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"EXÉRCITO DO LULA"

Cientistas criticam decisão do TSE e pedem imparcialidade nas eleições

Carta aberta também pede investigação sobre uso de criptomoedas em propaganda eleitoral

Leo Almeida
Por
Nunes Marques foi alvo de críticas de entidades cientítificas
Nunes Marques foi alvo de críticas de entidades cientítificas - Foto: Luiz Roberto | TSE
Eleições 2026

Oito entidades científicas e acadêmicas divulgaram uma carta aberta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na qual cobram critérios iguais para as candidaturas nas eleições presidenciais de 2026. O documento questiona a suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, determinada após pedido da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), e sugere uma investigação sobre denúncias de interferência no ambiente digital, incluindo o uso do chamado token B22 em propaganda eleitoral.

Entre as organizações signatárias estão a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O texto defende a remoção de publicações falsas e a responsabilização de seus autores, mas critica decisões que suspendam canais e perfis inteiros sem análise individualizada das condutas.

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“Não se trata de defender uma candidatura. Trata-se de impedir que a Justiça Eleitoral seja usada para silenciar eleitores, enquanto as interferências mais graves destas eleições seguem sem resposta”, afirma a carta obtida pelo portal A TARDE.

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Entidades questionam suspensão de canal

O documento cita a decisão do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, que determinou a suspensão do canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) e com mais de 3 milhões de participantes, após solicitação da campanha de Flávio Bolsonaro.

As entidades também mencionam pedidos da campanha do senador para suspender outros 32 perfis, remover 221 publicações e cassar o registro da chapa adversária. Segundo a carta, a campanha acusa uma rede de 1.525 contas de disseminar desinformação, mas reconhece que as publicações questionadas não partiram do perfil de Lula.

Para os signatários, eventuais conteúdos falsos devem ser retirados, com responsabilização dos autores. No entanto, a suspensão coletiva de canais e perfis, sem análise individual, pode atingir milhões de usuários e afetar o equilíbrio da disputa.

A carta pede que a suspensão do canal seja submetida com urgência ao plenário do TSE e que, caso sejam identificadas irregularidades, a medida seja substituída pela remoção das publicações específicas. Também defende que decisões dessa natureza sejam fundamentadas em provas concretas e assegurem o direito de defesa.

Investigação sobre token B22

Outro destaque do documento é o chamado token B22, que, segundo as denúncias citadas pelas entidades, teria oferecido criptomoedas em troca de publicações com pedidos de voto em Flávio Bolsonaro.

A carta afirma que o mecanismo teria enviado 120 milhões de tokens a um grupo de dança infantil de Uganda, que publicou um vídeo com crianças cantando uma mensagem eleitoral. O texto também aponta que o TSE suspendeu o mecanismo, mas cobra esclarecimentos sobre quem criou e financiou a iniciativa e quem teria obtido ganhos com ela.

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As entidades pedem prioridade na investigação do caso e a identificação dos responsáveis. Também solicitam perícia independente sobre denúncias envolvendo plataformas digitais, com comparação dos dados relativos às diferentes candidaturas.

O documento cita ainda levantamentos do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre anúncios que se passavam pela Justiça Eleitoral, publicidade irregular durante o período de proibição de propaganda paga e anúncios contra instituições democráticas.

A carta menciona, ainda, acusações da campanha de Lula de que a Meta teria restringido seletivamente o alcance de suas publicações. A empresa nega a acusação, segundo o texto, e o TSE determinou que a plataforma esclareça se aplica os mesmos critérios às duas campanhas.

Lula critica decisão de Nunes Marques

Nesta segunda-feira,12, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou a decisão de suspender o canal ligado à sua campanha e afirmou que o presidente do TSE não pode ter alinhamento político na condução do processo eleitoral.

“Para ele [Nunes Marques] achar que ele tem que cortar [o canal de WhatsApp], tem que mostrar qual a ilegalidade que tem. O que não pode é o presidente da Suprema Corte eleitoral ter lado na política. O lado dele tem que ser o da igualdade de comportamento. Da igualdade de procedimento”, declarou Lula após uma missa em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, no Palácio da Alvorada, em Brasília.

Segundo as informações divulgadas sobre o caso, um relatório técnico do TSE não identificou novas publicações com informações falsas sobre o candidato adversário no canal. A Assessoria de Enfrentamento à Desinformação da Corte, porém, apontou risco de disseminação em massa e uso de linguagem polarizadora às vésperas do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Entre os fatores destacados pelo relatório estão o alcance potencial das mensagens, o volume de encaminhamentos e a existência de orientações coordenadas para mobilizar seguidores e ampliar a circulação dos conteúdos.

Isonomia

Além da revisão da suspensão do canal, as organizações solicitam que o tribunal aplique os mesmos critérios a todas as candidaturas, investigue as denúncias relacionadas ao token B22 e divulgue as decisões e suas fundamentações.

Às plataformas digitais, pedem revisão humana dos anúncios eleitorais até o segundo turno e acesso de pesquisadores independentes aos dados necessários para analisar possíveis interferências.

A carta cita dispositivos do Código Eleitoral, da Lei das Eleições e da Resolução TSE nº 23.610/2019 para defender medidas contra práticas ilegais, ao mesmo tempo que invoca as garantias constitucionais de liberdade de expressão, contraditório e devido processo legal.

Além da ABC e da SBPC, assinam o documento o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), a Fasubra Sindical, a Proifes-Federação e o movimento Reitores pela Democracia.

Veja a carta na íntegra

Carta aberta ao Tribunal Superior Eleitoral em defesa da integridade e equilíbrio das eleições de 2026

Ao Tribunal Superior Eleitoral, às autoridades da República, às plataformas digitais e à sociedade brasileira

As entidades que assinam esta carta dirigem-se ao Tribunal Superior Eleitoral em um momento decisivo. Faltam duas semanas para o segundo turno, e o Tribunal já começou a tomar decisões que alteram as condições da disputa. Não se trata de defender uma candidatura. Trata-se de impedir que a Justiça Eleitoral seja usada para silenciar eleitores, enquanto as interferências mais graves destas eleições seguem sem resposta.

No domingo, 11 de outubro, atendendo a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal “Exército do Lula” no WhatsApp, administrado pelo deputado federal André Janones e com mais de 3 milhões de participantes. A mesma campanha pede ainda a suspensão de 32 perfis, a remoção de 221 publicações e a cassação do registro da chapa adversária, acusando uma rede de 1.525 contas de espalhar desinformação, embora os próprios autores reconheçam que nenhuma das publicações saiu do perfil do candidato adversário.

Se houve publicações falsas, elas devem ser removidas e seus autores responsabilizados. Mas calar em bloco canais e perfis de apoiadores de um candidato, por decisão individual e provisória, a duas semanas da eleição presidencial, é medida de outra natureza: atinge milhões de eleitores, desequilibra a disputa e cria um precedente perigoso para todas as eleições futuras. O próprio Tribunal já mostrou o caminho certo ao remover, nos últimos dias, publicações específicas de ambas as campanhas, com fundamentação. É esse padrão que deve prevalecer.

O contraste é evidente. A candidatura que pede a suspensão de canais adversários foi a beneficiária declarada de um dos esquemas mais graves de interferência destas eleições: o token B22, que ofereceu criptomoedas a quem publicasse pedidos de voto em Flávio Bolsonaro e enviou 120 milhões de tokens a um grupo de dança infantil de Uganda, que publicou um vídeo com crianças cantando uma mensagem eleitoral. O TSE suspendeu o mecanismo, a campanha nega envolvimento, e até hoje não se sabe quem o criou, quem o financiou e quem lucrou. Em teste independente, a Meta aprovou ainda uma montagem falsa em que Donald Trump declarava apoio ao mesmo candidato.

O ambiente digital destas eleições já está contaminado. O NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, encontrou anúncios que se passavam pela Justiça Eleitoral e ofereciam uma falsa “votação remota” a eleitores com problemas de saúde, 568 anúncios irregulares no período em que a propaganda paga era proibida e anúncios contra as instituições que renderam até R$ 2,1 milhões à Meta. A campanha de Lula acusa a Meta de restringir seletivamente o alcance de suas publicações, o que a empresa nega, e o TSE determinou que a plataforma explique se aplica as mesmas regras às duas campanhas. É esse tipo de verificação que deve valer para todas as denúncias.

A legislação oferece os instrumentos para agir com firmeza e equilíbrio. O Código Eleitoral pune quem oferece vantagem em troca de voto ou usa prêmios para atrair eleitores (arts. 299 e 334). A Lei das Eleições restringe a propaganda paga na internet e pune a captação ilícita de sufrágio (arts. 57-C e 41-A). A Resolução TSE nº 23.610/2019 proíbe remunerar quem divulga propaganda e responsabiliza as plataformas que não agem contra a desinformação. E a Constituição assegura a todos a liberdade de expressão, o contraditório e o devido processo legal, garantias que valem para os dois lados.

Por isso, pedimos ao Tribunal Superior Eleitoral que submeta com urgência ao Plenário a suspensão do canal “Exército do Lula”, substituindo-a, se for o caso, pela remoção das publicações irregulares; que não conceda suspensões coletivas de canais e perfis sem análise individual, prova concreta e direito de defesa, aplicando os mesmos critérios a todas as candidaturas; que dê prioridade à investigação do B22, identificando quem criou, financiou e lucrou com o token; que apure por perícia independente as denúncias contra as plataformas, comparando os dados de todas as candidaturas; e que torne públicas as decisões e seus fundamentos. Às plataformas, pedimos revisão humana dos anúncios eleitorais até o segundo turno e acesso de pesquisadores independentes aos seus dados.

A Justiça Eleitoral brasileira é reconhecida no mundo por sua integridade. É essa integridade que pedimos que seja preservada agora: rigor contra quem paga para manipular o debate, proteção a quem apenas manifesta sua opinião e respeito à palavra do eleitor.

11 de outubro de 2026

Assinam esta carta:

ABC – Academia Brasileira de Ciências

ANDES-SN – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior

ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior

ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos

FASUBRA Sindical – Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil

PROIFES-Federação – Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior

Reitores pela Democracia – Movimento Reitores pela Democracia

SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

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