ECONOMIA
Eleições e juros altos: como investir em um cenário de incertezas
Especialista explica que o investidor deve continuar com foco nos fundamentos econômicos


Um ano marcado por alta volatilidade em ano eleitoral, juros elevados e incertezas fiscais, aumentam ainda mais as dúvidas entre investidores para o segundo semestre de 2026. O movimento mais arriscado no mercado exige maior cautela, diversificação e disciplina.
Para o economista Daniel Abrahão, apesar do aumento da sensibilidade dos ativos nos próximos meses devido o calendário político, o investidor deve continuar com foco nos fundamentos econômicos porque parte relevante desse risco já está incorporada aos preços, ou seja, já está precificada.
"Quando um candidato sobe nas pesquisas, a remarcação acontece em tempo real. A cautela que recomendo não é tentar adivinhar o resultado das urnas. É garantir que a carteira esteja alinhada ao perfil de risco, ao horizonte e aos objetivos financeiros de cada investidor. O erro mais caro nesses períodos costuma ser a mudança brusca de posição motivada por ansiedade", disse ele.
Oscilações maiores, mas dentro do histórico do mercado
Abrahão explica que geralmente cenários de maior tensão política costumam gerar oscilações adicionais, mas não necessariamente mudanças permanentes de tendência.
"Olhando os ciclos anteriores, o que vejo são oscilações adicionais, não mudanças permanentes de tendência. Estudos apontam que a volatilidade média mensal do Ibovespa sobe de 27,3% para 30,2% em anos eleitorais, um avanço de 10,6%. É mais movimento, sim, mas dentro do histórico do mercado", explica o especialista.
Na prática, a leitura da assessoria de investimentos é que inflação, juros, atividade econômica e trajetória das contas públicas continuam sendo os principais fatores para Bolsa, câmbio e renda fixa, com impacto mais duradouro do que eventos pontuais do calendário político.
Quais ações devem ser mais atrativas
Daniel Abrahão explica que as ações mais atrativas estão ligadas a cada perfil e objetivo individual do investidor. Para o especialista, os juros altos podem ser oportunidade para ativos menos ariscados.
"Jjuros elevados por período prolongado pressionam mais os setores dependentes de crédito e de consumo discricionário, como varejo e construção civil, e ao mesmo tempo tornam a renda fixa uma concorrente relevante na alocação", diz o economista.
Ele explica também que a oscilação de câmbio pode ter comportamentos diferentes em cada ativo, como os setores exportadores e ligados a commodities, pois estes têm receita dolarizada. Já setores com receitas mais previsíveis e contratos indexados, como utilities, costumam ter comportamento mais defensivo em momentos de estresse"
"Isso é dinâmica setorial. É importante ressaltar que movimentos de correção nem sempre significam deterioração estrutural das empresas e podem permitir reposicionamentos a preços mais atrativos. Mas quem define se esse reposicionamento faz sentido é a estratégia individual. Não existe 'a ação do semestre'. Existe a carteira adequada ao objetivo de cada investidor", continuou ele.
Responsabilidade fiscal segue no radar
O economista lembra que momentos de maior estresse costumam estar associados a dúvidas sobre a condução econômica, e não apenas ao processo eleitoral.
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“O mercado não teme eleições; teme indicações de que a próxima administração ignorará responsabilidade fiscal”, afirma.
Essa percepção ajuda a explicar por que anúncios relacionados a gastos públicos, arrecadação e reformas estruturais continuam sendo monitorados de perto pelos investidores institucionais.
Planejamento deve prevalecer sobre o ruído de curto prazo
Daniel Abrahão recomenda que o investidor evite mudanças bruscas de carteira motivadas por ansiedade e deve manter estratégias construídas para o longo prazo.
“Um investidor com planejamento sólido, carteira diversificada e horizonte adequado não precisa se preocupar com ciclos eleitorais. A estratégia fundamental não muda. Quando houver, os ajustes devem ser apenas táticos”, afirma.
O economista acrescenta que a diversificação continua sendo um dos principais instrumentos de proteção em momentos de incerteza e que decisões de investimento devem partir do perfil de risco e dos objetivos financeiros de cada cliente.
Quedas podem abrir espaço para novo posicionamento
Mesmo em um ambiente mais desafiador, Abrahão reforça que há espaço para oportunidades seletivas em ativos de qualidade. “Movimentos de correção nem sempre significam deterioração estrutural das empresas e podem permitir reposicionamentos a preços mais atrativos”, explica.
Abrahão recorda ainda o comportamento histórico do mercado após períodos de maior incerteza, como nas eleições de 2002, quando o Ibovespa acumulou retorno de 295% entre 2003 e 2006, após um momento considerado de máxima tensão pelos investidores.
"Enxergo as eleições de 2026 como um ciclo normal de volatilidade. Faço uma ressalva de horizonte: renda variável exige prazo. Quem tem necessidade de liquidez no curto prazo não deveria estar exposto a essa volatilidade, independentemente do momento de mercado. Um investidor com planejamento sólido, carteira diversificada e horizonte adequado não precisa se preocupar com ciclos eleitorais. A estratégia fundamental não muda, e os ajustes, quando houver, devem ser apenas táticos", finaliza ele.


