COPA A TARDE
Baianos contam como é acompanhar uma Copa do Mundo ao vivo
Conheça a história de três baianos que viveram longe de casa de jeitos nada comuns


A Copa do Mundo só aconteceu no Brasil duas vezes na história - mas o Brasil esteve na Copa em todas as suas edições. Assim, estiveram com ele, os brasileiros, que rodaram o planeta com a Canarinha e espalharam a paixão pelo futebol que tanto caracteriza esse povo mundo afora.
Mesmo fora do Brasil, da Bahia e, no caso de 2014, da Fonte Nova, os baianos sabem bem o que é viver uma Copa. Fora das fronteiras onde nasceram, torcedores e profissionais deixaram a Bahia para ir atrás da Seleção em seus jogos, vivendo histórias inesquecíveis em diversas Copas do Mundo.
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Nas ruas de outros países, encontrando culturas diferentes e percebendo, de perto, o tamanho que a Seleção Brasileira tem fora do Brasil, baianos conheceram comidas, lidaram com fusos horários diversos, encontraram outros brasileiros em todos os cantos e ouviram, claro, estrangeiros associarem o Brasil ao futebol, ao samba e aos grandes craques.
Há quem tenha acompanhado a Seleção em uma viagem de família, quem tenha realizado o sonho de cobrir o Brasil como criador de conteúdo e quem tenha feito parte de uma das maiores festas da história do futebol brasileiro - todos voltando para a Bahia, sua casa, após viver momentos inesquecíveis para o mundo.
A baiana que viveu Copas cantando
Uma das histórias mais interessantes é, sem dúvidas, a de Patrícia Sampaio. Natural de Salvador, ela chegou à Copa lado a lado com um dos maiores símbolos da Bahia mundo afora - a cantora Ivete Sangalo.
Backing vocal da Banda Eva e, depois, de Ivete Sangalo, Patrícia viveu diferentes edições do Mundial a trabalho, em turnês e projetos ligados ao futebol. Patrícia esteve na França durante a Copa de 1998, acompanhando a Banda Eva em shows.
Em 2002, já com Ivete Sangalo em carreira solo, participou de apresentações em um período em que a música "Festa" se tornou um dos grandes símbolos populares da campanha do penta. Em 2006, também esteve na Alemanha em shows com Ivete nos dias de jogos da Seleção.

Na França, em 1998, o que mais impressionou Patrícia foi a paixão não apenas dos brasileiros, mas também dos franceses pela Seleção Brasileira. Muitos acreditavam que o Brasil seria campeão novamente e torciam pelo time que havia levantado a taça quatro anos antes.
O fim daquela Copa, no entanto, foi doloroso. Patrícia e a equipe não ficaram para a final contra a França. No dia da decisão, voltaram ao Brasil de avião, ainda sem saber o desfecho da história que tinham vivido.
Durante o voo, o comandante atualizava os passageiros sobre a partida até anunciar a derrota brasileira. "Foi uma sensação de vazio enorme. Fiquei muito triste", relembrou.
Quatro anos depois, o sentimento seria completamente diferente. Na Copa de 2002, disputada no Japão e na Coreia do Sul, o Brasil embalou a torcida com uma campanha vitoriosa, e a música "Festa", de Ivete Sangalo, virou trilha de comemoração.

Patrícia lembra que os shows nos dias de jogos tinham uma energia especial. A cada vitória, o público explodia quando Ivete cantava a música que havia sido escolhida pela Seleção como a canção da Copa.
"Tudo era alegria. Cada jogo era uma loucura. A Seleção dando show. Fizemos shows pelo Brasil nos dias de jogo e a plateia ia à loucura quando Ivete cantava 'Festa', que era um hino da Seleção naquele ano", contou.
Na final contra a Alemanha, Patrícia estava em Minas Gerais. A equipe viajava de ônibus e parou em um restaurante na estrada para assistir ao jogo, vivendo a vitória por 2 a 0 e a conquista do pentacampeonato que transformaram aquele dia em uma lembrança inesquecível.
"Foi uma das grandes emoções da minha vida. O show daquela noite foi uma loucura. Inesquecível", afirmou.

O momento mais marcante da trajetória de Patrícia nas Copas veio justamente ali, depois do título de 2002. Ela participou da recepção aos pentacampeões em Brasília, na chegada da Seleção de volta ao Brasil, vivendo de dentro um dos momentos que entraram para a história do país e das Copas.
Pela programação, os jogadores desfilariam em um carro do Corpo de Bombeiros com a taça, ao lado de Felipão. No entanto, o roteiro mudou quando os atletas viram o trio elétrico com Ivete Sangalo e a banda a postos.
"A escolha da Seleção em ir no trio com a gente foi o que mais me surpreendeu", conta ela. Ronaldinho Gaúcho, Edilson, Vampeta e Dida subiram no trio, enquanto outros jogadores acompanharam atrás.

Apenas Cafu e Felipão seguiram no carro do Corpo de Bombeiros durante a festa que foi até o Palácio do Planalto. "Fizemos festa junto com a Seleção do penta. A melhor parte foi cantar para e com a Seleção Brasileira. Comemorar com eles um momento único", contou Patrícia.
Além de histórica, para ela, a lembrança também tem um valor familiar. Na época, o filho dela, Gabriel, tinha apenas cinco meses. Patrícia comprou uma bola para ser autografada pelos jogadores, e todos assinaram e tiraram fotos para o pequeno.
Ela lembra especialmente do encontro com Ronaldinho Gaúcho, que pegou a bola e começou a brincar. "Eu gritava para ele: 'Cuidado com a bola de meu filho!'. E ele respondia: 'Confie em mim!'. Foi surreal", contou.

Ao chegar ao Palácio do Planalto, Patrícia ainda presenciou uma das cenas mais lembradas daquela comemoração - Vampeta dando cambalhotas na rampa. Para ela, aquilo foi a materialização de um sonho.
"Simplesmente inesquecível. Um sonho real", definiu.

Em 2006, Patrícia voltou a viver uma Copa de perto. Ela saiu em turnê pela Europa com Ivete Sangalo, passou por alguns países e chegou à Alemanha para tocar nos dias de jogos da Seleção Brasileira, em meio a uma gigante expectativa pelo hexa.
"O país estava pintado de verde e amarelo. Tinha brasileiro para todo lado. Foi uma super experiência", afirmou.
A Seleção acabou eliminada sem conquistar o hexa, mas a experiência permaneceu na memória da cantora como um período intenso e especial. Mesmo cansada pela rotina de shows e deslocamentos, ela afirma que a satisfação superava qualquer dificuldade.

"São lembranças incríveis que eu pude compartilhar com meus filhos e a certeza de que o futebol brasileiro sempre esteve em um nível elevadíssimo. A alegria e a torcida do povo brasileiro não se comparam com nada no mundo. Olho para trás e sinto um orgulho imenso. Eu estava lá. Eu sou parte dessa história feliz e vitoriosa", afirmou.
Copa vista de fora
Natural de Salvador, George Gaspar, de 33 anos, viveu a mesma Copa, de 2006, na Alemanha, durante uma viagem de um mês com a família. O jogo escolhido foi Brasil x Gana, pelas oitavas de final, em Dortmund. A experiência, no entanto, não aconteceu dentro do estádio, mas em um ginásio gratuito montado no entorno da arena.
Mesmo fora das arquibancadas, o clima de Copa marcou a memória do baiano. Para ele, a viagem foi "bastante marcante e enriquecedora", principalmente pela possibilidade de conhecer outras culturas, tradições e uma realidade diferente da brasileira.

O que mais chamou a atenção de George foi o respeito dos estrangeiros pela Seleção Brasileira. Em 2006, o Brasil chegava à Alemanha como atual campeão mundial e ainda carregava o peso simbólico dos cinco títulos conquistados até então. Nas ruas, segundo ele, era comum ser abordado por pessoas encantadas com o país e com os jogadores brasileiros.
"Eles falavam muito 'beautiful', 'I love Brazil', 'samba'. Diziam que gostavam muito de Ronaldo, Kaká, Ronaldinho e outros jogadores", relembrou.

A admiração pela Seleção, segundo George, aparecia no acolhimento, no afeto e no reconhecimento da grandeza do futebol brasileiro. O orgulho de vestir as cores do Brasil fora de casa se misturava à surpresa de perceber como o país era visto pelos torcedores de outras nacionalidades, dando um "gostinho" da torcida de casa mesmo tão longe.
No entanto, nem tudo foi simples. As maiores dificuldades foram o idioma e a adaptação à gastronomia alemã, que fez George sentir falta da diversidade da comida brasileira diante de um cardápio com muitas salsichas, embutidos e pratos mais gordurosos.

Ainda assim, a experiência ficou marcada como uma memória única. Para quem sonha em acompanhar uma Copa em outro país, ele dá um conselho direto - planejamento.
"O conselho que eu daria é se planejar com antecedência para evitar maiores gastos e aproveitar a experiência, pois é um momento único e marcante na vida de qualquer pessoa", afirmou.

Sonho realizado no Catar
Mais recentemente, quem viveu esse momento único foi Vitor Augusto, de 32 anos, que chegou ao Mundial por meio do trabalho com futebol na internet. Natural de Candeias e atualmente morador de Salvador, ele acompanhou a Copa do Mundo do Catar, em 2022, após vencer um concurso promovido pela CBF.
Criador de conteúdo e dono da página Memes Futebolísticos, Vitor foi um dos influenciadores escolhidos para cobrir a Seleção Brasileira durante o torneio. "Fui a trabalho e lazer, porque meu trabalho para mim é um lazer", contou.
No Catar, Vitor passou mais de 20 dias hospedado em uma casa com outros influenciadores e criadores, vivendo uma rotina de produção de conteúdo, convivência com profissionais da internet, acompanhamento da Seleção e uma imersão completa no ambiente da Copa.
Ele assistiu a todos os jogos do Brasil no Mundial e ainda acompanhou outras partidas, como Japão x Costa Rica, Arábia Saudita x Argentina, Portugal x Coreia do Sul e Senegal x Holanda. Uma das lembranças mais curiosas veio logo em um dos grandes choques da primeira fase, a derrota da Argentina para a Arábia Saudita.
"Vi Messi marcar de pênalti e a Argentina perder. Saí de lá feliz", brincou. Além das muitas alegrias, a ida ao Catar teve um significado especial porque representou a realização de um sonho antigo.
Em 2014, quando a Copa foi disputada no Brasil, Vitor não tinha condições financeiras de assistir a um jogo da Seleção. A frustração daquele momento virou combustível para continuar trabalhando e imaginando que, um dia, viveria aquilo de perto.
"O primeiro jogo do Brasil na Copa foi o momento mais inesquecível. Em 2014, na Copa aqui no Brasil, eu não tinha condições financeiras de ir para nenhum jogo da Seleção, e isso me motivou muito a lutar, mentalizar e visualizar que um dia eu viveria uma Copa do Mundo de perto. Era meu sonho. Demorou, mas aconteceu", disse.
Para Vitor, a experiência foi a recompensa por anos de dedicação à página e ao conteúdo sobre futebol. "Eu estava realizando um sonho. Tudo que eu fiz nos meus longos anos de página sendo recompensado naquele mês. Eu fui feliz", resumiu.
O custo de uma Copa
Além dos jogos, Vitor também teve acesso a uma parte menos visível para o torcedor comum - os bastidores da organização da Seleção Brasileira. Por estar com a CBF, ele pôde acompanhar de perto a estrutura montada para treinos, deslocamentos e dias de partida.
No caso dele, o custo da viagem foi zero. Passagem, hospedagem e alimentação foram pagos por causa do concurso vencido. Mas a experiência também serviu para perceber o quanto uma Copa do Mundo pode ser cara para quem decide ir por conta própria.
"Guarde muito dinheiro, porque Copa do Mundo é muito caro. Tive amigos que foram por conta própria e gastaram rios de dinheiro, principalmente com ingresso para os jogos", alertou.
Sem precisar pagar, a maior dificuldade, para ele, foi o fuso horário. Com cerca de seis horas de diferença, Vitor levou alguns dias para se adaptar, mas nada foi capaz de diminuir o impacto da vivência.
Para ele, não houve uma única melhor parte. O mais especial foi o conjunto da experiência - os jogos, as amizades, os conteúdos, as parcerias, os bastidores e a sensação de estar dentro do maior evento de futebol do mundo.
"Foi o todo em si. Vivenciar tudo que vivenciei foi a melhor parte. Eu estava vivendo um sonho, não mudaria nada", contou.
Muito além dos 90 minutos
Ainda que existam diversos brasileiros e baianos que viajam ao país-sede de uma Copa para assistir aos jogos das arquibancadas, o Mundial tem sempre esse trunfo de trazer experiências únicas para cada pessoa que o vivencia.
De ginásio gratuito no entorno do estádio a cobertura da Seleção e os trios elétricos que foram de Salvador ao resto do mundo com a Canarinha, os baianos descobriram o quanto a Copa mora nas ruas, nos sotaques, nas músicas, nos encontros, nos bastidores e nas lembranças que seguem vivas anos depois.

Para quem pensa em acompanhar uma Copa em outro país, os conselhos se repetem: organizar a viagem com antecedência, se preparar financeiramente e estar aberto a viver o torneio como uma experiência cultural, e não apenas esportiva.
No fim, o que fica é a sensação de que o Brasil, mesmo longe de casa, continua sendo reconhecido por uma paixão que atravessa fronteiras. Seja no Catar, na França, na Alemanha ou em Brasília, os baianos que viveram uma Copa de perto descobriram que o Mundial é feito de futebol, mas também de memória, identidade e pertencimento.

E, para quem esteve lá, a lembrança extrapola o placar e guarda os gritos da torcida, a bola autografada, o trabalho feito, os sonhos realizados e a certeza de ter participado de uma história inesquecível.
























