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AUMENTO DE CASOS

O que está por trás dos ataques a imagens de santos católicos em Salvador?

Intolerância religiosa: Bahia registra 124 denúncias em oito meses

Priscila Dórea
Por Priscila Dórea
Imagens de Santa Dulce e Nossa Senhora foram vandalizadas em Salvador
Imagens de Santa Dulce e Nossa Senhora foram vandalizadas em Salvador - Foto: Ag. A TARDE

Altares que por séculos guardaram silêncio e devoção agora testemunham a violência da intolerância. Imagens de santos católicos vêm sendo vandalizadas em diferentes cantos do Brasil, como se a fé pudesse ser quebrada junto com elas. O golpe não atinge apenas o objeto, mas fere a memória coletiva, o consolo espiritual e a identidade de comunidades inteiras.

Seja fruto de vandalismo isolado ou de uma onda de intolerância que ameaça a liberdade de crença, entre a dor dos fiéis e a busca por respostas, surge uma pergunta inquietante: o que leva alguém a transformar o sagrado em alvo?

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Até agosto de 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou 1.865 denúncias relacionadas à liberdade de crença ou religião, que resultaram em 3.330 violações de direito no país – um aumento de 4,8% nas denúncias e de 16,1% nas violações em comparação ao mesmo período de 2025.

Na Bahia, foram contabilizadas 124 denúncias e 257 violações entre janeiro e agosto. Advogado, procurador-geral de Ribeira do Amparo e professor de direito e processo penal, Luiz Fernando Ribeiro de Sales aponta que o crescente número de denúncias relacionadas à liberdade de crença ou religião é um sinal de alerta, mas precisa ser interpretado com cautela.

“Pode significar aumento real dos casos, mas também pode refletir maior consciência das vítimas, maior confiança no canal de denúncia, repercussão pública do tema e melhor classificação dos registros. Mas denúncia não basta. O ponto central é saber se essa denúncia se transforma em investigação, responsabilização e política pública. Quando há aumento de registros e baixa resposta institucional, isso pode revelar falhas de prevenção, investigação ou articulação entre o Disque 100, polícia, Ministério Público, Defensoria e órgãos de direitos humanos”, alerta.

Episódios crescentes

Padre Marcos Venícius próximo ao local onde ficava a imagem de Santa Dulce que foi vandalizada
Padre Marcos Venícius próximo ao local onde ficava a imagem de Santa Dulce que foi vandalizada - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

O número crescente de casos levou o ministro do STF, Flávio Dino, a determinar que a Polícia Federal abrisse um inquérito para investigar pelo menos 11 episódios de intolerância e violência contra símbolos religiosos no país. Entre os principais, estão: a destruição por chamas da imagem de Nossa Senhora Aparecida em Novo Progresso (PA); a decapitação de uma imagem de Nossa Senhora em Cuiabá (MT); os danos à imagem de Nossa Senhora Aparecida em Londrina (PR); a imagem de Nossa Senhora vandalizada em Maceió (AL); duas imagens sacras destruídas em Rio Grande (RS); várias imagens sacras destruídas em Monte Alegre (SE) e os ataques a lojas de artigos religiosos católicos em Fortaleza (CE).

Um dos casos mais recentes foi em Salvador, no dia 22 de setembro, na Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado (Plataforma): um homem invadiu a igreja, retirou a imagem de Santa Dulce dos Pobres do altar lateral e a quebrou diante do sacrário. Câmeras registraram sua entrada.

“A intolerância parece ser o ponto mais evidente, porque o ataque foi dirigido exclusivamente à imagem de Santa Dulce. Se fosse apenas vandalismo, outras peças poderiam ter sido destruídas, como os candelabros, vitrais e bancos. Mas a violência foi contra o sagrado”, lamenta o Padre Marcos Venicius Studart Farias, pároco da Paróquia Jesus Cristo Ressuscitado.

Padre Marcos, que também é psicólogo, afirma que esse e outros atos de vandalismo de imagens também são um resultado da ausência de cuidado com a saúde mental.

“Precisamos olhar para o todo: para a pessoa fragilizada que necessita de apoio e para a necessidade urgente de conscientização e respeito ao direito do outro. Vivemos tempos de insegurança, desigualdade e violência generalizada, que desequilibram e fragilizam mentes. Nessas condições, ideologias extremas encontram terreno fértil. Algo assim nunca havia acontecido na paróquia”, argumenta. A imagem já está sendo restaurada.

Além de comunicar o acontecido à Arquidiocese e registrar um boletim de ocorrência – Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin), está investigando o caso –, a paróquia divulgou em suas redes o acontecido.

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Reflexão

“Nosso objetivo não é buscar vingança ou apenas identificar o autor, mas provocar reflexão: é preciso respeitar o direito do outro de rezar, de crer, de fazer suas escolhas”, afirma o padre. Fiel da paróquia e secretária paroquial, Dilma Soares (57) foi uma das primeiras a ver a imagem vandalizada.

“A sensação foi de profunda tristeza”, conta ela, afirmando que na hora questionou como alguém pode fazer uma coisa daquelas.

“É muito doloroso perceber que algo que deveria inspirar amor e sensibilidade se torna alvo de destruição. Se algo incomoda, não se pode transformar esse incômodo em violência contra o outro. Esse gesto fere não só a fé, mas também o respeito e a convivência”, afirma Dilma.

Já a fiel aposentada Antônia Santos Goes (79) afirma que ficou indignada e muito sentida. “Ao ver os pedaços da santa no chão, foi como se meu coração tivesse se partido junto. Como alguém tem coragem de entrar numa igreja e fazer uma barbaridade dessas? Qual a finalidade? É algo horrível, sem sentido. é urgente que as autoridades tomem medidas mais firmes”, pontua.

Sua amiga e também frequentadora da igreja, Telma Lima (62), conta que quando soube que a imagem havia sido quebrada, sentiu uma dor profunda. “É algo que a gente não entende: como alguém pode destruir a representação de uma pessoa que se doou por inteiro, que ajudou os pobres e marcou a história de Salvador? Esse ato não é apenas vandalismo, é uma fomentação do ódio e da violência. A imagem não podia se defender, e ainda assim foi atacada”, salienta.

Dias antes do vandalismo na Paróquia de Plataforma, foi a vez dos fiéis da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres (Matatu) ter uma infeliz surpresa: na manhã de 11 de setembro, por volta das 7h, a comunidade encontrou quebrada a imagem de Nossa Senhora das Graças. A ocorrência foi comunicada às autoridades, que enviaram equipes da Polícia Militar, Civil e Técnica ao local.

“Logo depois do ocorrido em nossa paróquia, quebraram a imagem de Santa Dulce na Paróquia Cristo Ressuscitado. Não podemos afirmar que estejam ligados, mas a sequência nos causa preocupação”, afirma o Padre Valson Santos Sandes, pároco da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres.

Atos assim, salienta Padre Valson, ferem a fé dos católicos e a liberdade de culto, “que deve ser respeitada em um país livre”. No caso da imagem de Nossa Senhora das Graças, alguns detalhes chamaram atenção da comunidade: ela foi quebrada no rosto e nas mãos, e no local não havia objetos de metal ou cobre, que costumam ser alvo de furtos.

“A forma como a imagem foi violada e as partes atingidas nos levam a considerar com mais preocupação a hipótese de intolerância religiosa do que a de um simples vandalismo. Essa é uma impressão suscitada pelas circunstâncias, não uma conclusão definitiva. A motivação precisa ser apurada pelas autoridades”, explica.

Diante da comunidade, ele procurou acolher a tristeza e evitar que a indignação se transformasse em confronto ou em acusações precipitadas. “Nossa resposta é firme, mas pacífica: oração, solidariedade, reparação e cuidado com o espaço sagrado. Também lançamos a campanha dos 300 Guardiões da Casa do Senhor. Queremos encontrar 300 pessoas dispostas a contribuir com R$500 cada, para a compra de um gradil para proteger melhor a igreja. Também estamos rezando em desagravo pelo ocorrido. É nossa maneira de responder à violência: oração, serenidade e comunhão”, explica Padre Valson.

A Arquidiocese acompanha os casos de perto e segue orientando as paróquias.

“Esse apoio também se expressa na atenção pessoal do nosso cardeal-arcebispo, Dom Sérgio da Rocha, que tem mantido contato conosco e demonstrado preocupação com toda essa situação. Essa proximidade tem sido importante para que possamos colaborar com a investigação, acolher a comunidade e agir com responsabilidade. Temos procurado manter a serenidade, não antecipar conclusões e conduzir a mobilização dos fiéis por caminhos pacíficos, de oração, união e cuidado com o espaço sagrado”, salienta.

O advogado Luiz Fernando explica que o Brasil possui um robusto arcabouço jurídico de proteção à liberdade religiosa, que se origina na Constituição Federal de 1988 e se desdobra por toda a legislação infraconstitucional.

“A liberdade de crença é um direito fundamental, o que lhe confere proteção jurídica especial no país, como expressão da própria identidade e dignidade humana, em toda a sua diversidade, sem distinção, hierarquia e discriminação”, explica.

A Constituição de 1988 garante a liberdade religiosa ao assegurar a consciência e a crença, o exercício dos cultos e a proteção dos locais sagrados. E esse direito é reforçado, explica o advogado, pela Convenção Interamericana contra o Racismo e a Intolerância, com status de emenda constitucional.

No campo legal, o Código Penal pune o escárnio, a perturbação de cerimônias e a injúria ligada à religião, enquanto leis como a nº 7.716/1989 e a nº 14.532/2023 ampliam a responsabilização por discriminação e racismo religioso - no caso deste último, aplica-se a regra de inafiançabilidade e imprescritibilidade, garantindo proteção severa contra atos de intolerância.

Além da esfera penal, há também a possibilidade de reparação civil por dano moral, tanto individual quanto coletivo, com atuação destacada do Ministério Público. Existem ainda leis específicas voltadas para enfrentar desigualdades históricas e sociais ligadas ao racismo, incluindo o religioso, como o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010) e, na Bahia, o Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa (Lei 13.182/2014).

“Em síntese, o desafio do combate à intolerância religiosa e ao racismo não é a ausência de lei. Ao contrário. É a distância entre o que a lei determina e a respectiva aplicação”, explica o advogado.

O delegado Ricardo Amorim, titular da Decrin, explica que a especializada atua na apuração de ocorrências envolvendo ataques a imagens e símbolos religiosos, incluindo os da Igreja Católica, quando há indícios de crimes relacionados à intolerância religiosa.

“A Polícia Civil ressalta que a destruição ou profanação de imagens religiosas pode configurar diferentes infrações penais, a depender das circunstâncias e da motivação identificada. A atuação da Decrin busca assegurar a responsabilização dos envolvidos, quando comprovada a prática criminosa, e garantir o respeito à liberdade de crença e de culto, direitos assegurados pela Constituição Federal”, afirma.

Antropólogo discute violência contra o catolicismo

Antônia diante do altar onde ficava a imagem de Santa Dulce que foi vandalizada
Antônia diante do altar onde ficava a imagem de Santa Dulce que foi vandalizada - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

Os ataques às imagens de santos católicos, que se intensificaram nos últimos meses, revelam uma violência que, embora recente para o catolicismo, é uma realidade antiga e persistente para as religiões de matriz africana. O babalorixá Vilson Caetano, da Casa do Rei e Senhor das Alturas (Ilê Obá Bá L’Okê), explica que esse ódio religioso, antes direcionado sobretudo às tradições afro-brasileiras, agora começa a atingir também o catolicismo.

Para ele, o que está na base dessa intolerância é o racismo, muitas vezes travestido de discurso religioso, que busca deslegitimar saberes, identidades e modos de vida historicamente negados.

“O que torna as religiões de matriz africana um alvo tão frequente de violência e intolerância é o que Frantz Fanon chamou de ‘medo negro’. Essas religiões sempre foram revolucionárias, porque mantêm nossa identidade, nosso modo de ser e de viver. São um grande movimento político que nos recoloca em um mundo que nos nega o tempo todo, e isso as transforma em alvo da intolerância religiosa. É uma tentativa de nos deslegitimar, de negar nosso saber e aquilo que somos. Na base de tudo está o racismo, muitas vezes travestido de discurso religioso para tentar amenizar ou justificar o preconceito", explica o babalorixá da Casa do Rei e Senhor das Alturas - o Ilê Obá Bá L'Okê -, Vilson Caetano.

Por isso que, mesmo que toda iniciativa inter-religiosa seja importante para mudar esse cenário, o combate essencial é contra o racismo.

“Porque ele está na base de tudo. É por isso que hoje falamos em ódio religioso. Muitas vezes, essa ideia de diálogo inter-religioso é puxada pelas igrejas cristãs a partir de uma mensagem de paz. Mas paz para quem? Paz para quem sempre teve paz. Para nós, povos afros, conquistar essa paz é muito mais difícil. Vejo a busca por esse diálogo como positiva, mas não sei se há espaço real para essa articulação”, reflete o babalorixá, que é pós-doutor em antropologia e professor associado da UFBA.

Ele explica que o Brasil está cada vez mais perverso com o crescimento desordenado do neopentecostalismo. “É um país que se diz laico, mas tem uma bancada evangélica, então não é laico coisa nenhuma. Basta ver a dificuldade que tivemos para implementar a Lei 10.639: quando íamos lecionar história da África e cultura afro-brasileira, algumas professoras evangélicas diziam que não iam falar porque aquilo era ‘coisa do diabo’. Ainda hoje, algumas crianças não participam das atividades do 20 de novembro. Muita coisa mudou, mas ainda falta conquistar muito”, salienta Vilson Caetano.

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