ALÉM DOS SHOWS
Mudança no São João: entenda como a fiscalização do MPBA transformou a festa
Entre críticas e apoio, fiscalização do MPBA muda formato da festa na Bahia


Reunindo informações sobre artistas contratados, cachês, fontes de recursos e programação dos eventos realizados entre 1º de maio e 31 de julho, o Painel da Transparência dos Festejos Juninos, criado pelo Ministério Público da Bahia (MPBA), se consolidou como um instrumento essencial na fiscalização dos gastos públicos destinados às festas juninas - e tem gerado diferentes repercussões.
De um lado, municípios destacam a clareza nas contas e o respaldo que o Painel oferece no momento das contratações; de outro, alguns artistas questionam os limites estabelecidos para os cachês, embora muitos tenham recebido a iniciativa de forma positiva. Em 2026, o Painel de Transparência recebeu informações de 410 municípios e do Governo do Estado: com mais de 4.600 apresentações de 2.200 artistas, os investimentos (Prefeituras e Estado somados) já passaram dos R$ 630 milhões.
“No painel de 2025, verificamos gastos na ordem de R$ 700 milhões em cachês e em 2026, os prefeitos nos procuraram relatando aumentos de 30%, 40% e até 100% nos cachês em relação ao ano anterior. O MP não precifica, mas parte da média de contratações anteriores para avaliar se há majorações sem justificativa”, explica o promotor de justiça auxiliar do Centro de Apoio das Promotorias de Justiça de Proteção à Moralidade Administrativa (Caopam) do MPBA, Pablo Almeida.
Desde maio o MPBA vem identificando variações nos cachês - que não devem passar de +5% em relação ao São João anterior - e recomendando a suspensão de alguns shows. “Nosso temor era que os gastos ultrapassassem R$ 1 bilhão em 2026, o que não seria razoável diante da realidade de muitos municípios. Reconhecemos a importância cultural do São João e incentivamos a valorização dos artistas locais, mas é preciso haver um limite. Não estamos impondo tabelamentos, mas construindo diálogo com municípios e artistas. Mais de 50 artistas tradicionais já aderiram voluntariamente ao compromisso público pela economicidade dos festejos juninos”, ressalta Pablo Almeida.
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Diálogo positivo
Diálogo esse que foi muito bem vindo, afirma o prefeito do município de Esplanada, José Naldinho. De acordo com o Painel, ele investiu R$ 4,9 milhões em cachês em 2025 e em 2026 esse número caiu para R$ 4,5 milhões. “É muito importante mostrar à sociedade o valor de trabalhar os recursos públicos com responsabilidade. Tivemos muitas repercussões positivas com a redução dos cachês, principalmente da população e algumas negativas por parte de alguns artistas. Mas é inviável para os municípios pagar cachês de bandas que praticamente dobraram de preço. As prefeituras têm limites, por isso sou favorável ao teto de até R$ 600 mil ou R$ 700 mil nos cachês, é um valor justo”, argumenta.
Presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Wilson Cardoso, prefeito de Andaraí - cidade que em 2025 investiu R$ 914 mil em cachês e em 2026 o valor desceu para R$ 253 mil - explica que quando um município participa do Painel mostra a responsabilidade do município. “Quanto mais transparência, mais recursos podem sobrar para áreas essenciais como educação, saúde e assistência social, sem deixar de realizar uma festa boa, como o pé de serra que o nordestino gosta. O Portal da Transparência é um motivo de alegria. Prefeitos e prefeitas podem chegar em seus municípios e dizer: 'Pesquisem no portal para ver se fizemos boas contratações'. Quem ganha é o município e a Bahia”, afirma.
Mas, apesar das dezenas de artistas que entenderam o teto de gastos e renegociaram seus cachês dentro das possibilidades de cada município, houve algumas resistências, a exemplo do cantor paraibano Flávio José, que sempre marcou presença nos festejos juninos da Bahia. No início do mês, o cantor anunciou que estaria fora do São João da Bahia em 2026, pois às vésperas dos festejos - e com a agenda disponível para cantar no estado - ele recebeu a notícia de que o cachê que havia proposto seria diminuído.
“Enquanto outros artistas que nada tem a ver com forró ganham rios de dinheiro”, apontou ele nas redes sociais, ressaltando que sempre priorizou “Bahia durante toda minha carreira”. De acordo com Wilson Cardoso, no ano passado o artista se apresentou por R$ 250 mil e em 2026 aumentou para R$ 350 mil. “Sem lançar nada novo que justificasse esse reajuste de quase 40%”, explica o presidente da UPB. “Foi tentado negociar com ele e sua produção, mas não houve acordo. Espero que essa situação se reverta no futuro, pois nós gostamos de boa música e ele é um dos que fazem música de qualidade. Mas é preciso equilíbrio nos valores para que os municípios consigam manter as suas responsabilidades”, argumenta.
A reportagem de A TARDE tentou entrar em contato com Flávio José e sua produção, mas até o fechamento desta edição não teve retorno.
Prefeita de Cachoeira, município que registrou no Painel R$ 3,2 milhões em cachês em 2025 e em 2026 esse valor foi para R$ 5,4 milhões -, Eliana Gonzaga conta que a cidade estava entre as que teriam um show de Flávio José. “Era um dos nomes mais importantes da nossa programação, então fiquei muito triste com toda essa situação, assim como outros municípios. Entendemos que foi uma forma de reivindicação, um grito contra o controle do MP, mas sabemos que o Ministério não fez nada direcionado a ele em específico, foi uma medida geral. A realidade é que precisamos valorizar a cultura sem comprometer a sobrevivência e a manutenção dos municípios”, afirma.
Prefeito de Feira de Santana - cidade que investiu R$ 5,8 milhões em cachês em 2025 e R$ 7,5 milhões em 2026 -, José Ronaldo reitera que a maioria dos artistas aprovou a medida. “Mas houve casos como o de Flávio José, que reagiu de forma contrária. Entendo perfeitamente a posição dele, é um grande artista e cidadão. Essa reação deve servir para aprimorar ainda mais o processo. O importante é que esse movimento aconteceu e trouxe responsabilidade aos festejos juninos. É um aprendizado coletivo que fortalece a cultura sem comprometer os recursos públicos”, afirma.
Resultados alcançados
Coordenadora do Caopam e parte da equipe que criou o Painel da Transparência dos Festejos Juninos, a promotora de Justiça Rita Tourinho, destaca os resultados alcançados a partir da atuação articulada entre os órgãos de controle e os municípios, afirmando que a construção de consenso e a adoção de medidas preventivas possibilitaram a revisão de contratos e a redução de despesas públicas. “Mais de 718 contratos envolvendo 53 atrações artísticas resultaram em uma redução superior a R$ 22 milhões nos valores inicialmente previstos, demonstrando que é possível promover economicidade por meio do diálogo e da cooperação institucional”, explica.
Um bom exemplo disso é a própria capital. Com a retirada do São João do Parque (que reunia grandes atrações nacionais com uma base altíssima de cachês) e um foco maior na contratação de artistas de forró raiz e locais, além da distribuição maior de shows pelos bairros, os dados de Salvador registrados no Painel foram de R$ 20,1 milhões em cachês em 2025, para R$ 3,2 milhões em 2026.
“A festa é boa, gera renda e movimenta a economia, mas não pode ser prioridade acima de serviços essenciais. É preciso equilíbrio”, afirma o vigilante Sérgio Sodré. Ele e a esposa, a balconista Gislaine Souza, vão curtir a festa do Pelô este ano, que está com programação forrozeira desde o início de junho. “Além dessa redução dos cachês, o mais importante é priorizar o forró. Por mim, seria 100% forró raiz e pé de serra. Não faz sentido colocar outros ritmos como atração principal. Esse ano eu e meu marido vamos curtir apenas no Pelourinho, mas admito que estou com receio de superlotar, sabe? Acho que o São João no Parque deixava a festa mais distribuída”, pondera Gislaine Souza.
Já a técnica de enfermagem Vitória Santos pretende curtir o São João no Pelourinho. “Vou aproveitar que parte da família veio de Aracaju e ficar só por aqui mesmo, dançar, passear e tirar fotos. Para mim, é muito melhor contratar três artistas de forró de verdade do que gastar milhões em apenas um de outro ritmo. Precisamos preservar as tradições”, afirma.
Cantor baiano de forró, Norberto Curvello aponta que grandes artistas de fora terem cachês altos é algo compreensível pelo espaço que ocupam na mídia. “Mas quem vive do forró, da tradição e da cultura baiana muitas vezes não recebe o mesmo reconhecimento. Os valores pagos a grandes nomes poderiam ser rateados entre artistas locais e independentes, que mantêm o forró vivo o ano inteiro. Não concordo com artistas que gravam forró um mês antes da festa para entrar na programação. O São João precisa dar mais oportunidades aos forrozeiros da Bahia”, afirma o artista, que, com 25 anos de carreira, ainda sente dificuldade em fechar a agenda.
Com shows em Salvador (Pelourinho), Piritiba, Aratuípe, Jequié e Lafayette Coutinho este ano, Norberto conta que ainda tem muitos dias de festejos sem show, como o dia 24, dia de São João. “Precisamos priorizar o que é nosso e não falo isso apenas por mim. O São João é nossa cultura, nosso patrimônio. Valorizar o pé de serra, os sanfoneiros, os lançadores e até a culinária típica é preservar a identidade da festa. Esse empenho que está havendo em priorizar o forró raiz é muito bom, mas precisa de ações mais concretas”, afirma.


