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Ateliê, Museu Tempostal reabre com duas exposições

As imagens da Salvador antiga (acervo Tempostal) dialogam com os fotógrafos atuais do M.E. Ateliê

Publicado quinta-feira, 13 de janeiro de 2022 às 06:05 h | Atualizado em 12/01/2022, 23:43 | Autor: João Gabriel Veiga
A então bucólica Ribeira em tempos menos barulhentos, na fotografia de Marisa Viana
A então bucólica Ribeira em tempos menos barulhentos, na fotografia de Marisa Viana -
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Passado e presente se fundem em um só na reinauguração do Museu Tempostal, no Pelourinho. Revitalizado ao longo de 2021, o espaço abre as portas nesta sexta-feira, 14, sediando duas exposições: Olhares Plurais e Salvador de Múltiplos Encantos – uma colaboração com o M.E. Ateliê da Fotografia, que lança um olhar sobre a Salvador de ontem e de hoje.

“Já planejávamos reabrir o museu há algum tempo, só que com a pandemia e as reformas do espaço, os planos mudaram. Tava tudo pronto, mas houve alguns atrasos, e pensamos ‘a gente vai ficar o verão todo fechado?’. Então, resolvemos realizar um desejo antigo de convidar artistas contemporâneos  para reabrir o museu com muito estilo, combinando o nosso acervo, de imagens do final do século 19 até a metade do século 20, com fotografias contemporâneas”, explica a coordenadora do museu, Aiala Gonçalves, que se diz ansiosa para ver as leituras feitas pelo público.

Ela detalha mais como o acervo fotográfico do Museu Tempostal dialoga com a coletânea Olhares Plurais do ateliê: “Elas se contrapõem. A nossa mostra como antigamente era tudo mais fácil. Era mais fácil participar do verão de Salvador. A violência era menor, a cidade tinha um outro brilho, os lugares eram mais amplos e limpos. Com o decorrer das mudanças arquitetônicas, surgiram novas casas, novos lugares onde antes era só vegetação. Nós mostramos a parte arquitetônica, as festas populares, a parte do carnaval como era antigamente, dos abadás e do trio elétrico”.

Por sua vez, Mário Edson, diretor do M.E. Ateliê, conta como foi o processo criativo por trás da fabulação da exposição que agora se hospeda no museu. “Eu fiz uma provocação aos fotógrafos, da gente fazer uma caminhada fotográfica do Santo Antônio da Barra até o Santo Antônio Além do Carmo, para registrar o centro histórico com o olhar bem particular de cada um. Como eram 13 fotógrafos, a ideia básica era que cada um fizesse do seu jeito mesmo, cada um seguir sua intuição e seu coração”, elucida.

Em sua experiência, ele também observa como seu trabalho traz outra face da passagem do tempo na cidade quando colocada lado a lado com as fotografias e cartões-postais do museu. “A gente vive um conflito muito grande. Existe um desejo de ter uma cidade que conserve os seus traços genuínos, o histórico, mas também há algumas agressões, como o prédio super-moderno da prefeitura no centro histórico que não tem nada a ver com o ambiente dos prédios centenários, da arquitetura barroca”, diz.

“Mas pelo olhar dos fotógrafos, eu sinto que ainda existe um saudosismo de dialogar com o novo, sem deixar o velho lá atrás. É como se a gente buscasse um lugar para tudo. Podemos continuar preservando o que a gente tem de mais bacana, da arquitetura aos hábitos, sem necessariamente abrir mão do moderno”, acrescenta.

A pesca de xaréu (rede na imagem) era um evento na praia, todos iam ver e puxar junto
A pesca de xaréu (rede na imagem) era um evento na praia, todos iam ver e puxar junto |  Foto: Divulgação
 

Antigo versus moderno

A dupla reflete sobre o que mudou, o que se assemelha, e o que condicionou essa mudança de paradigmas. Para Aiala, trata-se de um conjunto de fatores: “A questão social, a questão econômica. Tem também o fator governamental, já que a gente sabe que o nosso presidente não valoriza muito a cultura, então vem poucos recursos pro nosso setor. Tudo isso levou nossa cultura a ficar um pouco defasada. Antigamente, quando chegava nesta época, você via que o carnaval e as festas populares já estavam praticamente prontos, era só o povo ir para a rua. Hoje em dia, se vê mais uma parte monetária, ela fala mais alto”.

A isso, Mário acrescenta: “Salvador cresceu, a população cresceu. A questão da mobilidade sempre foi um problema, e ele tem crescido muito. Se você for analisar, a gente vivia num contexto onde tudo era menor, mais restrito, e hoje a coisa cresceu. Tem muita gente, muito carro, muito turista. Isso tem trazido um transtorno muito grande pro centro histórico. Com isso, quando você vê a questão arquitetônica, por exemplo, há uma especulação imobiliária muito grande. Aqueles casarões centenários são demolidos para construir lugares comercialmente mais viáveis. Precisamos manter o que conta história”.

O fotógrafo relata sua empolgação em fazer parte do projeto. “Existe uma proposta muito bacana do Museu Tempostal que é justamente fugir daquele padrão de coisa antiga, velha, ultrapassada, e lançar um olhar sobre a modernidade e o contemporâneo. É muito interessante não só a nível cultural, mas a nível de experimentação”, declara.

Muito antes da reforma / expurgo de 1990, a capoeira no Pelô não era só pra turista ver
Muito antes da reforma / expurgo de 1990, a capoeira no Pelô não era só pra turista ver |  Foto: José Kalkbrenner | Divulgação
 

“Você tem um conjunto de imagens que estabelece um conceito de uma época lá de trás, e um conjunto de imagens de hoje que falam do presente, do que mudou, do que tá se passando. O objetivo ali é de fazer a junção dessas duas situações para que elas se harmonizem e deem uma ideia para os visitantes do quanto se mudou e do quanto se manteve. Tem traços que são determinantes. É bacana fazer essa dobradinha, transitar entre esses dois mundos no mesmo momento. É um trabalho de resgate de história, de reverberação”, reflete Mário.

Além disso, Aiala descreve os sentimentos para a reabertura do museu como “pura empolgação”. “É uma sensação maravilhosa. Apesar de eu ser a coordenadora do museu, eu adoro fazer monitoria, visitação pública, ir para as exposições, tirar dúvidas… Estava o tempo todo esperando por esse momento. apesar da gente estar revivendo os medos da pandemia, com os casos crescendo não só da COVID-19 como também da influenza, a gente vai abrir com toda segurança. Mesmo com todo esse turbilhão de coisas negativas que se vive, estamos muito felizes em reabrir as portas. Estamos sempre aqui recebendo pesquisador, estudante, e com o museu aberto, vai ser melhor ainda”, declara.


Serviço

O quê: Exposições Olhares Plurais e Salvador de Múltiplos Encantos

Onde: Museu Tempostal (Rua Gregório de Mattos, 33, Pelourinho)

Quando: A partir desta sexta-feira, 14

Visitação: terça a sexta-feira, das 10h às 16h, e aos sábados, das 12h às 16h

Entrada: Gratuita

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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