DICA DA NUTRI
O que acontece no corpo se eu tomar café todos os dias?
A bebida pode ir de aliada da disposição até possível inimigo do sono; entenda tudo


Poucas bebidas fazem parte da rotina do brasileiro como o café. Para muita gente, o dia só começa depois da primeira xícara. Mas o que acontece dentro do organismo quando o café deixa de ser um hábito ocasional e passa a fazer parte da rotina todos os dias?
A resposta não é tão simples se “faz bem” ou “faz mal”. O café contém cafeína e centenas de compostos bioativos, e seus efeitos podem variar bastante de uma pessoa para outra.
De aliado da disposição a possível inimigo do sono: o efeito do café no organismo depende da quantidade, do horário e, principalmente, da sensibilidade de cada pessoa à cafeína.
O cérebro fica mais alerta
Um dos efeitos mais conhecidos da cafeína acontece no cérebro, pois ela possui uma substância capaz de reduzir à sensação de cansaço e sonolência. Por isso, depois de tomar café, muitas pessoas percebem maior estado de alerta, atenção e disposição e utilizam antes do treino.
Mas existe um detalhe importante: mais café não significa necessariamente mais disposição. Quando a quantidade aumenta demais, podem aparecer efeitos indesejados, como agitação, ansiedade, palpitações e dificuldade para relaxar.
Café e a sua relação com o sono
Esse talvez seja um dos efeitos mais subestimados do consumo diário de café. Eu atendo diariamente pessoas que costumam tomá-lo à noite, minutos antes de dormir, sem saber que a cafeína permanece no organismo por várias horas e pode interferir no sono, mesmo quando a pessoa não percebe que está “acordada por causa do café”.
O problema fica ainda mais evidente quando o consumo acontece no período da tarde ou da noite. Eu costumo orientar o não consumo de café após as 16h por exemplo.
E existe uma armadilha: a pessoa dorme mal, acorda cansada e toma café para conseguir funcionar no dia seguinte. No final, cria-se um ciclo: cansaço, mais café, falsa disposição momentânea, sono prejudicado, mais cansaço, mais café.
Por isso, não basta perguntar em consulta “Quanto café você toma?”. É fundamental perguntar: “Em que horário você toma e como está dormindo?”.
Consumo de café e o funcionamento do intestino
O café pode estimular a atividade gastrointestinal. Para algumas pessoas, aquela xícara pela manhã é praticamente um “gatilho” para ir ao banheiro. Por outro lado, dependendo da sensibilidade individual e da quantidade consumida, alguns podem apresentar desconforto gastrointestinal, azia ou piora de sintomas digestivos. Ou seja: a mesma bebida que funciona muito bem para uma pessoa pode não ser tão confortável para outra. Por isso a importância da individualização, até mesmo quando se trata do café.

Nutri, e o coração?
Alguns pacientes chegam na consulta com o nutricionista por recomendação do cardiologista após o diagnóstico de pressão alta, porque a cafeína pode provocar um aumento temporário da frequência cardíaca e da pressão arterial. No entanto, isso acontece especialmente quando há maior sensibilidade ou consumo elevado.
Calma, isso não significa que todo consumidor habitual de café esteja colocando o coração em risco.
O contexto individual importa:
- histórico de saúde,
- uso de medicamentos,
- quantidade consumida,
- sono,
- ansiedade e
- outros hábitos devem ser considerados.
Por isso, uma análise nutricional não deve olhar apenas para a xícara de café, mas para o comportamento alimentar como um todo.
Café todos os dias pode fazer parte de uma alimentação saudável?
Para muitas pessoas adultas, o café diariamente pode sim fazer parte de hábitos alimentares saudáveis. Estudos observacionais associam o consumo habitual de café a diversos possíveis benefícios à saúde, mas é importante não transformar associação em promessa de tratamento. O café não deve ser apresentado como medicamento nem como solução para emagrecimento, diabetes ou qualquer outra doença.
Vale lembrar que a forma como o café é consumido faz toda diferença. Um café filtrado sem grandes quantidades de açúcar é muito diferente de uma bebida cheia de açúcar, cremes e xaropes.
Consumo de café e a menopausa
Para mulheres na menopausa, uma quantidade elevada de cafeína não é aconselhável. Durante essa fase, alterações hormonais podem estar associadas a sintomas como ondas de calor, alterações do sono, mudanças de humor e maior dificuldade para manter uma boa noite de descanso.
Foi justamente essa situação que encontrei no atendimento de uma paciente na menopausa que tinha o hábito de tomar muito café durante o dia e relatava dificuldade para dormir. No caso dessa paciente, o objetivo não foi simplesmente “proibir o café”.
Como nutricionista, comecei a entender a rotina: quanto ela consumia, os horários das xícaras, como estava o sono, quais sintomas apareciam no período noturno e quais outros fatores poderiam estar contribuindo para a dificuldade de dormir.
Leia Também:
A estratégia foi individualizada, com reorganização do consumo de café e atenção especial ao horário em que a cafeína era ingerida, além dos demais hábitos alimentares e da rotina de sono. Com a readequação, a paciente logo percebeu melhora na relação entre o consumo de café e o sono.
Esse caso mostra uma coisa importante: muitas vezes, não é necessário retirar completamente um alimento da rotina.
Afinal, o café faz bem ou não para saúde?
Talvez a pergunta mais importante seja: “O café está fazendo bem para você?”. Se uma xícara melhora a disposição, não interfere no sono e faz parte de uma alimentação equilibrada, a história é uma. Se a pessoa precisa de várias xícaras para conseguir enfrentar o dia, sente ansiedade, tem palpitações ou dorme mal, é outra história.
Na nutrição, nenhum alimento deve ser analisado isoladamente. Quantidade, horário, frequência, contexto e individualidade fazem toda a diferença. E talvez seja justamente essa a maior lição por trás da xícara nossa de cada dia: não é porque algo é natural, tradicional ou até premiado que “quanto mais, melhor”
Então, se você faz parte do grupo que consome café todos os dias, saiba que tudo isso pode acontecer no seu organismo, mas não é regra. É necessário analisar como o seu corpo reage a essa bebida tão amada pelos brasileiros.
O café pode ser um prazer, um ritual e parte de uma alimentação saudável. Mas, quando começa a roubar o sono, aumentar o desconforto ou mascarar um cansaço que precisa ser investigado, talvez seja hora de olhar não apenas para a xícara, mas para o que o seu corpo está tentando dizer.


