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NOVO CENÁRIO

Seguros a partir de R$ 6 chegam às favelas e protegem negócios

Iniciativas unem seguradoras e lideranças comunitárias, além de ajudar a quebrar mitos históricos

Yuri Abreu
Por
Vista de moradias no bairro de Cosme de Farias, em Salvador
Vista de moradias no bairro de Cosme de Farias, em Salvador - Foto: Joá Souza/Ag. A TARDE

Durante décadas, vigorou no Brasil a premissa de que o mercado de seguros seria restrito às camadas mais abastadas da sociedade.

Nas favelas e periferias, que hoje abrigam mais de 20 milhões de pessoas e movimentam bilhões de reais em atividades comerciais, a ausência de proteção securitária funcionava como uma espécie de "embargo econômico informal".

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Sem acesso a apólices adaptadas às suas realidades, pequenos empreendedores e famílias de baixa renda ficavam expostos ao risco de perda total de seus meios de vida diante de qualquer imprevisto elétrico, furto, acidente ou evento climático.

Entretanto, esse cenário passa por uma mudança impulsionada pela união entre as seguradoras e lideranças comunitárias do país.

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Proteção como direito e protagonismo comunitário

O conceito de patrimônio nas favelas vai muito além do imóvel tradicional. Ele abrange, por exemplo, os instrumentos de trabalho diários: a batedeira da boleira, o secador da cabeleireira, a moto do entregador e o veículo do motorista de aplicativo.

A quebra dessa barreira da invisibilidade é um dos pilares defendidos por Gilson Rodrigues, baiano nascido na cidade de Itambé (região sul do estado) e fundador do G10 Favelas — organização criada na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, que está presente em 14 estados brasileiros, entre eles a Bahia.

"Durante muito tempo falavam que a favela não tinha patrimônio e que a gente não tinha o direito de se proteger. O que nós estamos mostrando é que patrimônio é a casa construída, é o motoqueiro que faz a entrega, é o motorista de aplicativo", afirmou ele ao portal A TARDE.

Gilson Rodrigues, fundador do G10
Gilson Rodrigues, fundador do G10 - Foto: Yuri Abreu/Ag. A TARDE

"A favela tem seu patrimônio e também precisa de proteção. Nos separavam em muros invisíveis entre quem podia e quem não podia se proteger. Em momentos de vulnerabilidade e de catástrofes climáticas, essa população precisa de segurança para pensar no seu futuro", completou.

Ele enfatiza que a estratégia para romper o distanciamento do mercado passa por aproximar as linguagens e dar visibilidade aos projetos. Um exemplo é a parceria desenvolvida com a Mapfre Seguros, por meio do programa "Mapfre na Favela".

Desmistificando linguagens e rompendo preconceitos

Apesar desses passos, o acesso ao seguro nas periferias enfrenta desafios técnicos e culturais. O uso de vocabulário distante da realidade da maioria das pessoas que moram nesses locais e a mística de que apólices demandam investimentos inalcançáveis acabaram afastando os consumidores de baixa renda por gerações.

Para desatar esse nó, a Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) e as empresas do setor têm investido na tradução de conceitos e na integração das comunidades ao ciclo de negócios.

Dyogo Oliveira, presidente da CN Seg
Dyogo Oliveira, presidente da CN Seg - Foto: Yuri Abreu/Ag. A TARDE

"Um dos grandes desafios é conectar uma indústria tradicional com a realidade de pequenos negócios e patrimônios dentro da favela. A indústria se desenvolveu com linguajar jurídico e técnico, e nós estamos fazendo esse papel de tradutor", pontuou Dyogo Oliveira, presidente da CNSeg.

"Precisamos desmistificar duas coisas: o preço e a ideia de que seguro é para rico. É exatamente o contrário: o rico tem capital para repor bens imediatamente; quem precisa do mutualismo do seguro é quem não é rico, pois, se perder o que tem, perde tudo", acrescentou o dirigente.

Valores desenhados para o "Brasil real"

As seguradoras adaptaram seu portfólio para atender às necessidades reais do trabalhador autônomo, dispensando burocracias como a exigência de CNPJ para a proteção de equipamentos comerciais de pequeno porte.

Coberturas da Favela Seguros

Com um modelo de distribuição em que o corretor é morador da própria comunidade, a Favela Seguros aposta na geração de renda e na proximidade territorial:

Plano Básico (a partir de R$ 6/mês): auxílio e assistência funeral, garantindo dignidade às famílias e evitando "vaquinhas" emergenciais.

Módulos Adicionais: capital por morte, serviços de telemedicina e assistências complementares.

Coberturas do Mapfre na Favela

Desenhado a partir de escuta ativa realizada nas comunidades desde o fim de 2022, o programa apoia tanto o empreendedor pessoa física quanto a família:

Mapfre do Meu Trampo (A partir de R$ 120/ano): seguro voltado ao microempreendedor associado ao CPF. Cobre ferramentas de trabalho (batedeiras, secadores, instrumentos) contra danos elétricos ou sinistros no próprio ambiente residencial de trabalho.

Mapfre Minha Vida Básico (R$ 42,90/ano): proteção decesso/funeral com descontos em medicamentos.

Mapfre Minha Vida Completo (~R$ 119/ano): inclui auxílio funeral, diária de internação hospitalar (repondo a renda do trabalhador autônomo parado), descontos em exames e consultas, além de atendimento via telemedicina em até 30 minutos.

"O Real Brasil é feito de 80% de pessoas sem seguro. Quando acontece um imprevisto, há risco real de descendência social. Desenhamos produtos para as reais demandas: se a boleira faz bolo na cozinha de casa, seguramos o espaço pelo CPF", contou Ivo Kanashiro, superintendente de Sustentabilidade da Mapfre.

Ivo Kanashiro, superintendente de Sustentabilidade da Mapfre
Ivo Kanashiro, superintendente de Sustentabilidade da Mapfre - Foto: Yuri Abreu/Ag. A TARDE

"Se o trabalhador autônomo se acidenta, a diária hospitalar garante o pagamento das contas básicas. Além do mais, a telemedicina evita que o profissional perca quatro horas na fila de um posto de saúde, permitindo atendimento rápido para que ele volte ao trabalho", complementa.

Inclusão e expansão no estado da Bahia

A Bahia tem papel considerado estratégico na expansão dessa nova cultura. A Favela Seguros é uma das entidades que já estrutura sua atuação no estado, integrando a equipe ao ecossistema local. A meta da empresa é formar corretores qualificados dentro do próprio território baiano.

"Nossa atuação é da favela para a favela: quem compra e quem vende é morador da própria comunidade. Treinamos e certificamos as pessoas, em parceria com a ANS, como corretores de microseguros. Isso gera legado, movimenta a economia interna do território e traz dignidade. A Bahia já está incluída entre os oito estados prioritários de expansão e contamos com equipe local atuando em Salvador", afirma Ronaldo Gama, head da Favela Seguros.

Ronaldo Gama, head da Favela Seguros
Ronaldo Gama, head da Favela Seguros - Foto: Yuri Abreu/Ag. A TARDE

Na mesma linha, o programa Mapfre na Favela possibilita a contratação digital em todo o território baiano por meio do site oficial (mapfrenafavela.com.br).

Bahia lidera mercado de seguros na região Nordeste em 2026

O avanço das iniciativas de democratização do seguro coincide com a consolidação da liderança econômica da Bahia no setor securitário nordestino. De acordo com os dados consolidados do primeiro semestre de 2026, o estado mantém ritmo constante de expansão técnica e financeira.

Arrecadação global e hegemonia

  • Faturamento total: o setor segurador (sem Saúde Suplementar) arrecadou R$ 6,77 bilhões (R$ 6.774,05 milhões) na Bahia no acumulado do primeiro semestre de 2026, representando um crescimento nominal de 5,1% em relação ao mesmo período de 2025.
  • Hegemonia regional: a Bahia consolida sua liderança, sendo responsável por 80,3% de toda a arrecadação da sua Região Sindical (que engloba também Sergipe e Tocantins).
  • Participação nacional: o mercado baiano responde por 3,3% de todo o setor segurador do Brasil.

Desempenho por segmento (arrecadação x prêmios)

  • Previdência aberta (principal motor de volume): movimentou R$ 3,28 bilhões (+12,7%). O grande destaque foi o plano VGBL, que somou R$ 3,16 bilhões (+12,9%), enquanto os planos PGBL arrecadaram R$ 117,21 milhões (+8,5%).
  • Seguros de automóvel: arrecadou R$ 1,29 bilhão, apresentando crescimento de 8,9% no estado.
  • Seguros de pessoas: alcançaram R$ 1,00 bilhão (+6,7%), impulsionados pelo seguro de vida (R$ 491,04 milhões; +10,7%) e prestamista (R$ 282,01 milhões; +11,5%). O seguro-viagem teve a maior alta percentual do ramo (+29,2%), atingindo R$ 6,53 milhões.
  • Seguro patrimonial e massificados: a carteira patrimonial somou R$ 348,73 milhões (-42,5%). Contudo, os seguros massificados avançaram +4,2% (R$ 181,85 milhões), puxados pelo Seguro Residencial (R$ 99,69 milhões; +8,3%) e Condomínio (R$ 11,15 milhões; +7,7%).
  • Capitalização: arrecadou R$ 487,25 milhões (-2,9%).

Injeção na economia: indenizações pagas à sociedade

  • Total em danos e responsabilidades: as seguradoras pagaram R$ 276,74 milhões em indenizações por sinistros na Bahia no primeiro semestre de 2026, alta de 3,3% na comparação anual.
  • Veículos: indenizações somaram R$ 138,65 milhões.
  • Patrimonial: totalizou R$ 35,53 milhões (+6,8%), sendo R$ 13,53 milhões destinados a sinistros residenciais (+3,6%).
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empreendedorismo favelas inclusão financeira seguros

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