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CORACÃO VALENTE

Aos 60, psicóloga com ossos de vidro conta como superou fraturas e preconceito

Ao nascer, Glady Maria teve apenas seis meses de vida como prognóstico médico

Andrêzza Moura
Por
Glady Maria se formou em psicologia há 13 anos
Glady Maria se formou em psicologia há 13 anos - Foto: Rafael Muller / Ag. A TARDE

A infância da psicóloga e escritora Glady Maria da Silva, 60 anos, não foi marcada por corridas no quintal, brincadeiras na rua ou liberdade para descobrir o mundo sem medo. Enquanto outras crianças aprendiam a dar os primeiros passos, ela enfrentava uma rotina de hospitais, gessos e fraturas.

Diagnosticada com osteogênese imperfeita ao nascer, condição genética popularmente conhecida como síndrome dos ossos de vidro, ela já enfrentou mais de 120 fraturas ao longo da vida.

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Se o corpo exigia cuidados, a vida lhe reserva outros planos e caminhos que nem os prognósticos mais pessimistas poderiam prever. A mãe dela, a técnica de enfermagem aposentada, Maria Anunciação da Silva, 92, ouviu do médico que a filha teria apenas seis meses de vida.

“Eu só soube [da condição] quando ela nasceu. O médico disse assim para mim: ‘não vai dar seis meses de vida’. Voltei para ele e disse: ‘doutor, Jesus só dá a quem pode fazer’”, lembrou dona Maria Anunciação, entre lágrimas.

Amor sem limites
Amor sem limites - Foto: Rafael Muller / Ag. A TARDE

“Na gestação, não descobri nada. Na época, não havia recursos quanto tem hoje. Mas, minha prenatalista foi um zero à esquerda. Porque quando eu falava com ela o que eu sentia e o que eu via, ela não acreditava, porque a médica era ela e eu era o paciente”, conta a mãe.

Dia de luta

Neste domingo, 11 de outubro, data que marca o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência Física, a história de Glady é um convite a olhar para além das limitações físicas e, sobretudo, para as barreiras que a sociedade insiste em construir.

Psicóloga há 13 anos, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Gestalt-terapia, escritora e mulher com deficiência, ela transformou experiências de dor, exclusão e dependência em uma trajetória de autonomia, conhecimento e acolhimento.

A menina que, segundo a previsão médica, teria pouco tempo de vida chegou à idade adulta, conquistou formação universitária, tornou-se profissional da psicologia e publicou dois livros.

Glady lançou Coração de Vidro em 2023, este ano, na Bienal do Livro, fez o lançamento de Coração Valente. Na ocasião, ela apresentou as duas obras.

Imagem ilustrativa da imagem Aos 60, psicóloga com ossos de vidro conta como superou fraturas e preconceito
Foto: Rafael Muller / Ag. A TARDE

Nos livros, ela faz uma conexão com diferentes dimensões de sua história. O primeiro remete à vulnerabilidade, às marcas emocionais e às experiências que moldaram sua trajetória. O segundo fala sobre coragem, persistência e a capacidade de continuar avançando diante das adversidades.

Para dona Maria Anunciação, a filha é motivo de orgulho e a razão de uma dedicação que atravessou décadas. No entanto, para a própria Glady, a conquista mais decisiva não foi apenas sobreviver, estudar ou se formar: foi aprender a ocupar o próprio espaço.

Uma infância que coube no chão

"Eu sempre digo que eu não tive infância", afirma Glady ao recordar os primeiros anos. A rotina era organizada entre casa e hospital, com novas fraturas, imobilizações e o receio constante de que qualquer movimento inadequado pudesse provocar outra lesão.

A preocupação da mãe, embora motivada pelo desejo de protegê-la, também restringia suas possibilidades de convivência. Com medo de que outras pessoas a segurassem de maneira inadequada e provocassem novas fraturas, a família procurava mantê-la em casa.

“A minha infância era ficar me arrastando pelo chão, porque eu não engatinhei. Eu ficava me arrastando assim, de costas, o cabelo era todo enrolado de tanto me arrastar de costas pelo chão. Não tive brinquedos, minha mãe nunca teve condições financeiras para me dar”, relembrou a psicóloga.

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O preconceito diário

Glady conta que a infância foi atravessada por duas ausências: a de recursos materiais e a de liberdade para explorar o mundo. Fora de casa, tinha que lidar com o peso dos olhares.

“As pessoas ficavam olhando porque eu, corporalmente, sou diferente, tenho a estrutura corpórea diferente. E isso hoje ainda chama atenção, mesmo estando em pleno século XXI. Imagina a minha geração! As pessoas ficavam olhando, apontando, dando risada”, relembra.

Acostumada com a dor física causada pelas fraturas, ela entendeu ainda muito nova que teria que aprender a conviver com a dor de ser observada antes de ser conhecida, julgada antes de ser ouvida e reduzida a uma condição física antes que pudessem enxergá-la como alguém que também tinha sonhos.

O dia em que a cadeira de rodas virou liberdade

Durante boa parte da infância e da adolescência, Glady era carregada por outras pessoas. Nos braços de familiares ou acompanhantes, conseguia subir escadas, atravessar ruas e participar de atividades.

Naquele contexto, a ajuda parecia resolver tudo. Mas havia um preço silencioso: sua mobilidade dependia da disponibilidade de alguém.

Ela conta que, por muito tempo, não se reconhecia plenamente como uma pessoa com deficiência. Como sempre havia alguém disposto a carregá-la, não percebia a dimensão das barreiras que enfrentaria quando precisasse realizar atividades por conta própria.

A mudança começou quando ingressou na universidade. O ambiente acadêmico ampliou seus horizontes, mas também revelou uma realidade que até então não conhecia, mas que teria de aprender a lidar.

Liberdade sobre rodas
Liberdade sobre rodas - Foto: Rafael Muller / Ag. A TARDE

“Com 18 anos, entrei na universidade e comecei a empinar o nariz. Foi daí que eu comecei a ficar mocinha, aceitei a minha cadeira de rodas. Eu não aceitava a minha cadeira de rodas. Porque eu só andava carregada. A adolescência foi toda carregada”, explicou a escritora.

Foi a partir daí, que Glady diz ter descoberto uma forma diferente de se relacionar com o próprio corpo e com o mundo. A cadeira deixou de representar algo que ela resistia em aceitar e passou a simbolizar a possibilidade de decidir para onde ir.

"Quando eu aceitei a minha cadeira, foi para mim o xeque-mate da minha vida. A liberdade", resume.

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Um dia de cada vez

Para ela, apesar dos avanços e conquistas, os obstáculos não foram eliminados. Sejam eles físicos ou relacionados ao preconceito, Mas, mudou a maneira como passou a enfrentar essas situações: em vez de esperar que o mundo lhe oferecesse espontaneamente condições de participação, começou a reivindicá-las.

“Graças a Deus, sou graduada, sou escritora, tenho três especializações. Na verdade, sou uma mulher hoje que nem todos conseguiram chegar onde eu cheguei. Não estou falando isso aqui para me engrandecer, estou falando que é uma conquista minha. E se é minha, eu preciso, sim, propagar. Preciso levar adiante”, finalizou a psicóloga e escritora Glady Maria da Silva, ao afirmar que sua deficiência não foi, não é e nunca será limite para suas conquistas pessoais e profissionais.

Atualmente, na área da psicologia, ela realiza atendimentos psicológicos diários de forma on-line. Para agendar uma consulta, os interessados podem entrar em contato pelo telefone (71) 98606-3819 ou pelo Instagram @gladymariadasilva.

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pcd pessoas com deficiência pessoas com deficiência física

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