A TARDE MEMÓRIA
Universidade Católica do Salvador foi criada há 65 anos
A fundação da instituição começou a ser pensada ainda nos anos 1950 e ocorreu em 1961


Mais do que números e conquistas acadêmicas, o legado da Universidade Católica do Salvador (Ucsal) é humano. Celebrando 65 anos de fundação agora em outubro, a Ucsal acompanhou intensas transformações políticas, sociais e tecnológicas na Bahia e no mundo e, ao longo do tempo, ampliou a oferta de cursos e modalidades de ensino, formando profissionais que atuam em diferentes áreas. A trajetória da instituição reafirma o papel da Católica como referência acadêmica e cultural para gerações de baianos.
Na década de 1950, quando a Universidade Federal da Bahia (Ufba) era a única universidade do Estado, a Arquidiocese de Salvador deu início às primeiras articulações para a criação da Ucsal. O líder da empreitada, inclusive, tem seu nome batizando uma das avenidas de Salvador. Era o cardeal Dom Augusto Álvaro da Silva (o Cardeal da Silva), então arcebispo da capital e primaz do Brasil. A proposta era fundar uma universidade católica com um modelo educacional inovador e capaz de ampliar as oportunidades da formação superior e oferecer aos baianos um sistema educacional superior pautado nas premissas do cristianismo.
Para aprofundar a proposta, Dom Augusto delegou ao Monsenhor Eugênio Veiga a missão de viajar para a Europa, onde ele observaria o funcionamento das universidades católicas de lá, trazendo referências para a criação da Ucsal. "Visitei 22 universidades, 4 seminários e percorri mais de 10.000 milhas; é impossível aprofundar qualquer pesquisa em particular na rapidez de uma viagem. Há, porém, uma base comum para o imenso progresso: organização cuidadosa", diz trecho de uma das cartas enviadas pelo Monsenhor Eugênio Veiga para Dom Augusto, em dezembro de 1960.
“O Monsenhor Eugênio Veiga viaja, bebe da experiência dessas instituições já consolidadas e retorna a Salvador com o compromisso de ser o primeiro reitor da Universidade Católica do Salvador. Sua missão era oferecer ao povo baiano uma educação distinta e diversa, firmada na centralidade da pessoa humana e no compromisso com a promoção do bem-estar social”, explica o advogado, professor e mestre em Direito, Deivid Lorenzo, atual reitor da Ucsal.
"Às 15 horas, perante o Cardeal D. Augusto e diversas autoridades, o ministro Oliveira Brito declarou, ontem, instalada a Universidade Católica da Bahia, fazendo entrega ao Cardeal do decreto que a constituiu. Ao ato esteve presente o Mons. Veiga, o primeiro reitor", informa A TARDE, na edição de 23 de outubro de 1961. A instalação da instituição fez parte da celebração pelos 50 anos de episcopado do cardeal Dom Augusto Álvaro da Silva.
Dias antes, o Decreto do Conselho de Ministros nº 58, de 18 de outubro de 1961, assinado por Tancredo Neves, concedeu à Ucsal as regalias de Universidade Livre e Equiparada, e aprovou o estatuto, que organizou a estrutura acadêmica e administrativa. A universidade nasceu a partir da incorporação de unidades independentes de cunho católico como a Escola de Serviço Social (1944), a Faculdade Católica de Direito (1956) e a Faculdade Católica de Filosofia da Bahia (1952). A Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (1953) e a Faculdade de Ciências Econômicas (1960) também foram incorporadas em um primeiro momento, mas depois se desvincularam.

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Os primeiros cursos
Logo no início, a Ucsal já oferecia os cursos de Serviço Social, Direito e as graduações que já existiam na Faculdade Católica de Filosofia da Bahia: Filosofia, Letras (Português e Inglês), Pedagogia, Matemática, Física, Química, História Natural, Geografia e História. Em 1968, o curso de Enfermagem foi implantado, Letras ganhou seu próprio instituto e Pedagogia passou para a Faculdade de Educação. No ano seguinte, vieram a Licenciatura em Música, Educação Artística, Filosofia Propedêutico à Teologia e Teologia.
A expansão de cursos, que continuou de forma intensa na década de 1970, marcou o fortalecimento da identidade acadêmica da Ucsal que, além da diversidade de áreas oferecidas, também se distingue pelo modelo católico de ensino, como a presença de um Grão-Chanceler. Máxima autoridade institucional de uma universidade católica, ele atua como elo oficial entre a instituição e a hierarquia eclesiástica, garantindo identidade e vínculo com a Igreja. Embora seja uma autoridade suprema nesse aspecto, não interfere na gestão acadêmica e administrativa, que cabe ao reitor.
O cargo é tradicionalmente ocupado pelo arcebispo ou bispo diocesano da região. Na Ucsal, o Grão-Chanceler sempre foi o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, função atualmente exercida pelo cardeal Dom Sérgio da Rocha. Outra característica da educação católica é que, por sua própria natureza, ela entende que a formação é mais do que técnica. "Entendemos que educar é, sobretudo, formar cidadãos ética e socialmente comprometidos, perpassando, claro, por habilidades que, no âmbito da educação universitária, se traduzem em habilidades profissionais", ressalta o reitor Deivid Lorenzo.
No cerne da educação católica, destaca ele, está a valorização da alteridade, da diversidade e do reconhecimento do outro. Esses princípios legitimam o projeto educacional católico e se somam à busca por sensibilidade. "Alinhada ao que o Papa Francisco denominou de ‘cultura do encontro’ [...]. A fundação da Universidade Católica do Salvador trouxe essa natureza de educação comunitária e uma formação especialmente voltada para a cidadania e uma formação comprometida com o humanismo", explica o reitor.
Na década de 1970, a UCSAL realizou seu primeiro vestibular unificado e aprovou o Regulamento de Concessão de Bolsas de Estudo. Em 1980, o Ministério da Educação (MEC) assumiu a gestão da universidade e o Monsenhor Eugênio Veiga deixou a reitoria, com José Simões e Silva Júnior assumindo interinamente.
Campus Pituaçu
A gestão do MEC durou até 1985 e foi nesse período que um terreno em Pituaçu foi doado para a universidade. Nascida pela união de diferentes faculdades e escolas de ensino superior, os cursos da Ucsal estavam espalhados pela cidade, embora com o passar dos anos muitos se concentrassem nos campi da Lapa e da Federação.
"Uma vasta área no Parque de Pituaçu, próxima às avenidas Luiz Viana Filho e Pinto de Aguiar, vai ser doada pelo governo do estado à Universidade Católica do Salvador, para a construção do seu campus que abrigará todas as faculdades", diz A TARDE, em edição de 5 de agosto de 1982. O Cardeal Dom Avelar, o então Grão-Chanceler da Ucsal, contou na época que havia conversado com o governador da Bahia sobre o crescimento da universidade e a necessidade de um local que abrigasse todas as unidades.
"O reitor José Simões mostrou as necessidades de ampliação e relocalização da universidade, especialmente da sua Escola de Educação Física, a única existente no estado. Lembrou que alguns prédios e terrenos, de propriedade da Universidade Católica, em outros locais da cidade, poderiam ser negociados, a fim de que os recursos apurados sejam investidos na construção de novas instalações. 'O terreno que o governo está nos oferecendo, agora, é muito melhor do que nós estávamos pensando', admitiu o reitor", continua a reportagem de A TARDE de 1982.
A mudança para o campus Pituaçu aconteceu de modo gradual a partir de 1993. A década de 1990, inclusive, ficou marcada na história da Ucsal por essa conquista: "Após longa espera, a Universidade Católica do Salvador deverá iniciar, no final do ano, a instalação gradativa de seu campus universitário no Parque Metropolitano de Pituaçu. O marco inicial do projeto foi o lançamento da pedra fundamental do Instituto de Biociências, dia 14, com o término das obras previsto para 1993", explica A TARDE, em 18 de março de 1990.
Três anos após a inauguração do primeiro prédio, em 1996, o Campus Pituaçu já se preparava para a segunda expansão. "A Universidade Católica do Salvador anunciou, ontem, que pretende começar em janeiro a segunda etapa de ampliação do Campus Pituaçu. As obras serão realizadas em um ano, para que o novo prédio, com 11 mil metros quadrados, entre em funcionamento em 1998. A partir de então, Pituaçu vai passar a ser o principal centro de cursos da Ucsal, ultrapassando os campi da Federação e Lapa. Atualmente Pituaçu aloja dois mil alunos em cinco cursos: Engenharia, Enfermagem, Fisioterapia, Ciências Contabéis, Biologia e Educação Física", explica a A TARDE, em 7 de novembro de 1996.

Engajamento social
Ainda na década de 1980, o então aluno do curso de Direito, João Jorge Santos Rodrigues, atual presidente da Fundação Cultural Palmares e ex-presidente do Olodum, fundou o Grupo Negro da Ucsal. Em 2024, ele voltou à instituição para receber o título de Doutor Honoris Causa. "Este é um momento que une emoção, conhecimento e a certeza de que um trabalho extraordinário foi realizado. A Ucsal é berço de muitos estudantes que escolheram trilhar o caminho da justiça e da igualdade”, afirmou João Jorge em matéria de A TARDE, de 27 de agosto de 2024.
Em 1985, o corpo discente do curso de Direito começou a atender de forma gratuita pessoas que precisavam de auxílio jurídico, mas que não tinham condições financeiras de contratar o serviço. "Já está em pleno funcionamento o 'Escritório Modelo' da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Salvador, com objetivo de prestar assistência jurídica a pessoas carentes da comunidade, além de servir de laboratório para os futuros bacharéis em direito, formados pela instituição", explica a edição de A TARDE de 2 de abril de 1985.
Já na década de 1990, as atividades de extensão e ação comunitária, como as do Escritório Modelo, ganharam novo fôlego, enquanto a modernização administrativa avançava com melhorias em infraestrutura, bibliotecas, laboratórios e informática. O Plano Diretor de Informática, implantado em 1989, preparou a universidade para iniciar a informatização de seus setores.

O reitor atual reafirma que a universidade integra em sua essência a oferta de serviços educacionais com a experiência de professores e alunos junto à população. "Todos os cursos passam por atendimento comunitário e os números são expressivos: em 2025, foram mais de 4 mil atendimentos pela clínica de fisioterapia, mais de 3 mil pelo serviço-escola de psicologia e mais de 600 acompanhamentos jurídicos pelo núcleo de prática jurídica. Esses resultados me emocionam como reitor e reforçam que minha decisão de me consagrar educador não foi insensata. Ela rende frutos porque existe um projeto maior, que honra nosso passado, qualifica nosso presente e nos projeta para o futuro", enfatiza Deivid Lorenzo.
Iniciação científica
Na virada do milênio, a Ucsal implantou o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), núcleos temáticos e programas de apoio à pesquisa, um passo para a verticalização do ensino rumo à pós-graduação stricto sensu. Ainda no ano 2000, aderiu ao Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies) e, em 2001, foi aprovada para instalar o Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu e o registro dos grupos de pesquisa no CNPq. Em 2002, inaugurou o Laboratório Eugênio Veiga (LEV), dedicado à conservação, restauração e tratamento arquivístico. No ano seguinte, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passou a ser utilizado como forma de acesso à universidade.
A adesão ao Programa Universidade para Todos (ProUni) veio em 2005, assim como o credenciamento pelo MEC para a oferta de cursos de EaD. Em 2011, a Ucsal comemorou aniversário com sessão especial na Câmara Municipal e já somava mais de 60 mil profissionais formados. Em 2015, a universidade foi contemplada pela ONU como zona da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica por causa do terreno que ocupa em Pituaçu. Nesse mesmo ano, o campus da Lapa foi desativado. Em 2017, a reitoria foi transferida para Pituaçu e o campus passou a integrar a rede de Postos Avançados da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, da Unesco. Em 2023, a Ucsal recebeu 5 (nota máxima) no Conceito Institucional do MEC e o campus na Federação foi oficialmente desativado.

"Costumo dizer que tradição não é o oposto da inovação. Pelo contrário: uma instituição só se torna verdadeiramente tradicional porque consegue ser inovadora, respondendo às perguntas do presente e olhando para o futuro. Na nossa belíssima comunidade do conhecimento, como costumo chamar, buscamos sempre ter os pés fincados no presente. Ao longo desses 65 anos, a universidade vem se reinventando e ressignificando seu papel social, expandindo cursos, atividades e ações comunitárias, dialogando com as tecnologias do nosso tempo e atendendo, sobretudo, às pessoas mais vulneráveis", salienta o reitor Deivid Lorenzo.
Em 2024, o Centro de Excelência Profissional (Cepro) e o Ucsal Centro de Inovação (UCI) foram criados, o que aproximou mais a formação curricular da universidade das demandas reais do mundo do trabalho.
"Há 65 anos, a Universidade Católica do Salvador nasceu como um sonho coletivo e, desde então, tem se reinventado em cada geração. É simbólico que, neste aniversário, tenhamos exatamente 65 cursos de graduação e, no âmbito da especialização da pós-graduação Lato Sensu, outros 165 cursos. E queremos expandir ainda mais, oferecer uma educação qualificada, conectada às questões do presente, inovadora, mas sem perder de vista nosso projeto humanístico", ressalta o reitor Deivid Lorenzo.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE


