ESTILO ROJA?
Bahia de Rogério Ceni busca o tom certo para ir à Libertadores
Sequência invicta de 10 jogos esconde gargalos táticos e expõe urgência por equilíbrio na reta final


A vitória contra o Red Bull Bragantino fora de casa, em um confronto direto por vaga na Libertadores, soprou uma brisa de esperança no peito do torcedor do Bahia.
A tese da fase ruim superada ganhou musculatura: quinto lugar, 43 pontos, dez jogos de invencibilidade e zero derrotas no segundo turno. Lendo a tabela friamente, a sensação é de que Rogério Ceni reorganizou a casa.
Mesmo sem Everton Ribeiro e mandando os outrora intocáveis Jean Lucas e Caio Alexandre para o banco de reservas, o Tricolor parece ter encontrado uma versão mais rápida, vertical e reativa. Um time que passou a aceitar o jogo corrido e a gostar do 'chumbo trocado'.
Filtro da razão e o conselho do Mestre Oogway
Nos momentos de euforia, contudo, a análise precisa ser cirúrgica. A mente agitada enxerga evolução tática onde muitas vezes existe apenas sobrevida pelo resultado.
Como diria o Mestre Oogway, a sábia tartaruga da animação Kung Fu Panda: "A mente é como a água: quando está agitada, nada se vê; mas se você permitir que se acalme, a resposta se torna clara". E a clareza dos fatos mostra que o pragmatismo de Ceni ainda flerta perigosamente com o caos.
Após encarar o Atlético-MG, o próprio treinador comparou a busca de estilo do Bahia ao modelo da seleção espanhola campeã do Mundo: um futebol de controle, sustentado pelo passe limpo e pela capacidade de errar pouco.
Com a entrada de Acevedo e a ascensão de peças de maior fôlego, como Erick e Nestor, Rogério Ceni tenta compensar a perda da cadência refinada com intensidade física. No entanto, guardadas as devidas proporções de prateleira técnica, a metáfora com a Roja esbarra em gargalos estruturais do próprio elenco tricolor.
A ilusão do modelo espanhol na prática tricolor
Na Espanha, entre as muitas valências, a engrenagem funciona, também, porque Dani Olmo encarna a figura do meia-atacante moderno — o articulador que agride a linha defensiva, pisa na área com frequência de centroavante e define jogos, com passe, gols e inteligência tática. O Bahia não tem esse perfil. Nem mesmo Everton Ribeiro, com toda a sua virtuosidade técnica, entrega essa presença física de área.
Além disso, o modelo espanhol devasta os adversários pelas pontas com a genialidade de Lamine Yamal e a explosão de Nico Williams. No Esquadrão, por mais que Erick Pulga tenha sido decisivo contra o Internacional, o rendimento ofensivo pelos lados ao longo do campeonato ainda oscila bem abaixo do teto exigido para um postulante ao G4.
A grande diferença está na gestão do ritmo. A Espanha domina a posse sem ser burocrática porque acelera nos momentos certos sem perder a estampa defensiva.
O Bahia de Ceni, por outro lado, parece condenado a um 'tiroteio' permanente. A troca de golpes aberta funcionou no clássico Ba-Vi, deu resultado diante do Inter e voltou a prevalecer contra o Bragantino — partida em que o Massa Bruta empilhou chances claras desperdiçadas até que a eficiência e um pouco de sorte sorrissem para o Esquadrão.
Risco físico e a perda do controle no 'estilo City'
O detalhe mais alarmante dessa mudança tática é a perda de identidade quando o cenário exige desaceleração.
Mesmo quando Jean Lucas e Caio Alexandre entram no decorrer das partidas — atletas contratados justamente para a retenção de bola no "estilo City" —, o Bahia já não consegue diminuir a rotação.
O time continua aceitando a correria do adversário, acumula erros de passe em zona de construção e oferece transições fáceis aos rivais, levando o sistema defensivo e a parte física dos atletas ao limite.
Ponto de equilíbrio para alcançar a América
A chegada de Alejo Véliz deu o peso e a imposição que faltavam ao ataque, entregando um pivô capaz de prender zagueiros e brigar no alto. Mas ter uma referência pesada na frente de nada adiantará se o meio-campo continuar entregando partidas anárquicas.
Faltam apenas 12 jogos para o fim do Brasileirão, e cada ponto disputado até a 38ª rodada fará uma diferença brutal na luta por essa vaga na Libertadores. A margem para erro simplesmente deixou de existir.
Para transformar essa sequência invicta em uma classificação direta e consolidada, o Bahia precisará achar o ponto de equilíbrio de forma urgente. O futebol de elite exige a capacidade de agredir com velocidade sem se tornar suicida, alternando a aceleração de Pulga e o faro de Véliz com momentos de puro controle de jogo e cadência.
Ter a Espanha como bússola é um ótimo começo; o teste definitivo de Ceni será provar que seu time pode ter a lucidez dos grandes campeões sem precisar sobreviver semanalmente à sorte nas trincheiras.