prefeita na história de Salvador, Lídice concorda com a afirmação de que a baixa presença de mulheres nas presidências dos partidos atrapalha na formação da estratégia para eleger candidaturas femininas.
“A presença feminina nas direções partidárias ajuda a construir estratégias mais inclusivas e a garantir que mais mulheres sejam candidatas competitivas. A democracia se fortalece quando as mulheres participam plenamente de todas as etapas da vida política”, argumentou.
Apesar do cenário desfavorável, Lídice acredita que medidas podem ser tomadas para que a igualdade entre os gêneros se torne realidade. “Precisamos avançar para um modelo de igualdade real na política. Isso significa garantir proporção igual de candidaturas entre homens e mulheres, mas também discutir mecanismos que assegurem equilíbrio na ocupação das cadeiras nas casas legislativas. Se as mulheres são mais da metade da população brasileira, é justo que tenham uma representação equivalente nos espaços de poder. Promover essa igualdade não é apenas uma questão de justiça, mas um passo essencial para fortalecer a democracia e tornar as decisões públicas mais representativas da sociedade brasileira”, afirmou.
LUTA POR ESPAÇO
A presidente do diretório estadual da UP e candidata à Prefeitura de Salvador em 2024, Eslane Paixão, faz um diagnóstico mais profundo sobre a ausência de representação feminina na decisão dos rumos partidários e defende medidas mais enérgicas para mudar o cenário.
“Nós somos a maioria de chefes de família, mas uma maioria que não recebe salário igual e que mais sofre com desemprego ou subemprego. Nós não estamos nos espaços de poder, não decidimos sobre as nossas vidas. Ser mulher e presidenta nesse cenário para mim é extremamente importante por dizer que a gente precisa se organizar cada vez mais e lutar pelo que é nosso, lutar pela nossa libertação, lutar pela destruição desse sistema, que é o que nos submete a esse papel de escravas do capitalismo”, afirmou.
“Lutamos para ter as mulheres nos espaços de poder, mas lutamos sobretudo pela destruição desse sistema, que é quem de fato humilha as mulheres. A gente já teve mulheres dirigindo o país como presidenta, temos várias mulheres eleitas Brasil afora, mas o que a gente percebe é que a estrutura do sistema consegue ainda nos manter escravas e aumentar, nesse mesmo caminho, os índices de violência contra as mulheres que permanecem altos. Então, o buraco é muito mais embaixo, como a gente costuma dizer”, analisou.

FORTALECIMENTO
“Um avanço e um alerta”, foi assim que a presidente do Cidadania na Bahia e vereadora de Salvador, Isabela Sousa, classificou o fato de ser uma das poucas mulheres na presidência de um partido no estado.
“Avanço porque cada espaço que uma mulher ocupa na política abre caminho para outras. E alerta porque ainda somos poucas nesses lugares de decisão. A política brasileira ainda carrega barreiras estruturais que dificultam a chegada e a permanência das mulheres nesses espaços”, argumentou Isabela.
Para a vereadora, a baixa representatividade de mulheres nas direções partidárias causa sérios impactos nas mesas de decisão e na definição de estratégias eleitorais, e consequentemente, influencia nas eleições de candidaturas femininas.
“Ampliar a presença feminina dentro dos partidos é fundamental para que mais mulheres consigam disputar e conquistar mandatos”, pontuou.

Com o objetivo de debater temas fundamentais para o público feminino, o Grupo A TARDE promove o evento "Mulheres em Pauta: Empoderamento e Segurança". O encontro será realizado no dia 17 de março, das 15h às 18h, no Auditório do SEBRAE (Rua Arthur de Azevêdo Machado, 1225, Edf. Civil Towers, Costa Azul, Salvador - BA). A iniciativa integra as celebrações em torno do Dia da Mulher, reunindo discussões sobre protagonismo e proteção no cenário atual.
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