OUTUBRO ROSA
Do autoexame à dor inesperada: histórias reais e os desafios do câncer de mama
Mulheres baianas compartilham diagnósticos precoces e a importância da conscientização


“Fiz o autoexame em casa e descobri um nódulo. Depois disso, fui ao mastologista e fiz os exames. Em dezembro, depois da biópsia e do imuno-histoquímico, veio o diagnóstico de câncer de mama triplo-negativo, que é um tipo de câncer agressivo.”
O depoimento é da corretora de seguros Isabela Gargur, de 30 anos, que descobriu que estava com câncer de mama no segundo estágio. Ela lembra que era outubro de 2025 quando decidiu fazer pela primeira vez o autoexame, após participar de uma palestra do Outubro Rosa — campanha de conscientização e prevenção do câncer de mama.
Na época, Isabela tinha 29 anos e não sentia nenhum sintoma. “Eu não tive nenhum tipo de sintoma, dor ou nada. Só vi mesmo o caroço. Apesar de não sentir nada, descobri que já estava em um estágio mais avançado”, explica.
“Primeiramente, foi um choque. No dia em que abri o resultado, para mim foi devastador. Mas, depois que comecei a fazer o tratamento em si, fui levando com certa naturalidade”, esclarece a corretora de seguros. Ainda em tratamento, ela revela que, apesar do diagnóstico assustador, a parte mais complicada é conciliar a vida de mãe atípica com a de paciente oncológica. Ela é mãe de um menino de seis anos com autismo.

Tratamento, reconstrução e investigação genética
Isabela iniciou o tratamento em janeiro deste ano e, desde então, já fez 12 quimioterapias brancas e quatro vermelhas. Em julho, fez uma cirurgia conservadora, na qual retirou um quadrante da mama e alguns linfonodos da axila. O procedimento também incluiu a reconstrução mamária com gordura do próprio corpo, sem o uso de prótese.
Isabela explica que, embora exista histórico familiar da doença, seu caso não foi considerado hereditário.
“Eu tive parentes distantes que tiveram a doença e fiz duas vezes os testes genéticos, mas nenhum deles deu como hereditário. A geneticista me explicou que, quando a gente está no útero, pode ocorrer uma má-formação quando os genes se multiplicam. Mas que fosse hereditário, não foi”, finaliza.
Atualmente, ela realiza sessões diárias de radioterapia e, entre uma sessão e outra, compartilha sua rotina de tratamento, os desafios enfrentados e as experiências durante o processo de recuperação em sua página na rede social, @belagargur. O objetivo é dividir sua vivência com outras mulheres e ampliar a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce da doença.
Estimativas e dados do câncer de mama na Bahia
O caso de Isabela faz parte da estatística do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2023-2025. O órgão estimou para a Bahia 4.230 novos casos de câncer de mama por ano. Desse total, 1.340 seriam contabilizados em Salvador.
Embora os números projetados não correspondam à quantidade real de diagnósticos registrados, eles permitem estimar a dimensão do problema e compreender a importância do autocuidado e da adoção de medidas preventivas para reduzir os riscos e favorecer a identificação precoce do câncer de mama.
Para 2026, o INCA prevê 4.480 novos casos da doença na Bahia, com taxa bruta de 58,54 casos por 100 mil mulheres. Em Salvador, a projeção é de 1.340 novos casos, com taxa de 94,41 por 100 mil mulheres.
Dados consolidados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), divulgados em 2025, mostram que 1.349 mulheres morreram em decorrência da doença no estado em 2024, correspondendo a uma taxa de mortalidade de 17,5 óbitos por 100 mil mulheres.
Do autoexame à dor inesperada: caminhos distintos até o diagnóstico
“Eu sempre tive vontade de fazer a cirurgia de redução de mama, porque tinha uma mama muito grande, considerada gigante. Eu protelei várias vezes. Em fevereiro de 2025, senti uma dor na mama esquerda, uma única dor que me fez ir à emergência.”
Foi em um atendimento de emergência, após fazer uma tomografia do tórax para investigar uma dor precordial, que a enfermeira Ana Carla Andrade, na ocasião com 37 anos, descobriu um nódulo na mama esquerda.
“A tomografia não vê mama, mas o médico disse: ‘tem um nódulo na sua mama, procure um médico’”, lembra Ana Carla, revelando que, em 13 de março, foi a uma consulta com um mastologista.

“O mastologista fez o exame físico e falou que tinha todas as características de câncer. Eu falei: ‘doutor, eu sou enfermeira, sou da área de saúde e quero que o senhor seja claro comigo. Quais são as possibilidades?’. Ele disse que precisava de um exame para confirmar, mas que tinha 90% de certeza de que era um câncer de mama, por causa do tamanho, da irregularidade e da retração da pele”, lembra.
“Meu mundo desabou naquele dia. Eu ainda precisava fazer o exame de punção para confirmar o diagnóstico. Em 16 de abril já estava na primeira quimio. Fiz quatro vermelhas, que derrubam o cabelo, e 12 brancas semanais”, conta ela sobre o início do tratamento.
Durante o processo, Ana Carla perdeu os cabelos e fez mastectomia radical bilateral — a esquerda por necessidade e a direita por prevenção. Após a colocação das próteses, precisou voltar à mesa de cirurgia para mais dois procedimentos extras por conta de uma inflamação e infecção da prótese. Em março deste ano, ela iniciou a hormonioterapia — tratamento que será realizado durante dez anos — e o bloqueio ovariano, por um ano.
Falta de autocuidado, abandono e pesquisa científica
Quando descobriu a doença, Ana Carla diz que mantinha uma rotina intensa, dividida entre o trabalho e as responsabilidades familiares com o marido e com os filhos. Raramente tinha tempo de se cuidar.
“Eu trabalhava 12 horas por dia, estava com 107 kg, era sedentária e, quando tinha tempo livre, ficava em casa com meus filhos. Toda a minha programação era voltada para eles e para o meu marido. Eu não ia ao médico”, conta.
“Eu tinha um relacionamento de 7 anos, ia fazer 8 em novembro. Ele foi a primeira pessoa que virou as costas quando fiquei doente. Entrei na estatística das mulheres que são abandonadas pelo marido quando têm câncer. Hoje, sou mãe solo”, lamenta a enfermeira.
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Sobre o histórico familiar, Ana reflete: “A princípio, pensei que o câncer pudesse ser hereditário, porque uma tia por parte de pai já teve câncer de mama. Mas fiz o teste genético e deu negativo. Não tenho predisposição genética identificada para nenhum tipo de câncer”.
Embora o teste genético não tenha identificado predisposição hereditária para a doença, Ana segue em busca de respostas sobre o seu desenvolvimento.
“Inclusive, estou participando de uma pesquisa da UFBA [Universidade Federal da Bahia]. Fiz uma entrevista e estou esperando o andamento do processo da pesquisa. A médica estudou meus 100 genes e disse que vai me incluir em uma análise mais completa de DNA e RNA para tentar entender o que aconteceu para eu ter desenvolvido esse câncer”, esclarece.
Orientação médica e a importância dos exames preventivos
Receber o diagnóstico de câncer de mama é um momento delicado, marcado por dúvidas, muito medo e insegurança. Para muitas mulheres, enfrentar a doença também significa lidar com mudanças nos planos, na rotina e na forma de enxergar o futuro. Nesse contexto, o acompanhamento médico e o acolhimento durante todas as etapas do tratamento são fundamentais.
A oncologista Lygia Tinoco, do Hospital Fundação Bahiana de Cardiologia e Combate ao Câncer (HFBCCC), ressalta que, apesar do susto inicial, as mulheres não devem se desesperar diante de uma alteração na mamografia, já que esse resultado não significa, necessariamente, um diagnóstico de câncer de mama.
No entanto, a especialista explica que o achado exige uma investigação criteriosa para esclarecer a causa da alteração e definir os passos seguintes, evitando que o resultado seja associado automaticamente à confirmação da doença.
“Se 14,2% dos exames realizados pelo SUS na Bahia em 2024 tiveram resultado de risco elevado, isso não significa que todas essas mulheres tenham recebido diagnóstico de câncer, mas que uma parcela dos exames exigiu uma investigação mais criteriosa”, esclarece.
A oncologista explica que, quando o câncer é confirmado, a investigação considera características como o tipo histológico, o tamanho da lesão, o comprometimento dos linfonodos, os receptores hormonais e o HER2, entre outros marcadores. Ela pontua que esses fatores são fundamentais para determinar a abordagem terapêutica mais adequada a cada paciente. Por isso, duas mulheres com câncer de mama podem receber tratamentos diferentes, de acordo com o estágio e as características da doença.
“Nesses casos, o tratamento pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia ou terapia biológica, conforme o estágio e as características da doença. Por isso, é importante que a mamografia seja feita ao menos uma vez ao ano, como forma preventiva, conforme a faixa etária ou histórico familiar de cada mulher”, destaca a oncologista Lygia Tinoco.

