ALÉM DO RESULTADO
Rogério Ceni quebra paradigmas com a base, Nestor renasce e o Bahia clama por um 9
Pivetes de Aço mostram valor e Nestor brilha no meio, mas Esquadrão precisa de presença de área


A bola no travessão de David Duarte nos últimos instantes contra o Atlético-MG deixou aquela incômoda sensação de que a virada esteve a um capricho de acontecer. Mas o placar em si não pode mascarar o diagnóstico: o Bahia segue sofrendo com uma crônica lentidão na transição ofensiva. O Tricolor até defende com muitos homens, mas ataca com poucos, deixando um abismo entre as linhas de meio-campo e ataque que esvazia a pressão sobre a zaga adversária.
Se o coletivo engasga, o grande trunfo da noite esteve na mudança de postura do treinador. Rogério Ceni resolveu quebrar seus próprios paradigmas e fugir das substituições óbvias. Em um jogo grande e pesado, o comandante deu rodagem aos "Pivetes de Aço", atendendo ao desejo da torcida e cumprindo a promessa feita ao lado do diretor Cadu Santoro.
Kauê Furquim e Ruan Pablo entraram sem medo. Furquim infernizou a ala direita com velocidade, drible curto e bola colada ao pé. Já Juan Pablo, mesmo em poucos minutos, mostrou refino técnico ao clarear a jogada com um passe de letra no meio do pivô. Mostraram que a base não está ali apenas para compor elenco: os garotos têm talento, personalidade e podem, sim, resolver partidas no time principal.
Nestor renasce e a pré-assistência de Willian
Ainda na gestão de grupo, a manutenção da sustentação física do setor central com Acevedo, Erick e Rodrigo Nestor se provou acertada. E foi justamente Nestor o homem da noite.
Crescendo exponencialmente no segundo tempo com a entrada de Everton Ribeiro — que arrasta a marcação e clareia o campo para todos —, Nestor ganhou liberdade para flutuar. Mas antes mesmo da entrada do camisa 10, o meia, agora titular, conseguiu desferir uma assistência monumental. Um passe cirúrgico, cruzando toda a extensão do campo da esquerda para a direita, digno de grande palco, para colocar Ademir em condições de estufar as redes de perna direita. Além de boas finalizações de média distância. Grande atuação de quem pede passagem e justifica, com sobra, a titularidade e a permanência de Jean Lucas no banco.
"O campo vai falando, vai te mostrando". Essa foi uma das declarações de Ceni, sobre Rodrigo Nestor, após o jogo contra o Galo. O que mostra a quebra de paradigma do treinador tricolor sobre o sistema engessado, as peças usadas e os titulares antes intocáveis.
Esse lance do gol, inclusive, escancara a essência do ataque tricolor. Na origem da jogada, Willian José recebe na intermediária e, em vez de esticar em profundidade para Pulga na ponta, prefere segurar a bola e dar a pré-assistência para Nestor. A jogada deu certo e foi bonita, mas sintetiza perfeitamente quem é Willian: um camisa 9 de associação e construção, não um matador de área. Fora um lance raro no primeiro tempo — uma casquinha de cabeça em que a bola beliscou o travessão —, ele passa a maior parte do tempo flutuando longe da grande área.
O nó tático de Pulga e a encruzilhada da área
Essa característica de Willian José acaba gerando uma deformação tática no time. Hoje, o Bahia não ataca em um 4-3-3 convencional. O único ponta espetado na largura é Ademir, pela direita. Pela esquerda, Erick Pulga acaba atuando muito mais como um segundo atacante, obrigado a se aproximar de Willian para tentar preencher o vazio deixado na área quando o centroavante recua.
O problema é que Pulga não tem o menor cacoete de segundo atacante, tampouco de homem de área. Sua grande virtude é o um contra um aberto na ponta esquerda. Forçado a flutuar por dentro, ele perde seu principal trunfo, e o Bahia continua sem presença física na área quando os pontas ou os alas chegam à linha de fundo. Ao erguerem a cabeça para cruzar, encontram a área deserta.
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É aí que o futebol moderno cobra seu preço. Ter posse de bola, triangulação e alas que deem amplitude é fundamental, mas a essência do jogo nunca mudou: o que ganha partida é bola na rede. Guardadas as devidas proporções técnicas, o Bahia vive um dilema similar ao que o Manchester City enfrentava antes de ter Erling Haaland, ou ao salto competitivo da seleção da Noruega. Em um futebol onde o "9 matador" virou artigo de luxo escasso, times de grande volume de construção sofrem sem um especialista para guardar a bola.
Para o Esquadrão, essa esperança atende pelo nome de Alejo Véliz. O centroavante argentino, alto, forte e com apetite voraz por gol, chega cotado para fazer sua estreia em jogos oficiais contra o Corinthians, no domingo. Pode ser, justamente, a peça que falta para fixar os zagueiros, devolver Pulga à sua posição de origem e transformar a posse de bola do Bahia em vitórias concretas.
Rogério Ceni deu um passo importante ao abrir as portas para os garotos da base e dar ritmo ao meio-campo. Agora, ajustando o encaixe tático das pontas e preenchendo a área adversária com um 9 de ofício, o Bahia ganha todos os ingredientes para voltar a ser um time verdadeiramente dominante e vencedor.


