PÁGINAS PROIBIDAS
O sexo básico funciona ou os homens não se garantem além dele?
Encontrar parceiros que façam coisas diferentes é uma dificuldade atual


Um sexo bem feito consegue satisfazer a maioria das mulheres no dia a dia. Posições clássicas como papai e mamãe, de quatro, cavalgada e o bom e velho sexo oral fazem parte deste “pacote básico” (que descobri a existência na última semana).
Durante conversas com mulheres conhecidas, esta colunista que vos fala percebeu que os homens que conseguem entregar além do tradicional costumam ser classificados como especiais ou surpreendentes, já que apresentam uma nova forma de prazer.
Dentre os principais diferenciais citados por elas estão: pé na cabeça, carregar e ficar em pé durante a penetração, pressionar contra a parede, amarrar, sexo oral de costas e lambidas por todo o corpo.
No entanto, as posições preferidas da maioria ainda são as tradicionais. De acordo com uma pesquisa recente da Body+Soul, feita com mais 2 mil mulheres no Reino Unido e nos Estados Unidos, 10% delas preferem se manter no papai e mamãe. Enquanto 9% das participantes é adepta da posição de quatro apoios.
Repertório sexual empobrecido
Em conversa com a coluna, a psicóloga e sexóloga Mirna Rosier revelou que a falta de variedades nas posições sexuais é uma queixa frequente entre suas pacientes no consultório. Ela avalia que há uma espécie de empobrecimento no repertório sexual masculino.
“As mulheres chegam ao consultório falando principalmente de falta de desejo e de dificuldade para atingir o orgasmo. Mas, na prática, essas duas queixas costumam ser a ponta de um mesmo fio, e o trabalho é puxar esse fio”, disse ela, ressaltando que também costuma avaliar o histórico da mulher com o próprio corpo e o prazer para entender melhor o contexto.
“[...] Porque o que vejo com frequência é um repertório sexual empobrecido e uma desconexão entre o que elas sentem e o que eles fazem. Eles acreditam estar acertando; elas estão desconfortáveis e não dizem. Sexo ainda é um assunto tratado com muito constrangimento dentro dos casais — e o silêncio é o que mantém o roteiro girando igual”, explicou.
Especialista em Sexualidade Humana e Conjugalidade, a profissional ainda destacou que o consumo excessivo de filmes pornôs também influencia no baixo desempenho masculino.

“Não é uma causa só. É uma combinação de fatores que se reforçam. O primeiro é a ausência de educação sexual. Na falta dela, homens e mulheres aprenderam sobre sexo principalmente pela pornografia — e ela entrega um modelo muito específico: sexo focado em performance, genitalizado, centrado na penetração, com a mensagem implícita de que a relação termina quando o homem ejacula”, afirmou.
“Fica uma pergunta sem resposta: e o prazer da mulher, onde entra? No imaginário que se formou, muitas vezes ele entra apenas como consequência de satisfazer o homem. O segundo é que arriscar significa se expor. O roteiro conhecido é uma zona de segurança: 'funcionou antes, deve funcionar de novo'. É mais confortável repetir do que testar e errar”.
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Por fim, Mirna ressaltou que os gostos masculinos costumam se sobressair na cama. “E há um terceiro ponto, que considero decisivo: parte-se da ideia de que vou fazer no outro aquilo que eu gostaria que fizessem comigo. O problema é que, quando falamos de homens e mulheres, gostos e preferências tendem a ser muito diferentes. O que ele assume como "o que todo mundo gosta" é, na verdade, o gosto dele”, completou.
Mulheres que dominam

Embora os homens apresentem uma postura de dominantes durante os dias comuns, são as mulheres que comandam a situação na cama. Muitas delas costumam sugerir e fazer posições diferentes com os parceiros.
Não é à toa que a maioria dos vídeos de influenciadores que falam sobre sexo costumam ensinar meios para elas surpreenderem na hora H, e não o contrário. Como se a função de melhorar o ato fosse exclusivamente feminina.
A Dra. Mirna avalia que essa estrutura é formada por uma questão cultural entre os homens, pois eles costumam assumir a posição de especialista e condutor, por isso acabam tendo medo de perguntar o que a mulher gosta ou quer.
“Perguntar soa como admitir que não é [especialista]. Na prática, é o contrário. Perguntar é sinal de segurança, não de inexperiência. Quem pergunta, demonstra que está ali com a parceira, não apenas sobre ela. E vale um lembrete: a pergunta feita com o corpo muitas vezes funciona melhor do que a verbal. Um 'aqui?', 'mais devagar?', 'assim?' já muda tudo”, afirmou.
Ela também destaca que a cultura do desempenho masculino mede o sexo por indicadores objetivos, tais como ereção firme, penetração e ejaculação. “É uma métrica de performance, não de prazer. E o pior: é uma métrica que valida o homem sozinho — ele pode "ir bem" sem que a parceira tenha sentido nada”, disse ela.
“Isso produz um efeito perverso. O homem sai da relação com a sensação de dever cumprido; a mulher sai com a sensação de não ter sido vista. Quando essa assimetria se repete, ela vira ressentimento silencioso”, completou.
Nessa lógica, "bom de cama" é quem executa bem, não quem conecta bem". Dra. Mirna Rosier
Prazer é particular
Apesar das reclamações quanto ao formato básico de sexo, é importante ressaltar que o prazer é algo individual de cada pessoa. Existem mulheres que não conseguem chegar ao orgasmo com a penetração e precisam de outros estímulos, enquanto outras se satisfazem com as posições mais comuns.
No final das contas, o que funciona ou não, varia de pessoa para pessoa. Entretanto, a conversa é a principal chave para resolver todas as questões entre os parceiros e diálogos curtos já fazem toda a diferença.
“Nada de revolução. Pequenos ajustes com efeito grande: Desacelerar o começo. Dobrar o tempo dedicado ao corpo inteiro antes de qualquer genitália — costas, nuca, coxas, pés. O objetivo não é 'esquentar para o ato': é que o ato comece ali. Tratar o oral como prática, não como etapa. Sem cronômetro, sem pressa de partir para o principal”, aconselha a sexóloga Mirna Rosier.
Ela ainda listou quais mudanças podem melhorar a relação de um casal:
- Variar o ritmo dentro do mesmo movimento
- Alternar lento/rápido e superficial/profundo
- Perguntar e esperar a resposta
- Tirar o orgasmo do centro
“Quando o desfecho deixa de ser a meta, o encontro inteiro ganha espaço. Paradoxalmente, isso costuma melhorar o desempenho que ele tanto temia perder”, concluiu.
Embora estas questões possam ser resolvidas, ainda permance a maior dúvida feminina: o sexo básico realmente funciona ou os homens é quem não se garantem além dele?


