CRISE
Técnico que cobrou SAF de R$ 1 bilhão para clube não fechar pede demissão
Treinador saiu em meio à crise financeira, aos salários atrasados e à paralisação do elenco


No mesmo dia em que o elenco da Ponte Preta decidiu paralisar as atividades por causa dos salários atrasados, o clube também ficou sem treinador. Márcio Zanardi pediu demissão do cargo nesta quarta-feira, 26, em meio ao agravamento da crise financeira e administrativa que atravessa a equipe de Campinas.
A saída foi comunicada à diretoria durante a tarde e confirmada pelo clube no início da noite. Segundo a Ponte Preta, o desligamento ocorreu a pedido do próprio treinador.

Zanardi já vinha demonstrando desgaste diante do cenário vivido pelo clube e entendeu que não havia mais condições para dar continuidade ao trabalho. Outro fator que pesou na decisão foi a possibilidade de precisar comandar uma equipe formada majoritariamente por jogadores das categorias de base no próximo domingo, contra o América-MG, em Belo Horizonte.
A diretoria ainda não definiu o substituto. O vice-presidente e diretor de futebol, Marco Antonio Eberlin, afirmou, em entrevista à Rádio Bandeirantes de Campinas, que iniciou a busca por nomes no mercado ainda pela manhã, quando a saída de Zanardi já era dada como praticamente certa. A expectativa é anunciar um novo treinador na quinta-feira.
Com a paralisação do elenco profissional, a Ponte Preta trabalha para evitar um W.O. diante do América-MG. Caso os jogadores mantenham a suspensão das atividades, a alternativa estudada pela diretoria é utilizar atletas das categorias de base na partida.
Passagem de Zanardi pela Ponte Preta foi marcada pela crise
Contratado em 11 de junho para substituir Rodrigo Santana, Márcio Zanardi tinha vínculo com a Ponte Preta até o fim da Série B, com possibilidade de renovação para a disputa da Série A2.
O treinador chegou ao clube em um momento já delicado. Na ocasião, a Ponte ocupava a vice-lanterna da Série B, com apenas oito pontos, e enfrentava problemas financeiros que também refletiam diretamente no desempenho da equipe.
Doze rodadas depois, o cenário se agravou. A Macaca passou a ocupar a última posição da competição, com dez pontos, e vê o rebaixamento cada vez mais próximo diante da crise instalada nos bastidores.
Sob o comando de Zanardi, a Ponte Preta disputou 12 partidas, somando apenas dois empates e dez derrotas. O aproveitamento foi de 5,5%.
Além dos resultados negativos, a passagem do treinador ficou marcada pelas declarações públicas sobre as dificuldades enfrentadas pelo clube. Nas últimas semanas, Zanardi revelou que jogadores estavam entrando em campo sem condições físicas adequadas por falta de opções no elenco.
O técnico também afirmou que o volante André Lima precisou tomar uma injeção para conseguir atuar no sacrifício e relatou que outros atletas enfrentavam situação semelhante.
Em outra declaração contundente, Zanardi chegou a afirmar que a Ponte Preta “vai fechar” caso não consiga se transformar em SAF.
Jogadores paralisam atividades por salários atrasados
A saída de Zanardi aconteceu no mesmo dia em que o elenco profissional da Ponte Preta decidiu suspender as atividades em razão dos atrasos salariais.
Em comunicado divulgado nesta quarta-feira, 26, os jogadores afirmaram que a paralisação será mantida até que as pendências financeiras sejam regularizadas. A decisão, segundo o grupo, envolve tanto os treinamentos quanto a participação em partidas.
Os atletas já haviam dado um ultimato à diretoria na semana anterior. Na ocasião, informaram que alguns jogadores estavam há aproximadamente seis meses sem receber salários e direitos de imagem e estabeleceram o dia 25 de agosto como prazo para que os pagamentos fossem regularizados.
Uma notificação foi entregue ao executivo João Brigatti pelos atletas e também encaminhada por e-mail à presidência e ao departamento jurídico da Ponte Preta.
No comunicado, o elenco justificou a decisão com base na Lei Geral do Esporte e citou o direito de interromper as atividades em determinadas situações de atraso salarial.
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Veja a íntegra abaixo do comunicado dos atletas:
"Nós, atletas da AA Ponte Preta, comunicamos à diretoria e à imprensa que:
Como é de conhecimento público e geral, da imprensa e torcedores, a maioria de nós atletas não recebemos os últimos meses de salários e direito de imagem, que em alguns casos chegam a 6 meses sem o devido pagamento.
Há ainda uma nuvem de incertezas que pairam sobre nós, eis que a atual diretoria abandonou o dia a dia do clube e, além dos atrasos salariais, estamos sem qualquer satisfação ou garantia.
Nosso sentimento é de abandono!
O § 5º do artigo 90 da Lei Geral do Esporte permite ao atleta profissional paralisar as atividades profissionais, inclusive recursar-se a competir, quando os salários estiverem em atraso por 2(dois) ou mais meses:
Art. 90. - ...
§ 5º - É lícito ao atleta profissional recursar-se a competir por organização esportiva quando seus salários, no todo ou em parte, estiverem atrasados em 2 (dois) ou mais meses.
Esperamos semanas e até meses para tomarmos essa drástica atitude, respeitando a torcida e principalmente a instituição AA Ponte Preta.
Porém, ante o descaso da atual diretoria, considerado como desrespeito a nós atletas, não apenas pelos salários em atraso, mas também pelo abandono da atual gestão, comunicamos que a partir desta quarta-feira, 26/08/206, após encerramento do prazo que estipulamos para a diretoria, suspenderemos as nossas atividades, até a regularização dos nossos pagamentos.
Atenciosamente,
Elenco Profissional de Atletas da AA Ponte Preta".
Ponte Preta busca SAF com investimento de até R$ 1 bilhão
Em meio à crise, a transformação da Ponte Preta em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) aparece como uma das principais apostas da diretoria para tentar reestruturar o clube.
A Ponte afirma ter recebido uma proposta de investimento que pode alcançar R$ 1 bilhão para a transformação do clube em SAF.
O projeto prevê a divisão dos recursos entre diferentes setores da instituição. Do montante total, R$ 400 milhões seriam destinados à modernização do Estádio Moisés Lucarelli e do Centro de Treinamento.
Outros R$ 300 milhões seriam utilizados para o pagamento das dívidas da Ponte Preta. Os R$ 300 milhões restantes seriam destinados a investimentos no futebol ao longo de dez anos.


