INDEPENDÊNCIA
Salvador terá o primeiro 2 de Julho como capital simbólica do Brasil
Cidade se prepara para ser sede oficial da memória da Indpendência


O tradicional desfile em homenagem à Independência do Brasil na Bahia, marcado para a próxima quinta-feira, 2 de Julho, promete ser ainda mais emocionante este ano. No último dia 16, o Senado aprovou uma lei que transfere simbolicamente a capital do país para Salvador nesta data, em memória da vitória baiana sobre as tropas portuguesas em 1823 – episódio que consolidou a emancipação.
A medida, que aguarda sanção presidencial, transforma Salvador no palco oficial da memória nacional e reafirma o protagonismo da Bahia como guardiã da liberdade que deu corpo e alma à Independência do Brasil.
De autoria do deputado federal Leo Prates (Republicanos), o Projeto de Lei 5672/25 foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 10 de março de 2026 e pelo Senado no último dia 16 de junho, e prevê a transferência simbólica da sede do governo federal para Salvador, todo 2 de julho, em homenagem às celebrações da Independência da Bahia, determinando que nessa data os três Poderes da República realizem atividades oficiais na capital baiana.
Segundo o texto, caberá ao Executivo definir a logística, a segurança e a estrutura para os eventos, em coordenação com os outros Poderes e com as autoridades locais.
Agora, falta apenas a aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já confirmou presença no Desfile do Dois de Julho de Salvador deste ano.
“O coração do Brasil vai bater oficialmente em Salvador no dia 2 de Julho! Nosso projeto de lei, que torna Salvador a capital do Brasil em toda data do 2 de Julho, acaba de ser aprovado pelo Senado e agora segue para sanção presidencial”, celebrou Leo Prates em suas redes sociais.
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O historiador, professor e consultor Rafael Dantas, atual diretor da Biblioteca Ruy Barbosa do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), afirma que a aprovação do PL é de uma importância referencial do ponto de vista do protagonismo da capital.
“Assim como o protagonismo que toda a Bahia teve ao longo desse processo histórico. Salvador foi um grande epicentro econômico, político, cultural e comercial do processo da independência brasileira no século 19. Então sim, acho essa uma iniciativa de grande mérito e que ajuda principalmente na divulgação da relevância dos heróis e das heroínas da Bahia”, explica.
Processo histórico
Durante muito tempo, o 7 de Setembro foi consagrado como a data definitiva da Independência do Brasil, marcada pelo famoso grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga. No entanto, essa narrativa oficial simplifica um processo que foi muito mais longo e conflituoso.
O historiador baiano Luís Henrique Dias Tavares (1926-2020) desempenhou um papel fundamental na desmistificação dessa visão. Destacando que a verdadeira consolidação da emancipação ocorreu em 2 de Julho de 1823, quando a Bahia expulsou as últimas tropas portuguesas de Salvador, em suas pesquisas e obras, Tavares mostrou que o 7 de Setembro representou apenas o início simbólico da ruptura. A independência só se tornou efetiva após meses de combates sangrentos que garantiram a soberania nacional.
Ao trazer o 2 de Julho para o centro da narrativa histórica, ele evidenciou que a independência não foi um ato isolado e pacífico, mas um processo marcado por resistência popular, batalhas e sacrifícios.
O jornalista, publicitário e escritor Nelson Cadena explica que já houve várias tentativas de dar esse protagonismo à Bahia, mas nunca deu certo.
“Outros estados também pontuam seus papéis na independência do Brasil. Então, nas vezes em que isso foi discutido no Congresso Nacional na década de 1930, 1940 e mais tarde na década de 1960, não houve avanços, porque, por exemplo, a Bahia falava sobre o assunto, então vinha Pernambuco: ‘Nós também tivemos um protagonismo' e então Alagoas, Pará e vários outros estados que contribuíram para a independência do Brasil”, explica.
Cadena ressalta ainda a visibilidade que a Independência da Bahia vai ganhar e comoa mudança simbólica, o que pode reforçar certos segmentos culturais.
“Mostra a importância que teve o 2 de Julho, porque foi uma independência conquistada pelas armas e pelas pessoas. Acredito que, no futuro, essa decisão poderá contribuir ainda mais para a valorização da data”, reflete o pesquisador.
Presidente da Associação Cultural Grupo Indígena Os Guaranis, a principal guardiã da tradição dos Caboclos de Itaparica – que abrem o caminho para os carros da Cabocla e do Caboclo durante o Desfile ao Dois de Julho em Salvador -, Emanoel Pitta afirma que esse reconhecimento a partir do PL é muito importante, sobretudo para os grupos que compõem o desfile.
Reconhecimento
“O Brasil finalmente está reconhecendo a importância que a Bahia e os baianos tiveram nesse processo de consolidação da nossa independência. Nós, como representantes dos Guaranis e de Itaparica, que tiveram uma participação fundamental nas batalhas de 7 de janeiro de 1823, sabemos bem disso. Sem o 7 de janeiro em Itaparica talvez não houvesse o 2 de Julho em Salvador, por isso nós estamos, com todo orgulho, desde o início da década de 60, participando do 2 de Julho com o objetivo de mostrar os muitos personagens dessa história”, explica Emanoel Pitta.
Pitta conta que o Grupo entra em um período de ensaios e preparação das indumentárias já em outubro, seguindo até dezembro.
"Primeiro para o 7 de janeiro, então alguns eventos até finalmente o 2 de julho, sempre com grande expectativa de fazermos um trabalho bonito e de representarmos Itaparica e o povo itaparicano no cortejo, festejando os 203 anos da independência do Brasil na Bahia”, explica.
Os acontecimentos que antecederam o 2 de Julho remontam ao início de 1822, quando a tensão entre brasileiros e portugueses se agravou após a Revolução Liberal do Porto, que buscava recolonizar o Brasil e limitar a sua autonomia. Na Bahia, a resistência começou a se organizar no Recôncavo, especialmente em cidades como Cachoeira, onde líderes locais declararam apoio a D. Pedro I e à causa da independência.
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A partir daí, se formou uma verdadeira guerra: de um lado, os portugueses fortificados em Salvador; do outro, os brasileiros, que reuniam tropas vindas do interior e recebiam apoio popular. Mulheres – como Maria Quitéria, Maria Felipa, Joana Angélica, costureiras, mães e esposas, mulheres negras e indígenas que atuaram nos bastidores da guerra –, homens e até crianças participaram da mobilização, reforçando o caráter coletivo da luta.
Com o cerco por terra e mar, a situação das tropas lusitanas tornou-se insustentável. Até que, em 2 de julho de 1823, os portugueses foram obrigados a se retirar de Salvador, marcando a vitória definitiva dos brasileiros na Bahia e consolidando a Independência do país.
Para muitos historiadores, esse episódio é considerado mais sangrento e decisivo do que o 7 de setembro, pois não se tratou apenas de uma proclamação simbólica, mas de uma conquista militar e popular. Desde então, o 2 de julho é celebrado como a verdadeira independência da Bahia e, por extensão, como um marco essencial na formação da identidade nacional brasileira. Assim, o impacto desse PL que transfere a capital brasileira para Salvador atinge em cheio a forma como os brasileiros compreendem sua própria história.
“Essa ação, junto com todas as campanhas, trabalhos que compartilham as histórias da Bahia do ponto de vista da história pública e que falam da importância da Bahia nesse processo de independência, vêm contribuindo na construção de outras narrativas que mostram a pluralidade de se entender o processo de independência como algo que vai muito além do contexto Rio-São Paulo e que toca o Brasil como um todo”, afirma Rafael Dantas.
“Um processo que tem como caminho norteador entre 1822 e 1823, a Bahia, o Maranhão, o Pará, Pernambuco... Ou seja, as províncias do Norte que foram fundamentais para entender o redesenho do Brasil enquanto nação em um segundo momento pós processo de independência”, completa o historiador.


