CONSUMO COMPULSIVO
Do tesão à dependência: quando a pornografia se torna um vício e deixa de ser saudável
Especialistas alertam para riscos do consumo compulsivo e revelam como identificar sinais de vício


“A pornografia quase acabou com meu casamento”. Não é incomum se deparar com uma frase assim em comentários sobre o vício em conteúdo adulto nas redes sociais. Recentemente, o ex-BBB Eliezer fez um desabafo e abordou o assunto, descrevendo a questão como algo que “destrói casamentos” e que “contribui para que adolescentes cometam crimes”.
O consumo compulsivo de pornografia já foi abordado por outros famosos, como os atores Terry Crews e Carmo Dalla Vecchia, rapper L7nonn, e os influenciadores Pyong Lee e Gustavo Tubarão. Apesar de cada um ter experienciado o vício de maneiras diferentes, os relatos culminam no impacto dele em relacionamentos e na saúde emocional.
A sexóloga clínica Mayara Magalhães explicou, em entrevista ao portal A TARDE, que vício em pornografia é como qualquer outro, a exemplo de drogas e jogos de azar, e tem sido cada vez mais frequente em consultórios.
Especialistas afirmam que a pornografia sempre esteve presente na sociedade, seja em forma de pinturas rupestres, esculturas antigas, textos literários eróticos, fotos, vídeos, até chegar na sociedade moderna através das plataformas digitais.
Amplamente acessada na atualidade, a temática despertou no mundo científico o interesse em obter respostas para o tratamento, quando se fala do consumo em excesso, devido aos seus impactos na saúde mental, sexualidade e comportamento dos indivíduos.

Como se caracteriza o vício em pornografia
Mayara esclareceu que o cérebro tem um sistema de recompensa, ou seja, quando a pessoa faz algo que é interpretado como bom, ele libera substâncias, principalmente a dopamina, que funciona como uma mensagem, dizendo: “Isso foi bom. Vale a pena fazer de novo”.
“A pornografia, assim como jogos de azar e as drogas ilícitas provocam liberações muito rápidas e intensas de dopamina. E quanto mais rápido e intenso o prazer da ação, mais viciante ela é”, ressaltou.
Segundo ela, o problema é que cada vez mais a pessoa vai precisar de um nível maior de dopamina para sentir prazer, fazendo ela escalar, ou seja, buscar conteúdos mais intensos para ter o mesmo efeito. “Como hoje o pornô está na palma da mão, o acesso é fácil, rápido e pode ser feito em qualquer hora e lugar, a recusa é mais difícil de acontecer”, disse.
A afirmação da sexóloga pode ser observada em pesquisas. Dados divulgados pelo site Pornhub revelam que o Brasil avançou três posições no ranking mundial de tráfego e passou a ocupar o 4º lugar entre os países que mais acessam esse tipo de conteúdo. À frente aparecem Estados Unidos, México e Filipinas, que compõem o top três global.
Nas buscas que apresentaram crescimento expressivo, chamam atenção termos como “sexo em grupo”, com aumento de 544%, “punheta trans” (488%), “coroa gostosa transando” (442%) e “lésbicas tesoura” (231%).
Já a pesquisa Meninos: Sonhando os Homens do Futuro, realizada no Brasil pelo Instituto Papo de Homem com apoio do Pacto Global da ONU e divulgada em 2025, constatou que um em cinco meninos de 13 a 17 anos no Brasil se declara viciado em pornografia ou games.
O alto consumo de conteúdo adulto na internet já foi constatado em estudos mais antigos. Outra pesquisa realizada em 2018 pelo Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado a pedido do canal a cabo Sexy Hot para traçar um perfil de quem consome pornografia no país, apontou que, no Brasil, havia 22 milhões de pessoas que assumem consumir conteúdo pornográfico – 76% são homens e 24% são mulheres.
Psicóloga ouvida pela reportagem, Lorena Orleans disse que o vício em pornografia manifesta-se através de um ciclo persistente de dependência psicológica e define-se como um transtorno comportamental, onde há um padrão consistente e frequente de consumo, tendo como característica principal a perda de controle sobre o comportamento, resultando em impactos profundos em sua qualidade de vida.

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Sinais de alerta e como identificá-los
Mayara Magalhães disse que costuma usar dois critérios para identificar sinais de alerta. O primeiro é quando começa a atrapalhar de alguma forma a vida da pessoa e ela deixa de fazer coisas importantes da sua rotina — como estudar, trabalhar, sair com os amigos, se relacionar — para se masturbar com o uso da pornografia.
O outro critério é quando o indivíduo busca os vídeos e a masturbação para diminuir a ansiedade, relaxar e quando termina, não se sente melhor, pelo contrário, sente angústia, tristeza, culpa e frustração.
Orleans mencionou que outro alerta é a continuidade do consumo mesmo diante dos prejuízos apresentados, sendo muitas vezes severos e reais.
Impactos na vida sexual
As especialistas listaram ainda os impactos do vício na vida sexual dos homens:
- Disfunções sexuais, como perda de ereção, ejaculação retardada, ejaculação precoce e disfunção erétil;
- Passar a se comparar com os vídeos ou utilizá-los como modelo para a relação sexual, causam insegurança e frustração, já que o sexo da vida real é muito diferente da pornografia;
- Tendência para a dessensibilização do prazer e como consequência a perda de interesse sexual na parceira;
- Elevar o interesse em práticas sexuais agressivas;
- Queda de concentração na rotina e na produtividade no trabalho ou até mesmo nos estudos devido ao esgotamento mental, isolamento social, e alterações no ciclo do sono.

O que fazer nesses casos
Ao identificar esses sinais, é importante que a pessoa busque ajuda, alertou Mayara, que complementou: “Vencer o tabu e a vergonha, e procurar um psicólogo especializado na área sexual”.
O tratamento é comportamental, assim como acontece com outros tipos de vícios. O terapeuta vai ajudar a entender as causas e gatilhos, orientar sobre o mecanismo que mantém o vício e ajudar na mudança do hábito disfuncional. Mayara Magalhães - sexóloga
Já Lorena Orleans destacou a importância das redes de apoio nessas situações. Ela pontuou que, muitas vezes, o usuário não consegue identificar essa prática como um vício, “já que esse tipo de consumo é naturalizado no universo masculino”.
“Por isso, é fundamental que sua rede de apoio estabeleça um diálogo seguro e livre de julgamentos, para que esse homem, ao identificar sintomas comprometedores ou que estejam trazendo prejuízos, busque apoio especializado com foco em adotar ações práticas de controle de estímulos”, disse.
Vício em pornografia tem cura
A psicóloga afirmou que o vício tem cura. Orleans enfatizou que o cérebro humano tem a capacidade de se adaptar e recuperar o equilíbrio do sistema de prazer, por isso, é possível se curar, através de tratamento e controle eficaz, sendo combatido principalmente com apoio psicológico, suporte com técnicas de controle e reeducação de hábitos.
É preciso haver um empenho real por parte desse sujeito, para que juntos, essa combinação traga benefícios em função da retomada da sua funcionalidade dentro da normalidade. Além disso, a participação da sua rede de suporte também se faz necessário dentro desse contexto. Lorena Orleans - psicóloga
Existe consumo saudável de pornografia?
A resposta é sim. As profissionais esclareceram que o consumo pode ser considerado saudável, desde que não afete a vida de quem assiste e seja feita de forma pontual, para excitar.
“Quando essa prática é realizada com moderação, pode trazer benefícios, permitindo o conhecimento do próprio corpo e do prazer individual, além da exploração de desejos, como uma forma de conhecer novos cenários que tragam prazer em um ambiente seguro”, salientou.
Debate chegou ao Congresso Nacional
Em 2023, o assunto virou pauta de uma audiência pública da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado. O debate foi solicitado pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE). Para ele, é necessário debater as consequências que esse conteúdo traz a seus consumidores.
Citando pesquisas científicas, o senador sugeriu que o vício pode ter efeitos prejudiciais, “incluindo mudanças no cérebro, aumento da ansiedade e depressão, diminuição da satisfação sexual e da intimidade nos relacionamentos, e até mesmo o aumento da propensão para comportamentos sexuais de risco”.


