EDUCAÇÃO
Educação abre novos caminhos para mulheres quilombolas de Simões Filho
Moradoras do Rio dos Macacos superam dificuldades de acesso para concluir os estudos


Aos 25 anos, mãe de dois filhos e moradora do Quilombo Rio dos Macacos, Joselane Santos da Silva decidiu voltar à escola. Estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal Professor Enock Pimentel Tourinho, na Ilha de São João, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, ela encontrou na sala de aula a possibilidade de retomar planos interrompidos e buscar novas perspectivas profissionais.
Nascida e criada na comunidade quilombola, Joselane acompanhou mudanças na infraestrutura e no acesso a serviços ao longo dos anos. As lembranças da infância incluem estradas de chão, casas de taipa e o deslocamento até a escola a pé.
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“Antigamente, a estrada era de chão e nossa casa era de taipa. A gente ia para a escola de pé. Hoje temos asfalto, casas de bloco e o transporte escolar vem buscar na porta”, conta.
Segundo ela, parte dessas transformações foi resultado da mobilização dos próprios moradores, que se organizaram para reivindicar melhorias e o reconhecimento de direitos da comunidade.
Depois de se tornar mãe e assumir responsabilidades da vida adulta, Joselane interrompeu os estudos, mas decidiu voltar à escola. Para ela, a EJA representa uma oportunidade de recomeço que não está limitada à idade.
“Não é só oportunidade para os jovens. É também para quem é mãe e para quem é idoso. Nunca é tarde para voltar a estudar”, afirma.
A experiência também se aproxima da trajetória de familiares e vizinhos. De acordo com Joselane, irmãos, parentes, cunhada e moradores da comunidade passaram pela escola ou também decidiram retomar os estudos.
Agora, ela pretende concluir a formação e buscar uma profissão. O empreendedorismo também aparece entre os planos para o futuro. “Eu estudo e vou conseguir realizar os meus sonhos”, diz.
No período noturno, a escola oferece, além da EJA, cursos de qualificação profissional por meio do EJA Pro, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A proposta associa a retomada da escolarização à formação para o trabalho, ampliando as possibilidades para estudantes que buscam novas competências profissionais.
Para Joselane, as duas experiências estão relacionadas. Estudar e se qualificar fazem parte de um mesmo projeto de vida, que envolve melhorar as próprias condições e oferecer novas perspectivas aos filhos.
“Só voltando para a escola estou percebendo que veio um objetivo de melhora de vida para mim e para os moradores dessa localidade”, afirma.
Aos 40, Rosilene também voltou
Aos 40 anos, Rosilene Messias dos Santos de Souza também decidiu retornar à sala de aula. Nascida e criada no Quilombo Rio dos Macacos, comunidade localizada na região de divisa entre Salvador e Simões Filho, ela retomou os estudos na mesma unidade escolar.
O retorno, porém, não foi simples. As condições de acesso ao quilombo, a distância e a falta de iluminação em alguns trechos dificultam o deslocamento de moradores, especialmente durante a noite. A comunidade se mobilizou para que o transporte escolar pudesse chegar mais próximo das residências.
“Lutamos para conseguir uma estrada para que o escolar pudesse entrar e pegar a gente na porta de casa”, relata Rosilene.
Apesar das melhorias, ela afirma que ainda existem trechos que precisam de intervenções e locais sem iluminação. Para Rosilene, resolver essas dificuldades é importante para que mais moradores possam frequentar a escola. “Só conseguimos as coisas lutando dia após dia”, resume.
De volta aos estudos, Rosilene comemora avanços que ultrapassam o ambiente escolar. O processo de aprendizagem ainda apresenta dificuldades, mas ela já consegue ler, escrever e utilizar o celular para se comunicar.
“Hoje estou muito feliz porque voltei a estudar. Estou lendo, escrevendo e, ainda com algumas dificuldades, já envio mensagens e leio pelo WhatsApp depois que voltei para a escola”, conta.
A conquista também teve efeito sobre outras pessoas próximas. Irmãs, sobrinhas e moradores do quilombo foram incentivados por ela a iniciar ou retomar a vida escolar.
A história de Rosilene demonstra uma realidade comum entre estudantes da EJA: a interrupção dos estudos pode ocorrer por razões familiares, profissionais, econômicas ou relacionadas às condições de acesso. O retorno, por outro lado, pode representar a recuperação de uma autonomia que antes parecia distante.
Mesmo com a própria conquista, ela afirma que ainda pensa nos moradores que permanecem fora da escola. “Fico triste porque ainda tem muita gente querendo estudar”, diz.
Educação como recomeço
As trajetórias de Joselane e Rosilene se encontram em um ponto comum: o retorno à escola como possibilidade de construir novos caminhos. No Quilombo Rio dos Macacos, marcado por uma história de mobilização comunitária, a EJA se soma a esse processo ao oferecer aos moradores a oportunidade de continuar a formação.
Para Joselane, a experiência também tem um significado para os filhos e para as próximas gerações. “Nunca desista dos seus sonhos, porque um dia eles podem virar realidade”, afirma.


