Apoiado pelo grupo, Bahia pensa em reintegrar meia Ramírez. Fla traz nova acusação

Publicado quarta-feira, 23 de dezembro de 2020 às 06:06 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Nuno Krause*

O Bahia trabalha com a possibilidade de reintegrar Índio Ramírez. Dentro do clube, lideranças como o auxiliar técnico Cláudio Prates acreditam fortemente na palavra do jogador de que não teria utilizado nenhum termo racista para ofender Gerson. O colombiano alega ter dito “vamos jogar sério” e não “cala a boca, negro”, como relatou o flamenguista em entrevista após o jogo. O atleta do Esquadrão diz que pode ter havido uma “compreensão errada”.

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Em contato com o A TARDE, o Bahia, por meio da assessoria de imprensa, revelou na terça-feira, 22, que a possibilidade de reintegração é real, porém isso deve acontecer “mediante algumas condições”, que não foram detalhadas. Por enquanto, o clube mantém a posição de que o jogador está afastado. O jogo do próximo domingo, contra o Internacional, não deve ter a presença do meia.

Entretanto, surgiu um fato novo que pode mudar a concepção do Bahia. Também na terça, o vice-presidente jurídico do Flamengo, Rodrigo Dunshee, afirmou que especialistas do Instituto de Educação de Surdos (INES) determinaram, a partir de leitura labial, que Índio Ramírez disse para Bruno Henrique: “você fala muito, seu negro”.

Ainda assim, o A TARDE apurou que, mesmo que a agressão se confirme, o Tricolor não deve rescindir o contrato com o atleta.

A discussão ocorreu aos 20 minutos do segundo tempo, 13 minutos depois do embate entre Gerson e Índio Ramirez. Naquele momento, o Flamengo perdia por 3 a 2 e Bruno Henrique se irritou por achar que o jogador Tricolor estava fazendo “cera”. Ao site Globoesporte.com, Bruno Henrique afirmou não ter ouvido a ofensa.

Durante a manhã, o Bahia tinha recebido imagens das discussões que ocorreram durante a partida. O vídeo abrange do minuto 6:22 até o 8:00. Porém, a Rede Globo esclareceu: “Não foram captadas outras imagens do momento exato em que a ofensa teria acontecido, que permitam apurar o que foi dito pelo atleta. Ressaltamos que as imagens estão sendo concedidas exclusivamente para a apuração do incidente supostamente ocorrido, não sendo permitida qualquer outra utilização”. O Esquadrão também lembrou, em nota, que não teve acesso a nenhum laudo técnico sobre a apuração do caso.

“Além disso, [o Bahia] lamenta que um jogo de futebol tenha transcorrido em clima tão agressivo de todas as partes, que, além da denúncia de racismo, protagonizaram desrespeitos mútuos, agressividades e xenofobia”, escreveu o clube, em nota.

A xenofobia em questão teria sido proferida contra o próprio Ramírez, segundo contou o presidente Guilherme Bellintani à Folha de São Paulo – baseado no relato do jogador. Segundo o gestor, Índio alega ter sido chamado de “gringo de merda”. A ofensa teria vindo de Bruno Henrique. Na mesma entrevista, Bellintani disse que, caso se concretize a atitude racista de Ramírez, isso vai ”manchar a história do Bahia”.

De acordo com o advogado especializado em Direito Desportivo, Otávio Freire, “essa prova serve como indício para a investigação. O procurador do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) deverá solicitar perícia e pode, sim, usar como prova”.

Na área criminal, porém, isso vai depender de algumas questões, segundo a advogada Daniela Portugal. “Não há um rol taxativo dos meios de prova no Código de Processo Penal. Nesse caso, o valor probatório que será conferido à leitura labial no respectivo processo dependerá dos debates travados ao longo da própria persecução penal, obedecidos o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal”, pondera a especialista.

Institucional

Desde que o caso veio à tona, Bellintani tem deixado claro que ele, como homem branco, não tomará a decisão de rescindir o contrato com o atleta ou mantê-lo no clube. Isso caberá às lideranças negras com quem a diretoria tem conversado nos últimos dias.

Isso porque algumas pessoas são favoráveis a cortar vínculos de vez com um atleta capaz de cometer tal injúria – se é que ela aconteceu – e outras são da linha de que permanecer no Bahia pode fazer com que o ser humano Ramírez seja instruído sobre esses temas e se torne uma pessoa melhor.

A medida demonstra o trabalho institucional que faz o Bahia para combater o racismo no esporte. De acordo com apuração do A TARDE, nesta quarta, 23, o clube coloca o projeto ‘Dedo na ferida’ como obrigatório para os atletas. A ação tem como objetivo atentar a própria instituição para as formas de racismo que são colocadas internamente.

O principal exemplo disso é o fato de que não há nenhum diretor ou gerente negro no clube e são menos de 25% do Conselho Deliberativo tricolor.

Além disso, a diretoria do Esquadrão também tem trabalhado no sentido de revisar contratos para incluir cláusulas antirracistas e vem atuando, junto à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para que a pauta seja incluída e aprofundada no âmbito das competições nacionais.

Bellintani tem repetido em entrevistas que, caso o episódio se confirme, seria lamentável. Porém, considera melhor que tenha sido no Bahia, que é um clube “razoavelmente bem preparado para lidar com o assunto”. Ele completa: “Temos que evoluir bastante ainda, mas estamos bem preparados”.

Primeiro passo

Nesta quarta, o técnico Dado Cavalcanti, recentemente efetivado após a demissão de Mano Menezes no último domingo, comandará o sua primeira atividade com o elenco principal do Bahia, na Cidade Tricolor.

Dado já é conhecido do clube, por ter feito parte da equipe de aspirantes em 2019 e no início de 2020. No cargo, ele levou o Bahia à semifinal do Brasileirão de aspirantes e foi peça importante na campanha do título estadual – Roger Machado ficou responsável na fase final, mas Dado foi quem estruturou o time.

A missão desta vez será difícil. O Esquadrão profissional não vence há cinco partidas no Brasileiro, e tem a pior defesa da competição. São 46 gols sofridos em 26 jogos. Com 28 pontos, o clube ocupa a 16ª colocação. A pontuação é a mesma do Vasco, 17º, que abre a zona de rebaixamento.

*Sob supervisão do editor Daniel Dórea

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