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GRINGOS NO BRASILEIRÃO

O futebol brasileiro precisa de menos estrangeiros ou de mais concorrência?

Discussão sobre a redução da cota de estrangeiros na Série A escancara um dilema maior: que tipo de futebol o Brasil quer construir?

Rafael Tiago
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Imagem ilustrativa da imagem O futebol brasileiro precisa de menos estrangeiros ou de mais concorrência?
Foto: Rafael Rodrigues/EC Bahia

A proposta da CBF de reduzir progressivamente o número de estrangeiros em súmula saiu dos bastidores e virou decisão formal. No dia 21 de setembro, representantes dos 40 clubes das Séries A e B e das federações estaduais participaram da reunião em que a medida foi colocada em votação. Clubes e federações aprovaram a redução com apenas dois votos contrários. O limite, atualmente de nove estrangeiros relacionados por partida, cairá para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco a partir de 2030.

O Flamengo esteve entre os clubes que votaram contra a mudança. A justificativa apresentada pela CBF é aumentar o espaço dos jogadores sub-23 brasileiros e, com isso, melhorar a qualidade técnica do futebol nacional no médio e longo prazo.

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A justificativa é conhecida: proteger e dar mais espaço ao jogador brasileiro. Mas, no fundo, a pergunta que deveria estar no centro da discussão é outra: proteger o jogador nacional da concorrência é a melhor maneira de fazê-lo evoluir?

Desde que o futebol brasileiro se profissionalizou, o estrangeiro esteve presente. Em diferentes momentos, jogadores de outros países ajudaram a transformar o nosso futebol. Hoje, porém, a realidade é ainda mais internacional. Clubes brasileiros passaram a buscar atletas em diferentes mercados, montar redes de observação e ampliar seus departamentos de scouting.

O Bahia é um dos exemplos mais evidentes dessa transformação. Integrado ao projeto do Grupo City, o clube trabalha dentro de uma rede internacional de futebol, na qual jogadores podem chegar de diferentes países e experiências. Não se trata apenas de contratar estrangeiros. Trata-se de uma mudança na maneira de identificar, desenvolver e negociar talentos.

É justamente aí que uma eventual redução da presença estrangeira pode produzir efeitos que vão além da escalação do jogo.

O jogador brasileiro precisa de proteção ou de concorrência?

Limitar a quantidade de estrangeiros pode, evidentemente, abrir mais espaço para atletas brasileiros. Mas isso não significa automaticamente que o futebol nacional ficará mais forte.

Em um mercado com menos oferta internacional, é possível que determinados jogadores brasileiros ganhem maior valorização justamente pela redução da concorrência. O preço de atletas nacionais pode subir, mas preço maior não necessariamente significa qualidade maior.

Também existe uma questão esportiva.

Quando um jogador disputa posição com atletas de diferentes escolas, culturas e características táticas, ele precisa se adaptar. Precisa competir. Precisa aprender.

A concorrência não é necessariamente uma ameaça ao jogador brasileiro. Pode ser justamente um dos instrumentos para fazê-lo evoluir.

Se queremos que o atleta nacional seja protagonista no futebol mundial, talvez seja mais interessante prepará-lo para vencer a concorrência do que simplesmente diminuir a concorrência.

O paradoxo que a nova regra não resolve

Existe, porém, uma contradição que merece ser colocada na mesa.

A CBF quer reduzir os estrangeiros para abrir espaço aos jovens brasileiros. Só que os jovens brasileiros de maior potencial continuam sendo vendidos cada vez mais cedo.

Ou seja: vamos diminuir os estrangeiros no Brasileirão, mas quem garante que os melhores jogadores brasileiros continuarão aqui?

O próprio estudo apresentado pela CBF mostra o tamanho do problema. Entre 2016 e 2025, atletas de até 20 anos responderam por 50,1% das receitas brasileiras com transferências para o exterior. E análises publicadas após a decisão da entidade apontam justamente que muitos dos jovens de maior qualidade deixam de disputar espaço na Série A não porque não tenham vaga, mas porque já foram negociados com o exterior.

Esse é o ponto que me parece mais importante.

Imagine um cenário em que o limite de estrangeiros diminui, mas um clube continua vendendo sua principal promessa aos 18, 19 ou 20 anos para a Europa ou para outro mercado internacional.

Quem ocupa o espaço deixado por esse jovem?

Se for outro garoto de qualidade, ótimo. Mas, se a saída precoce continuar sendo regra e o clube recorrer ao mercado para contratar jogadores brasileiros mais velhos, a redução dos estrangeiros pode não produzir o efeito esperado.

Pior: o futebol brasileiro pode correr o risco de diminuir a concorrência internacional sem conseguir manter aqui os jovens que deveriam elevar o nível técnico do campeonato.

O problema, portanto, talvez não seja simplesmente quantos estrangeiros estão em campo. É também por quanto tempo conseguimos manter os nossos melhores jogadores em campo.

O que a Europa nos mostra

O futebol europeu oferece um exemplo importante para essa discussão.

A Lei Bosman, de 1995, transformou profundamente a circulação de jogadores dentro da União Europeia. A decisão eliminou determinadas restrições à contratação de atletas comunitários e contribuiu para ampliar a mobilidade dos jogadores entre os países do bloco.

Isso não explica sozinho a força do futebol europeu.

Há dinheiro, infraestrutura, formação, tecnologia, metodologia, grandes competições e uma concentração enorme de talentos. Seria simplista atribuir a evolução europeia a um único fator.

Mas a livre circulação ajudou a criar um ambiente de maior intercâmbio e competição.

Jogadores de diferentes escolas passaram a conviver nos mesmos campeonatos, nos mesmos centros de treinamento e nos mesmos vestiários. Clubes passaram a ampliar seus mercados e suas redes de observação.

O resultado foi um futebol cada vez mais internacionalizado.

O Brasil não precisa copiar a Europa. Mas também não deveria ignorar as lições de um mercado que há décadas trabalha com uma lógica muito mais aberta de circulação de talentos.

O impacto nos clubes brasileiros

A internacionalização já faz parte da realidade dos principais clubes brasileiros. E os números ajudam a dimensionar essa transformação.

Em levantamento publicado em setembro de 2026, o Bahia aparece com nove estrangeiros no elenco. O Flamengo tem dez. Botafogo, 12; Atlético-MG, nove; Palmeiras, oito; e Vitória, seis. No total, eram 159 estrangeiros de 26 países nos clubes da Série A analisados pelo levantamento.

No Bahia, a presença de atletas como Alejo Véliz, Guido Herrera, Michel Araújo e outros jogadores estrangeiros é parte de uma estratégia que conversa diretamente com o modelo internacional do Grupo City.

No Flamengo, a presença de nomes como Arrascaeta, De la Cruz, Rossi, Varela, Pulgar, Saúl e Carrascal mostra como o mercado sul-americano e internacional já está incorporado à montagem do elenco.

Palmeiras e Vitória também utilizam jogadores estrangeiros em posições importantes de seus times.

E há uma característica importante nesse movimento: muitos desses jogadores não chegam ao Brasil apenas para ocupar uma vaga. Eles chegam trazendo experiências diferentes.

Um uruguaio pode carregar uma formação competitiva distinta. Um colombiano pode oferecer outra característica física e técnica. Um argentino pode trazer conceitos táticos desenvolvidos em outra escola.

Não significa que o estrangeiro seja melhor que o brasileiro. Significa que a convivência entre diferentes perfis pode elevar o nível de exigência de todos.

É assim em praticamente qualquer ambiente competitivo.

O problema é realmente o estrangeiro?

A própria fotografia do Brasileirão mostra que a questão é mais complexa.

Segundo o estudo apresentado pela CBF, a média de idade dos jogadores da Série A subiu de 27,3 anos em 2021 para 28,5 em 2026. Ao mesmo tempo, atletas sub-23 representam apenas 13,8% dos minutos disputados no campeonato. Entre os brasileiros sub-23, a participação caiu de 28,3% dos minutos em 2020 para 11,5% em 2026.

Esses números sustentam a preocupação da CBF com o espaço dado aos jovens.

Mas eles também levantam outra pergunta: o estrangeiro é a causa do problema ou apenas uma parte de um problema maior?

Porque o jovem brasileiro disputa espaço não apenas com o estrangeiro. Disputa com jogadores brasileiros mais experientes, com decisões dos treinadores, com a necessidade imediata de resultado, com a estrutura financeira dos clubes e, principalmente, com um mercado internacional disposto a pagar milhões por uma promessa antes mesmo de ela se consolidar no futebol profissional.

Reduzir a presença estrangeira pode abrir algumas vagas. Mas não garante que essas vagas serão ocupadas pelos melhores jovens.

O futebol brasileiro quer formar ou proteger?

Essa talvez seja a pergunta mais incômoda da discussão.

Se o objetivo é aumentar a participação do jogador brasileiro, existem caminhos que podem ser discutidos: melhorar a formação, qualificar treinadores, ampliar infraestrutura, fortalecer categorias de base, criar melhores condições para o desenvolvimento dos jovens e aperfeiçoar a transição entre base e profissional.

Também é preciso criar condições econômicas para que os clubes não sejam obrigados — ou não se sintam obrigados — a vender seus melhores talentos na primeira grande proposta.

Porque existe uma diferença importante entre proteger um mercado e fortalecê-lo.

Proteger significa criar uma barreira. Fortalecer significa aumentar a capacidade de competir.

Se o jogador brasileiro é bom, ele deveria ser capaz de disputar espaço com um argentino, um uruguaio, um colombiano, um chileno ou qualquer outro atleta.

E, se não estiver preparado para isso aos 20 ou 21 anos, talvez o problema esteja menos no número de estrangeiros em campo e mais no processo que o formou.

Uma alternativa: cidadania desportiva sul-americana

Existe ainda uma possibilidade que merece ser colocada na mesa.

Em vez de tratar todos os atletas estrangeiros da mesma maneira, o futebol brasileiro poderia discutir uma espécie de Cidadania Desportiva Sul-Americana.

Jogadores oriundos dos países das Américas poderiam deixar de ocupar vagas destinadas a estrangeiros, permitindo maior circulação dentro do continente.

A ideia preservaria a internacionalização do futebol brasileiro, mas criaria uma integração esportiva regional.

O Brasil tem uma posição única no continente. Possui mercado, população, estrutura e tradição suficientes para ser um grande polo do futebol sul-americano.

Por que não transformar essa força em uma oportunidade de integração?

Em vez de fechar portas, poderíamos discutir como ampliar o intercâmbio.

Em vez de diminuir a concorrência, poderíamos discutir como preparar melhor o jogador brasileiro para enfrentá-la.

Menos proteção. Mais competição

No fim, a discussão não deveria ser simplesmente sobre estrangeiros.

Deveria ser sobre o futebol que queremos ter daqui a dez ou 15 anos.

Queremos um campeonato que proteja seus jogadores nacionais criando barreiras à entrada de concorrentes?

Ou queremos um campeonato capaz de colocar seus atletas em contato permanente com diferentes escolas, estilos e culturas, aumentando a exigência e preparando-os para competir no mundo?

O jogador brasileiro não deveria ser protegido da concorrência. Deveria ser preparado para vencê-la.

Essa é a diferença entre criar uma reserva de mercado e construir um ambiente de alto rendimento.

O futebol brasileiro já foi referência mundial justamente porque não teve medo de absorver influências.

Aprendeu com o uruguaio, com o argentino, com o europeu, com o africano. Misturou estilos. Criou sua própria identidade.

Talvez o caminho para voltar a ser ainda mais competitivo não esteja em fechar a porta.

Talvez esteja em abrir ainda mais — mas exigir muito mais de quem entra e, principalmente, de quem já está aqui.

No fim, a pergunta permanece: queremos um futebol mais protegido ou um futebol mais preparado para competir?

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