
“Dark horse” é uma expressão usada para se referir a um “azarão”: aquele que entra em uma disputa com poucas chances de vencer, mas surpreende. Também é o título da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, que venceu a eleição de 2018. Se o pai passou a ser considerado um cavalo azarão com a vitória, o filho Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, tem enfrentado dificuldades tal qual um cavalo manco.
O escândalo envolvendo o filme ‘Dark Horse’ se tornou o maior problema da campanha eleitoral de Flávio, que caiu nas pesquisas eleitorais depois que veio à tona, em maio deste ano, a relação dele com dono do extinto Banco Master, Daniel Vorcaro.
Uma série de registros indicam a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar cerca de R$ 134 milhões para financiar a produção do filme, segundo o Intercept Brasil. Flávio confirmou que pediu os recursos, mas negou qualquer irregularidade.
Uma das perguntas que a Polícia Federal (PF) busca responder é se parte desse dinheiro foi usada para outras finalidades que não a produção do filme, inclusive para custear as despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Assim, surgiu um dos casos mais emblemáticos e sem precedentes na política recente do Brasil, que relaciona uma obra cinematográfica que ainda não chegou a ver a luz do dia, um presidenciável e possíveis crimes de corrupção e lavagem de dinheiro na “boca” de uma eleição.

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Flávio enfraquecido?
Para o cientista político e pesquisador Cláudio André de Souza, ouvido pelo portal A TARDE, o escândalo impactou de maneira significativa o grupo bolsonarista, porque havia uma leitura de que Flávio Bolsonaro “conseguiria se moderar, transitar melhor entre os eleitores de centro, apresentando uma campanha mais propositiva, e desde o início ele acaba sendo contestado pela liderança que ele tem nessa relação com o Vorcaro, a relação também com o Banco Master”.
Essa quantidade de casos de suspeita de corrupção acaba enfraquecendo ele. Eu penso que ele terá um grau de dificuldade, inclusive, de transitar entre o eleitorado dos outros candidatos, se tiver segundo turno, que é o mais provável. Cláudio André de Souza - cientista político
Segundo Cláudio, o impacto pode ser observado no nível de rejeição, já que Flávio herdou um grau muito grande de rejeição, parecido com o pai, e se coloca neste momento no maior desafio de conversar com esse eleitor que está fora da polarização.
A pesquisa mais recente da AtlasIntel/Bloomberg divulgada na terça-feira, 29, revelou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece na liderança da disputa pelo Palácio do Planalto no primeiro turno. O petista registrou 45,3% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 42,2%.
A diferença entre os dois é de 3,1 pontos percentuais. O levantamento ouviu 5.005 respondentes e tem margem de erro de 1 ponto percentual, conforme registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Cláudio André pontuou que, agora, é importante observar que Lula construiu na reta final algumas propostas e ações relacionadas ao governo que conseguem falar de maneira ampla com dois setores da sociedade: aqueles que recebem o Bolsa Família, um dos principais programas sociais no governo federal, e uma classe média que se vê impactada pelas Bets.
“Essas duas questões ajudaram o presidente a falar com o público mais amplo nas últimas semanas. Mas, obviamente, que Flávio, na relação que ele estabeleceu com o Banco Master e com a pessoa de Daniel Vorcaro, pode sofrer, sim, baixas no âmbito da intenção de voto”, destacou.
De acordo com o especialista, a dificuldade é como que isso será medido no âmbito das pesquisas eleitorais nessa reta final. Porém, na visão dele, esse é um movimento que pode simplificar até domingo, 4, dia da votação.
“Com a eleição para ser decidida com poucos pontos percentuais, eu penso que o grande desafio do presidente Lula é exatamente como enfrentar Flávio nessa questão. Ou seja, o grande desafio de Flávio é conter uma ampliação de contato de Lula com setores populares da classe média e da classe menos escolarizada e com menos renda”, explicou.
Escândalo sem precedentes na política recente do Brasil
Alguns fatos e escândalos mudaram o rumo das eleições presidenciais no Brasil, como uma facada, queda de avião, fake news, entre outras. No entanto, na política recente do país, nada se assemelha ao caso do Dark Horse/Banco Master/Flávio/Vorcaro, como apontou o cientista.
Eu não lembro de nenhum caso recente na democracia de um escândalo dessa natureza. Cláudio André de Souza - cientista político
Caso Roseana Sarney
Dentro desse contexto, é comumente citado o que aconteceu em 2002 com Roseana Sarney, a então governadora do Maranhão, que despontava como uma forte candidata de centro-direita e aparecia em segundo lugar nas pesquisas.
Em março daquele ano, uma operação da Polícia Federal apreendeu R$ 1,34 milhão em dinheiro vivo na sede da empresa Lunus Participações, da qual o marido de Sarney é sócio.
A imagem da candidata foi severamente arranhada. Roseana despencou nas pesquisas e acabou desistindo oficialmente de concorrer à Presidência, mudando completamente a dinâmica daquela eleição, vencida por Lula.
“Agora, eu penso que o escândalo do Dark Horse, na verdade, reforça essa relação espúria de Flávio e do pai, com a questão de dinheiro. Tem ali a presença de Fabrício Queiroz, que trabalhou no mandato de Flávio. Tem a presença da família do miliciano que foi morto aqui na Bahia, Adriano da Nóbrega. Tem várias suspeitas diretamente vinculadas à figura de Flávio como alguém suspeito”, ressaltou.

Legado do bolsonarismo comprometido: o que ficará para a história?
Ainda conforme o cientista político, o escândalo compromete o legado da família, mas é um legado que já existia e “estava em baixa”.
A figura de Bolsonaro na polarização já é criticada e rejeitada por mais da metade do eleitorado brasileiro. Cláudio André de Souza - cientista político
O historiador Murilo Mello destacou que o filme foi criado também por interesses políticos, e tudo que envolve presidentes e presidenciáveis tem uma chance muito grande de entrar para a história.
“Estamos falando de um possível chefe. Haverá seleção de memórias no futuro, e por questões ideológicas ou por interesses políticos o escândalo pode sim fazer parte da história contada no futuro, apesar de nós historiadores não prevermos o futuro, mas existe uma possibilidade”, enfatizou.
Cinema e política: é possível tirar algum ensinamento desse escândalo?
A reportagem também ouviu o cineasta baiano Lula Oliveira. O artista explicitou que o cinema e a política sempre caminharam historicamente em uma relação de debate e construção de políticas públicas.
“E esse processo de desenvolvimento e acesso aos recursos públicos foram democratizados de forma muito transparente através dos editais públicos. Dark Horse não tem nada haver com isso. Com esse histórico. A única coisa que pode nos ensinar é como não fazer um filme”, criticou.
O cineasta endossou o posicionamento de Cláudio André e disse que a sociedade está diante de algo sem precedentes.
“Uma investigação que envolve lavagem de dinheiro e candidato a presidente da República envolvido. Isso não tem precedentes. Filmes biográficos sobre políticos sempre existiram e sempre serão bem vindos”, complementou.
Mas nesse caso, não se trata apenas de um filme. É uma apropriação indevida da arte cinematográfica. Lula Oliveira - cineasta
“Como cineasta fico triste, mas continuamos na trincheira”, finalizou.
Caso Dark Horse na Justiça
A investigação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 22 de julho. A situação só veio a público em 10 de setembro, quando o presidente da Corte, Edson Fachin, retirou o sigilo de parte das investigações do caso Master.
A medida permitiu que viessem a público informações da PF e da Procuradoria-Geral da República(PGR) sobre o financiamento de Dark Horse, inclusive a identificação de Flávio como investigado e os elementos relativos à sua interlocução com Daniel Vorcaro.
Entre os pontos que a PF procura esclarecer estão:
- a origem dos recursos;
- o destino efetivo dos valores;
- se todo o dinheiro foi aplicado na produção;
- a razão de os pagamentos terem sido feitos por estruturas financeiras no exterior;
- se parte dos recursos teria custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos;
- se houve alguma contrapartida política ou legislativa em favor de Vorcaro ou do banco Master.



