INOVAÇÃO GLOBAL
Caminhões sem motorista e IA: a nova arma da ONU para salvar vidas em guerras
Organizações humanitárias testam veículos anfíbios controlados à distância em áreas de risco


Caminhões anfíbios sem motorista guiados por controle remoto, análise de dados de satélite em tempo real e monitoramento de celulares para mapear a fuga de populações em massa. Longe dos debates teóricos, as maiores organizações humanitárias do planeta correm contra o tempo para colocar o potencial da Inteligência Artificial (IA) em prática nos cenários de guerra e desastres mais complexos do mundo.
O uso da tecnologia no setor, no entanto, caminha em um fio da navalha. Ao mesmo tempo em que a IA avança, os alertas sobre seus riscos se multiplicam. As ONGs e agências internacionais enfrentam o desafio constante de proteger dados com frequência extremamente sensíveis e combater ondas de desinformação que ameaçam tanto as suas atividades quanto a segurança das populações assistidas.
Apesar dos temores, o clima na cúpula "AI for Good" ("IA para o Bem"), realizada em Genebra, foi de otimismo. Nos pavilhões do centro de convenções Palexpo, os espaços dedicados à ação humanitária provaram que a inteligência artificial já começou a transformar profundamente o setor.
O 'robô marciano' da ONU que desafia zonas de guerra
O grande destaque do evento foi um imponente veículo branco de 2,80 metros de altura. Equipado com câmeras de alta resolução, sensores de última geração e uma plataforma de pouso para drones instalada no teto, o utilitário lembra um veículo de exploração espacial.
Trata-se da nova aposta do Programa Mundial de Alimentos (PMA). A agência da ONU prepara testes de campo com uma versão desse caminhão assistido por inteligência artificial, projetado para ser controlado totalmente à distância em terrenos perigosos e inacessíveis para comboios comuns.
Essa tecnologia “deverá permitir que cheguemos a pessoas que, de outra forma, jamais conseguiríamos alcançar”, afirmou Bernhard Kowatsch, diretor do Acelerador Global para Inovação e Empreendedorismo do PMA.
A agência já utiliza os chamados veículos SHERP — anfíbios todo-terreno de fabricação ucraniana capazes de operar em ambientes extremos — para entregar mantimentos em países como Sudão, Sudão do Sul e Uganda.
Projeto AHEAD: substituindo motoristas por segurança
A decisão de remover os condutores da cabine veio após uma série de perdas trágicas de motoristas em emboscadas e áreas de conflito. Para proteger suas equipes, o PMA acionou o Centro Aeroespacial Alemão (DLR) com uma missão clara: equipar os caminhões com IA para que pudessem avançar remotamente por rotas de alto risco.
Batizado de AHEAD (Dispositivos Autônomos para Ajuda Humanitária de Emergência), o projeto já passou por testes na Alemanha e os ensaios em condições reais de operação estão agendados para ocorrer em Uganda.
Segundo Armin Wedler, coordenador do projeto pelo DLR, a inteligência artificial foi combinada com tecnologias baseadas em matemática e pesquisa clássica para garantir a movimentação do veículo. Embora fosse possível torná-lo 100% independente, os engenheiros decidiram manter um operador humano no comando remoto devido à imprevisibilidade das crises humanitárias.
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"Não estamos falando de circular por estradas bem traçadas, com trilhas claramente delimitadas. Não há estradas", explicou Wedler, lembrando que os caminhões frequentemente enfrentam situações extremas, como serem cercados por multidões desesperadas e famintas.
“Nenhum algoritmo autônomo de inteligência artificial jamais será capaz de administrar essa situação com total segurança”, alertou Armin Wedler.
IA rastreia fuga de refugiados e prevê impactos de desastres
A revolução tecnológica da ONU também chegou aos tribunais e aos satélites. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) apresentou um assistente jurídico virtual movido a IA criado especificamente para advogados que defendem refugiados em diferentes sistemas jurídicos pelo mundo.
Agilizar a preparação desses processos complexos pode “salvar a vida de muitos refugiados”, destacou Rebeca Moreno Jiménez, especialista-chefe em dados do Serviço de Inovação do Acnur.

Em paralelo, a iniciativa DISHA (Análise de Dados para Ação Social e Humanitária) firmou parcerias estratégicas com gigantes de tecnologia como o Google e a consultoria McKinsey para abastecer ONGs com modelos preditivos de inteligência artificial.
A plataforma utiliza duas frentes principais de monitoramento de alta velocidade:
- Sinais de celular: Processamento de dados anônimos de telefonia móvel para detectar em tempo real o deslocamento em massa de populações fugindo de desastres;
- Imagens de satélite: Análise instantânea de fotos de satélite captadas antes e depois de catástrofes — tecnologia recentemente aplicada para avaliar os estragos de terremotos na Venezuela.
“O objetivo é fornecer aos responsáveis pela tomada de decisões informações confiáveis com antecedência suficiente para que possam tomar decisões melhores”, concluiu Andreas Kortis, gerente de produto da DISHA.


