EXPANSÃO DO METRÔ
Obra do metrô no Campo Grande revela vestígios da elite baiana do século XIX
Sítio arqueológico guarda 235 peças associadas a antigas residências e palacetes da região


Um sítio arqueológico descoberto durante as obras do metrô na Estação Campo Grande, em Salvador, guarda vestígios do cotidiano da elite baiana que ocupou a região no século XIX. Entre os 235 bens móveis identificados estão louças inglesas e portuguesas, porcelanas, garrafas de bebidas, frascos, ossos e outros materiais que ajudam a revelar hábitos de consumo dos moradores dos antigos palacetes e residências no entorno do Largo do Campo Grande.
Os documentos que detalham a descoberta foram obtidos pela reportagem do portal A TARDE junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O sítio ocupa uma área de 188,41 m², onde estava a antiga Fundação João Fernandes da Cunha (JFC), localizada no Campo Grande.
A maior parte dos vestígios é datada da segunda metade do século XIX e corresponde a um antigo depósito de descarte doméstico. A concentração e a diversidade dos objetos permitem aos pesquisadores relacionar o material às práticas de alimentação, consumo e uso cotidiano das famílias que viviam na área durante um período de transformação urbana do Campo Grande.
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O que foi encontrado nas obras do metrô?
As faianças representam 28% do acervo analisado e incluem exemplares de faiança fina inglesa do século XIX e peças de origem portuguesa do século XVIII. Os vidros correspondem a 30% do conjunto, com garrafas de bebidas e frascos.
Também foram encontrados:
- ossos (11%),
- cerâmica local ou regional (7%),
- telhas (7%), cerâmica vidrada (6%),
- material malacológico: conchas (3%), grés (2%), metais (2%), porcelanas (2%), pisos (1%) e outros materiais (1%).

A presença de produtos fabricados na Europa é um dos elementos utilizados pelos estudos para compreender a inserção de Salvador nas redes de circulação de mercadorias durante o período.
O material arqueológico permite, assim, investigar não apenas a existência das antigas residências, mas aspectos do cotidiano de seus moradores a partir daquilo que era consumido e posteriormente descartado.
Materiais foram preservados por porão
A área arqueológica foi identificada durante as prospecções preventivas realizadas para a implantação da Estação Campo Grande, integrante do Tramo IV da Linha 1 do Sistema Metroviário de Salvador e Lauro de Freitas.
A preservação do trecho está relacionada à existência de um antigo porão em uma das edificações posteriormente demolidas. A estrutura manteve um barranco com mais de dois metros de altura, onde os artefatos permaneceram preservados e chegaram a aflorar na superfície.

Em uma sondagem, os pesquisadores encontraram materiais em contexto histórico entre aproximadamente 1,80 metro e 2,20 metros de profundidade. Essa área concentrou 220 peças, dentro do conjunto total de 235 bens móveis analisados.
Os estudos classificam o local como um depósito de descarte doméstico associado às antigas ocupações residenciais do entorno da praça.
A história que os vestígios contam
Os vestígios também ajudam a documentar a transformação do espaço que hoje corresponde ao Largo do Campo Grande.
O Programa de Gestão do Patrimônio Arqueológico elaborado para o empreendimento apresenta o processo de formação urbana da região e relaciona os materiais encontrados às sucessivas modificações realizadas no local.
A área passou por processos de aterramento e nivelamento a partir da década de 1850. O antigo espaço descampado, descrito nos estudos como um "grotão", foi gradualmente transformado em uma área pública valorizada e ajardinada.

O subsolo preservado funciona, nesse contexto, como um registro das diferentes etapas de ocupação e transformação da área.
Modernização de Salvador
As pesquisas identificaram ainda materiais de outro período de transformação da região. Em sondagens realizadas no leito viário em frente à futura estação, foram encontrados conduítes cerâmicos vitrificados de canal único, utilizados para a passagem subterrânea de fiação.
Os estudos indicam que esses materiais foram importados dos Estados Unidos ou da Inglaterra e chegaram a Salvador entre as décadas de 1910 e 1930.
O achado acrescenta ao conjunto evidências sobre a implantação de infraestrutura subterrânea e o processo de modernização dos serviços urbanos da capital baiana no início do século XX. O espaço do sítio, inclusive, ficava ao lado da antiga sorveteria Chalet Parisien

Para onde vai o material?
A área onde o sítio foi encontrado será diretamente atingida pela escavação do poço da Estação Campo Grande. Por isso, os estudos apontam que o contexto arqueológico não poderá ser preservado integralmente no local.
A solução prevista foi o salvamento arqueológico integral dos vestígios antes do avanço da obra. O material foi submetido a limpeza, higienização, estabilização, triagem, catalogação e numeração em um laboratório provisório instalado no canteiro.
Depois da curadoria, o acervo terá guarda permanente no Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da Universidade do Estado da Bahia (LAP/UNEB), no Campus VII, em Senhor do Bonfim. A instituição ficará responsável pela custódia e conservação das peças para pesquisas futuras.

Acervo será usado em ações educativas
Além da conservação, o projeto prevê ações para apresentar os resultados das pesquisas à população. Parte dos materiais arqueológicos, incluindo louças e recipientes históricos, já foi utilizada em atividades de educação patrimonial realizadas em escolas da região.
Entre 26 e 28 de agosto, as ações alcançaram 83 pessoas. Foram 69 estudantes em atividades realizadas no Colégio Estadual Senhor do Bonfim e no Colégio Estadual Deputado Manoel Novaes, além de 14 trabalhadores, comerciantes, feirantes e outros integrantes da comunidade do entorno.
O Projeto Integrado de Educação Patrimonial prevê ainda materiais digitais, guias de bolso para trabalhadores, painéis móveis, conteúdos por QR Code e uma mostra pública com os resultados das pesquisas.
Parte das peças consideradas mais representativas deverá integrar uma coleção de referência para futuras exposições e ações museológicas.
Avanço do licenciamento
O Parecer Técnico do IPHAN aprovou o Relatório Final de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Arqueológico e o Relatório de Educação Patrimonial referentes à Estação Campo Grande.
O IPHAN recomendou a execução do Programa de Gestão do Patrimônio Arqueológico (PGPA) e autorizou a continuidade do licenciamento ambiental, condicionada ao cumprimento das medidas previstas.
Como será a estação?
A descoberta arqueológica está inserida no projeto de uma estação subterrânea com 10.109,73 m² de área construída.
O projeto prevê um poço circular de 37 metros de diâmetro e nove níveis. A plataforma ficará cerca de 40 metros abaixo da superfície, enquanto a galeria de cabos chegará a aproximadamente 46 metros de profundidade.
A estação terá dois acessos públicos. Um deles ficará na esquina da Rua Forte de São Pedro com o Largo do Campo Grande e será integrado a um shopping, conforme antecipado pela reportagem do portal A TARDE na semana passada. O segundo ficará no lado oposto da via, próximo à praça.
A área de influência direta da obra inclui ainda bens protegidos, como o Forte de São Pedro, o Teatro Castro Alves, os azulejos da Reitoria da UFBA, o Forte São Paulo da Gamboa, a Fonte de São Pedro, a Escola de Belas Artes e o Palácio da Aclamação.


