Viga Gordilho celebra 50 anos de carreira com exposição no MAB

Artista apresenta 90 obras que representam momentos da trajetória

Publicado segunda-feira, 16 de maio de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 15/05/2022, 16:08 | Autor: Júlia Lobo*
Pinturas, fotografias, livros e objetos compõem o acervo da artista na exposição
Pinturas, fotografias, livros e objetos compõem o acervo da artista na exposição -

Com mais de 90 obras que representam momentos pontuais do trabalho, a artista visual Viga Gordilho abre exposição que celebra 50 anos de carreira. Intitulada ComparTRILHAmentos Poéticos - Vida e Obra, a mostra reúne pinturas, fotografias, livros e objetos marcantes da trajetória, além de peças mais recentes criadas durante a pandemia. 

Sediada no Museu de Arte da Bahia, a mostra explora as salas do local com a criação de ambientes que dialogam com temáticas das obras. Cada ambiente faz parte de uma trilha, como diz o próprio nome da exposição, que leva o público para dentro da história e do processo criativo da artista ao longo do tempo.

O percurso é construído por quatro espaços. O primeiro deles, nomeado Terra, faz referência às pesquisas científicas desenvolvidas por Viga, que ligam arte, botânica e a presença da vida. As obras expostas são banhadas em pigmento preto e ouro feito das folhas sagradas, com organismos de fibra colocados sobre elas. Já as fotografias das folhas em  ouro e cobre estão no ambiente Fogo.

Trilhas de Cristal, uma instalação com 99 folhas de cristal penduradas compõem o espaço Ar. Por último, mas não menos importante, vem o ambiente chamado de Água pela artista. Três paredes do MAB são ocupadas pelos trabalhos macerados por lápis-lazúli e formam a “parede da memória”. Nela, Viga posiciona o primeiro livro de desenho e a primeira aquarela pintada por sua mãe, aos 17 anos. 

“Essa aquarela ela deixou para mim, está lá porque tem muita semelhança com a minha produção de obras, como eu trabalho com plantas raras, de árvores que estão em extinção, então travou um diálogo bonito na composição”, diz Gordilho. 

Para finalizar a trilha, quem visita a exposição também encontra as salas Quatro Estações do Ano, permeada pelas obras mais coloridas, e a Diálogos Possíveis. Esta última retrata uma parte importante da carreira da artista, que também é pesquisadora e professora na Escola de Belas Artes (EBA) da Ufba. 

Diálogos Possíveis é composta por 18 obras dos orientandos da pós-graduação. A relação entre os alunos e a professora fica clara tanto nas obras quanto na pesquisa, já que escolheram Viga para guiá-los diante da identificação com os conceitos trabalhados por ela. À exemplo das pesquisas sobre pigmentos, com os corantes naturais brasileiros. 

“É uma sala que faz uma aproximação entre professor e aluno. Tem um em que eles reproduziram o perfume que eu uso, tem uma outra que fez a tecnologia, fez fotografias minhas contando como orientei ela. Eu achei a possibilidade de homenageá-los, porque a gente também aprende muito dando aula”, afirma Viga. Na sala ainda é possível encontrar uma prancheta da artista e bancos, onde os visitantes podem sentar e manusear algumas das produções dela.  

Seleção

A curadoria da ComparTRILHAmentos Poéticos - Vida e Obra foi feita por Luiz Alberto Freire. Também professor da EBA, ele conhece Viga Gordilho há mais de 30 anos e acompanhou a produção mais nova da artista, feita durante a pandemia. Para ela, não havia dúvidas de que seria ele o curador da exposição, que intercala as obras antigas às recentes. 

“Nessas obras mais novas eu teci vários casulos, com linhos e crisálidas, tingindo fibras com folhas sagradas, buscando a tonalidade nas próprias folhas. Depois eu pintei esses casulos em telas grandes, então a exposição cresceu muito, ela superou todas as minhas expectativas”, confessa Gordilho.

Os organismos, como chama Viga, foram tecidos quando a artista voltou do hospital após contrair a covid-19. O ateliê, instalado na própria casa, serviu como cura e reflexão para as produções.

Conhecimento partilhado 

A exposição ainda ofereceu um workshop na semana de abertura, entre 2 e 9 de maio. Em Transparências e Fragilidades Atemporais, os alunos, em sua maioria estudantes da Escola de Belas Artes, aprenderam modelagem com fusão de vidro, usando garrafas recicláveis. As aulas foram ministradas pela artista portuguesa Teresa Almeida, orientadora de Gordilho no pós-doutorado em Portugal. As obras resultantes do workshop serão unidas à instalação Trilhas de Cristal hoje (segunda-feira, 16)

“São muitas trilhas compartilhadas, muita história de vida, muito processo de criação compartilhado, muita pesquisa (...) como sou uma artista pesquisadora, são várias técnicas, objetos, tem objetos de vidro que é uma coisa inédita na Bahia, tem a pintura com pigmentos naturais, a eternização com metais preciosos, então eu tô trazendo muita coisa nova, muita linguagem nova para Bahia”, entende Viga. 

A exposição ComparTRILHAmentos Poéticos - Vida e Obra está disponível no MAB até 19 de junho, com possibilidade de prolongamento por mais dez dias. No dia 8 do mesmo mês e local, a artista comanda a palestra “Registros e Reflexões  Sobre o Processo Criativo”. Na apresentação, contará sobre o processo de criação das telas, curadoria e preparação da exposição. 

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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