Proposta de taxação de livros e fechamento de livrarias marcam Dia da Leitura 2020

Publicado segunda-feira, 12 de outubro de 2020 às 06:00 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Victor Rosa

Além do Dia das Crianças e do Dia de Nossa Senhora Aparecida, o 12 de outubro também é marcado pelo Dia da Leitura. Apesar de ser uma data para se comemorar, a edição deste ano é caracterizada por um dia de luta de editoras, escritores e leitores frente a situações como a proposta de taxação de livros e fechamentos de livrarias em todo Brasil.

Em junho deste mês, o ministro da Economia Paulo Guedes enviou a primeira parte da proposta de reforma tributária do governo. No texto, o setor de livros que, atualmente, não paga impostos e é protegido dessa cobrança pela Constituição Federal, estaria sujeito à alíquota prevista de 12%.

O presidente da Academia de Letras da Bahia (ALB), Joaci Goés, considera absurda a taxação e destaca que as bancadas da Bahia presentes na Câmara e no Senado teriam reagido de modo solidário aos protestos encaminhados pela ALB.

“Se, por absurdo, essa tributação imprópria for aprovada, o que não creio, a educação e a cultura brasileiras, que andam mal, piorariam ainda mais”, pontua Joaci.

Imagem ilustrativa da imagem Proposta de taxação de livros e fechamento de livrarias marcam Dia da Leitura 2020
Presidente da ALB, Joaci Goés analisa taxação dos livros como absurda | Foto: Divulgação

A tributação dos livros é uma preocupação que assombra não apenas membros da Academia, mas donos de editoras, escritores e leitores, que serão impactados pelo aumento no preço final do livro.

O fundador da editora baiana Caramurê, Fernando Oberlaender, acredita que a taxação não é ruim apenas para a economia, mas também é perigosa por carregar um viés ideológico.

“O aumento da taxação é ruim para economia como um todo, com um impacto em 35% de aumento de taxa tributária. É absurdo em um país que está na miséria. Essa carga tributária vai atingir classe média e baixa, diretamente. Por outro lado, a gente percebe claramente que este aumento tem um viés ideológico, que torna muito mais grave para o livro”, comenta Fernando.

“O projeto é fatal para escritores independentes e um crime contra a indústria do livro. O livro é um objeto do bem e é justamente o que este governo vai contra”, completa o editor.

Imagem ilustrativa da imagem Proposta de taxação de livros e fechamento de livrarias marcam Dia da Leitura 2020
Fundador da Caramurê, Fernando vê taxação dos livros como viés ideológico | Foto: Divulgação

Livrarias físicas

Além da taxação dos livros, as livrarias físicas - a exemplo da Saraiva e Cultura - passam por sérias dificuldades financeiras em uma tentativa de se adaptar ao novo mercado de livros, muito voltado ao virtual e com a concorrência agressiva de varejistas como a Amazon.

>> Saraiva fecha todas as lojas de Salvador

>> Livraria Cultura recorre contra decisão para evitar falência

Fernando e Joaci observam este movimento como natural e inevitável. Para o fundador da editora Caramurê, o modelo de vendas em livrarias físicas possui uma série de erros no mercado de livros que já acontecem desde antes da pandemia.

“A quebra da Cultura e Saraiva já estava prevista há algum tempo. Livro impresso é economia de escala, quanto mais livros você imprime, mais barato fica. Se a Amazon compra uma tiragem grande de um livro, ela barateia o custo do livro e quebra as outras livrarias que recebiam tiragem menores”, ressalta Fernando.

Isso explicaria os livros nas livrarias físicas serem mais caros do que em sites como o da Amazon. O presidente da ALB também acredita que a venda de livros por meios virtuais veio “para ficar”.

>> Editoras e livrarias baianas fortalecem presença digital durante a pandemia

Ambos profissionais da área acreditam que as livrarias físicas vão se reinventar, dando espaço para os pequenos e médios negócios, mais regionalizados e especializados.

“No sistema de venda presencial que até agora vigorou, continuará havendo espaço para pequenas livrarias especializadas em temas específicos e dotadas de espaço para a convivência dos frequentadores, como café, lanchonete e ambiente de consulta e leitura”, analisa Joaci Goés.

“O mercado livreiro, depois que acalmar, vai se reinventar com o antigo. A pequena livraria vai voltar, com um atendimento personalizado. A tendência é da pequena livraria, com atendimento melhor, atendendo um público específico. Em compensação, as grandes redes como Amazon ficam vendendo os best sellers em quantidade gigantesca e bem baratinho”, acrescenta Fernando Oberlaender.

Escritores e leitores

Outras duas categorias também são afetadas diretamente pelo imbróglio que cerca a taxação dos livros e a reestruturação do mercado literário: escritores e leitores.

Para a autora e jornalista Brenda Sales, ser escritor no Brasil é difícil, principalmente, por conta do mercado, que precisa de lucro e acaba encarecendo o valor da obra, tornando-a inacessível.

“Recebo mensagens de várias pessoas que querem me ler, mas não podem comprar o livro e me perguntam se os disponibilizo gratuitamente, ou seja, eu (e muitas outras pessoas) não posso simplesmente abandonar minha profissão para tentar viver de direitos autorais”, lamenta.

Brenda tem um livro publicado e participação em diversas antologias de contos, crônicas e poemas. Desde pequena, ela gostava de ler contos de fadas e, na pré-adolescência, começou a ler romances e a escrever em cadernos e diários.

Imagem ilustrativa da imagem Proposta de taxação de livros e fechamento de livrarias marcam Dia da Leitura 2020
Brenda Sales tem um livro publicado e participação em diversas antologias | Foto: Arquivo Pessoal

“Comecei escrevendo frases e textos em formatos bem livres e, logo depois, passei para a poesia. Ao final da adolescência que percebi que gostava mais de escrever ficção, então passei a me aventurar mais pelos contos e romances”, comenta a escritora.

No início deste ano, Brenda iria lançar um livro de poesias que já está pronto, mas teve que ser adiado para o final de 2020 por causa da pandemia do novo coronavírus.

A leitura desde criança também foi presente na vida da estudante de Letras Ana Luiza Moraes. Ana tem sua primeira recordação de leitura aos quatro anos, com os pais lendo e mostrando quadrinhos da Turma da Mônica.

“É muito interessante como a gente percebe, principalmente revendo histórias que lemos quando jovens, como a bagagem de vida - isso falando de questões como emocional, experiências com novas pessoas e com toda uma sociedade que vai além da escola - impacta na nossa leitura”, comenta Ana Luiza, que teve na leitura também um fator importante na decisão de qual curso fazer na faculdade e qual carreira profissional seguir.

Tanto Ana quanto Brenda lamentam que o mercado de livros esteja passando por momentos conturbados, o que dificulta até que elas consigam manter uma rotina de leituras.

Imagem ilustrativa da imagem Proposta de taxação de livros e fechamento de livrarias marcam Dia da Leitura 2020
Leitora desde os 4 anos, Ana Luiza optou por cursar letras por conta da paixão com os livros | Foto: Arquivo Pessoal

“Sei que existe toda uma complexidade quando falamos de livros, porque temos muitos profissionais por trás para trazer os livros em boa qualidade, ao mesmo tempo que a gente entende que cobrar mais de R$ 40 em um livro é algo que fica inacessível para a maioria das pessoas”, destaca Ana.

Conselho: leia e escreva!

Um conselho em comum de Joaci, Fernando, Brenda e Ana para todos aqueles que gostariam de começar a escrever e para aqueles que gostam de ler e se sentem desestimulados é: leia e escreva sempre, independente da situação.

Segundo Fernando Oberlaender, a leitura desenvolve mais a técnica e, com ela, se conhece melhor o pensamento humano e a literatura. “Temos também que acreditar no livro e no potencial dele de transformar as pessoas”.

Joaci Góes destaca que, neste momento, com os celulares, nunca se leu tanto e que o livro físico não deixará de existir. “Na verdade nunca se leu tanto! O celular é mais usado para mensagens escritas do que para conversação ao vivo. O livro físico não deixará de existir, pelo conforto que oferece, conquanto avance muito expressivamente a leitura por meios eletrônicos”.

Já Brenda Sales orienta que se aproveite a internet para buscar por leituras acessíveis. “A internet de fato nos permite ter acesso a muito conteúdo interessante. A maioria dos clássicos da literatura estão disponíveis em domínios públicos, em bibliotecas públicas e muitos escritores incríveis tem disponibilizado seus livros gratuitamente em diversas plataformas online”.

Ana Luiza aconselha ter um caderno a todo momento ao lado para qualquer tipo de anotação. “Escreva o que está sentindo, o que quer falar para o outro, o que você sonhou, o que imagina. Escreva fanfic e outras histórias. O treino e a constância na escrita é o que vai levar para a obra que você vai sentir orgulho”.

Publicações relacionadas