IMPACTO NA SAÚDE
Incêndio em lixão de Senhor do Bonfim encobre cidade com fumaça
Cidade no centro-norte da Bahia enfrenta fuligem, riscos à saúde e críticas a intervenções de R$ 2 milhões no depósito de lixo


O lixão do município de Senhor do Bonfim, localizado no centro-norte da Bahia, foi atingido por um incêndio de grandes proporções que cobriu a cidade com uma densa camada de fumaça a partir de domingo, 18. Conforme relatos de moradores ao portal A TARDE, a cidade enfrentou um cenário crítico devido à forte fuligem vinda do local.
Veículos de imprensa locais apontaram que a fumaça voltou a ameaçar a saúde da população e alertaram que esta não foi a primeira ocorrência de incêndio na área nos últimos meses.
“Mais uma vez, o lixão de Senhor do Bonfim voltou a pegar fogo, colocando em risco a saúde da população e causando preocupação aos moradores. É sempre a mesma história: soluções paliativas, muita maquiagem e nenhuma solução definitiva. A população não pode continuar sofrendo com a fumaça, a poluição e os riscos à saúde. O povo merece respeito, qualidade de vida e providências concretas”, cobrou o jornalista Cleber José Vieira, que atua na região.
As imagens do lixão e seus impactos
Moradores e portais da região registraram em vídeo a rápida evolução das chamas pelo lixão. Nas imagens, é possível observar uma densa nuvem de fumaça se deslocando em direção à zona urbana do município. Confira:
Em Senhor do Bonfim, o lixão foi instalado há mais de 50 anos, a apenas 4 quilômetros do centro da cidade, e recebe diariamente cerca de 1,5 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos.
Além dos impactos ambientais e de saúde, a presença do lixão chegou a comprometer a operação regular de equipamentos de transporte. O Aeródromo de Senhor do Bonfim foi entregue oficialmente pelo Governo da Bahia em junho de 2026, mas teve suas atividades comerciais regulares limitadas devido aos riscos operacionais causados pela proximidade do depósito de lixo.
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Perigo operacional e prejuízo à infraestrutura
O processo que deveria ter marcado o início da remediação ambiental da área degradada em Senhor do Bonfim transformou-se em um imbróglio marcado por crise social e questionamentos técnicos.
O método adotado pela gestão do prefeito Laércio Júnior (União Brasil) para o encerramento do lixão — focado na abertura de trincheiras para o soterramento de resíduos — foi alvo de críticas de especialistas e gerou denúncias por parte dos trabalhadores que dependiam da reciclagem para sobreviver.
Durante décadas, dezenas de famílias encontraram no local sua única fonte de renda. Contudo, com as alterações operacionais e a abertura das valas, o acesso ao material reciclável acabou restrito.
Sem a estruturação de cooperativas formalizadas ou programas de transição social, os catadores relataram um isolamento abrupto.
"Fomos simplesmente afastados. Não houve diálogo nem alternativa para quem tirava o sustento dali", afirmou um dos trabalhadores. A prática contrariou diretrizes da Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos), que estabelece a inclusão socioeconômica dos catadores como pilar obrigatório na erradicação de lixões.
Recursos sob lupa
Outro ponto de tensão envolveu a aplicação das verbas voltadas ao setor. Recursos liberados pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Infraestrutura da Bahia (Seinfra), no valor de R$ 2.083.282,74 (dois milhões, oitenta e três mil, duzentos e oitenta e dois reais e setenta e quatro centavos), tinham como finalidade específica a execução de obras de remediação da área degradada.
No entanto, a condução das intervenções levantou questionamentos entre órgãos e moradores, diante do receio de que o montante estivesse sendo utilizado para prolongar a vida útil do lixão sob uma nova roupagem, em vez de garantir a recuperação efetiva do ecossistema.
O método gerou forte reação de dezenas de famílias de catadores de recicláveis, que perderam o sustento de forma abrupta:
- Afastamento sem alternativa: Os trabalhadores denunciam ausência de diálogo e descumprimento da Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos), que exige a inclusão socioeconômica da categoria.
- Recursos sob suspeita: O Governo do Estado, via Seinfra, liberou R$ 2.083.282,74 para a remediação da área degradada. No entanto, moradores e entidades suspeitam que a verba esteja sendo usada para prolongar a vida útil do lixão mascarando o problema.
Apesar de acordos celebrados em 2022 entre o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) e o Consórcio do Piemonte Norte do Itapicuru (CDS TIPNI) para a erradicação gradual dos vazadouros, a população de Senhor do Bonfim segue convivendo com os transtornos de uma ferida ambiental aberta.
Acordo federal
As tentativas de adequação vinham de anos anteriores. Em 2022, o antigo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) assinou acordos de cooperação técnica com a Prefeitura de Senhor do Bonfim e com o Consórcio de Desenvolvimento Sustentável do Piemonte Norte do Itapicuru (CDS TIPNI) — entidade que abrange outros nove municípios. Por meio do compromisso, os entes pactuaram o encerramento gradual dos lixões na região.


