"Prefeitos têm tido pouca importância na administração pública"

Deputado estadual (PP) reclama da falta de respeito aos prefeitos de municípios baianos

Publicado quinta-feira, 24 de março de 2022 às 06:05 h | Atualizado em 23/03/2022, 23:18 | Autor: Jefferson Beltrão
Robinho, deputado estadual (PP)
Robinho, deputado estadual (PP) -

Os prefeitos têm tido pouca importância na administração pública da Bahia. A crítica é do deputado estadual Robinho (PP), para quem nem parlamentares da base são atendidos. “Uma falta de respeito”, afirma. Agropecuarista e em seu segundo mandato, ele também critica a falta de política pública para o agronegócio, setor que defende na Alba. Rompido com o governo desde antes da recente saída do PP para o lado de ACM Neto, Robinho, de olho na reeleição, admite migrar para o União Brasil. “É o mais viável”. Confira nesta entrevista também transmitida pela TV Alba (canal aberto 12.2 e 16 na Net).

O senhor que se coloca como um defensor dos interesses do Extremo Sul da Bahia, quais são as principais demandas da região? 

O Extremo Sul é a segunda região produtiva da Bahia. A mais produtiva é o Oeste, região de Luís Eduardo Magalhães e Barreiras. E a nossa região tem crescido independente dos políticos, com a força dos pioneiros capixabas e mineiros que invadiram o Extremo Sul. É uma região que chove muito bem, tem agricultura, pecuária, usinas de açúcar, tem o polo do eucalipto com a Veracel e a Suzano Papel e Celulose. Uma região que tem uma economia bem estável e independente. Minha bandeira inicial foi defender o Extremo Sul, só que depois de eleito entendi que tinha que defender o estado, não simplesmente o Extremo Sul. Então, hoje é uma das coisas que a gente defende, a agricultura, mas também o municipalismo. Eu que fui prefeito acredito muito no municipalismo. É muito sacrificado, porque lá no município é onde acontece e o problema bate na porta do prefeito, do vereador. E os prefeitos têm tido pouca importância na administração pública estadual.

Como avalia as políticas públicas do governo para o desenvolvimento da agricultura e da pecuária da Bahia? 

Não existem. Não existe uma política do agronegócio, da agricultura. Existe é uma política partidária onde o Governo do Estado separou a Secretaria da Agricultura e criou uma secretaria do PT, que é a Secretaria de Desenvolvimento Rural. É a secretaria que mais tem recurso. O orçamento maior em termos de secretaria é o da Secretaria de Desenvolvimento Rural, pra fazer a política partidária do PT. 

Mas não acaba beneficiando também o Extremo Sul?

Não. É uma política que não tem um planejamento, não visa você dar o anzol pro cara pescar e ele se desenvolver e andar sozinho.

Qual tem sido a sua contribuição para o crescimento do agronegócio na região?

Na realidade, nós tentamos – eu sempre falo que uma andorinha só não faz verão –, nós tentamos e cobramos isso, e aí chegou num ponto que não adiantava ficar cobrando, reclamando, estando no governo. Foi um dos motivos que me fizeram sair do governo. Se você analisar, o que significa a Secretaria de Agricultura do Estado da Bahia? O que ela tem feito, produzido? Qual o retorno e apoio que tem dado? Tem a política com relação à SDF, Secretaria de Desenvolvimento Rural, aquelas agriculturas de pequeno porte, que é um apoio muito pequeno também. É muito dinheiro e pouco resultado. 

O senhor abandonou a base de apoio do governo antes mesmo de o PP migrar para o grupo político do ex-prefeito ACM Neto. O que mais o motivou a se tornar oposição?

Perdi a crença na política do governo. Falta de comprometimento. Você sabe que cada deputado tem emenda parlamentar impositiva, é a forma que o deputado pode ajudar alguém. E eu tenho quatro anos que não recebo as minhas emendas impositivas. Aqui na Bahia o governo não obedece ao que se fala de emenda impositiva, que é uma lei. É uma obrigação do governo. Isso não é só com o deputado Robinho que era da base. Fui presidente da Comissão de Orçamento e Finanças por esse mandato todo. Nunca criei uma dificuldade pro governo. 

O senhor vem se posicionando fora da base governista desde agosto de 2021...

O descontentamento já vem de algum tempo, mas saí de fato quando tentei ter uma audiência com o Governo do Estado e não consegui. Logo que terminaram as eleições municipais, foram eleitos sete novos prefeitos. E o sonho do prefeito quando se elege é sentar com o governador, trazendo suas demandas, e eu não consegui. Fiquei janeiro, fevereiro, março, abril tentando uma audiência com o governador. E olha que eu nunca trouxe um problema, nunca votei uma coisa que desagradasse o governo. E não consegui audiência. Até os deputados da própria base. Existe um descontentamento muito grande dos deputados com relação ao governo. Um governador que não atende deputado, que não tem audiência com o deputado. É uma falta de respeito com um poder independente. 

Até que ponto seu rompimento com o governo impactou na sua relação com os prefeitos do Extremo Sul que sempre o viram como governista? 

Eu tenho que agradecer muito a esses prefeitos, porque a pressão foi grande e até agora nenhum me abandonou.

Mas prefeitos de Potiraguá, Itapé eItapebi, todos do Extremo Sul e do PP, por exemplo, se mantiveram governistas.

Sim, eles se mantiveram governistas. Teve prefeito que o governador apertou, ele falou: “governador, o senhor vai ter o direito de me escolher quatro votos. Vai ter o direito de escolher o presidente, o governador, o senador e o deputado federal. Agora, o deputado estadual, eu quero escolher o deputado estadual”. Então, tenho que agradecer muito a esses prefeitos que mantiveram pulso. A gente tem procurado fazer política também com relacionamento e amizade, uma coisa que o Governo do Estado não tem. 

O senhor vai mudar de partido? 

Prefiro dizer que saí de uma base aliada que não acreditei como base. E muitas pessoas falam “você tinha bola de cristal!”. A resposta aconteceu agora com a saída do PP. Aceitou humilhação demais. O [vice-governador João] Leão foi de uma humildade extrema e tomou um tapa da traição muito grande. Quando lançou-se aquela chapa onde Leão assumiria o governo e [o senador] Otto [Alencar] seria candidato ao governo, não acreditei. Nunca vi na minha história. Tenho 20 anos de vida pública com mandatoe nunca vi o PT dar a cela pra ninguém, nunca vi o PT passar o bastão pra ninguém. Na certeza da derrota, o PT fica com o candidato dele. Eu não acreditava, falei isso com Leão. A realidade aconteceu. 

Mas o senhor, antes mesmo da mudança do PP, já tinha considerado a possibilidade de migrar para o DEM, hoje União Brasil, partido de ACM Neto. É o mais provável? 

É o partido mais viável hoje. Estou em conversas, já tive com ACM Neto por algumas vezes. Admiro a posição política, a gestão dele, a capacidade administrativa e vejo hoje no União Brasil o melhor partido. 

Por quê? 

Porque ele tem um número grande de candidatos. Tem mais de 40 candidatos. 

Facilitaria sua reeleição. 

Porque é o seguinte: eu ficaria triste se disputasse a eleição num partido que fizesse dois, três deputados e eu não fosse eleito. Agora, se eu disputar, vamos supor, no União Brasil, que a gente tem previsão de fazer 14 ou mais deputados, se eu não ganhar a eleição é porque eu não tive voto. O número de eleitos foi grande. Se Robinho não foi eleito, é porque ele não teve voto. Aí não posso nem ficar triste. Faltou trabalhar mais, lutar mais, pedir mais voto, conquistar as pessoas. 

O União Brasil é um partido que hoje tem o apoio do Republicanos que, em parte, apoia o presidente Jair Bolsonaro, também do PDT de Ciro Gomes, do PSDB de João Doria. Agora com a adesão do PP, até de simpatizantes do ex-presidente Lula. O que o partido ganha com isso na disputa pelo Governo do Estado?

Isso foi tudo uma programação do próprio Neto. Ele quis isso, por quê? Porque aqui na Bahia o ex-presidente Lula tem uma força muito grande. Neto não vinculou o nome a nenhum candidato a presidente pra tentar buscar um pouco daqueles eleitores do ex-presidente Lula. Conveniência de cada estado. E aqui na Bahia o União Brasil está a serviço da candidatura de ACM Neto. 

Mas o partido deve se aproximar de algum candidato a presidente em especial? 

É a conveniência de cada estado. De cada líder de cada estado.

Sobre sua atuação na Assembleia, o senhor que presidiu a Comissão de Orçamento, Finanças e Controle, como foi discutir temas de interesse do colegiado e da sociedade baiana nessa área?

Quando assumi essa comissão eu tinha uma pilha de documentos engavetados. Só do governador tinha três contas engavetadas, contas do Tribunal de Contas do Estado. Pegamos, sentamos com o tribunal de contas,falamos de orçamento e peg amos todas essas contas, projetos de lei, esvaziamos as gavetas, as contas do governador. Colocamos em discussão na comissão, elas foram aprovadas, repassamos à Assembleia pra que a Assembleia pudesse votar isso. Nós aceleramos, desburocratizamos essa comissão. E a Secretaria de Fazenda, na pessoa do [secretário] Manoel Vitório, nunca teve dificuldade nenhuma, mesmo depois que eu saí do governo. Ele ou os assessores dele ligavam pra fazer a apresentação dos quadrimestres do Estado, nunca coloquei dificuldade. Outros deputados, parece que vendiam dificuldade pra colher facilidade. Nunca teve dificuldade quando estive na presidência da Comissão de Orçamento e Finanças.

Existe uma reclamação recorrente entre os deputados de que projetos do Legislativo acabam não andando, que a Assembleia prioriza apenas projetos do Executivo. O senhor concorda com a crítica? E o que é preciso fazer pra virar a chave?

Olha, você sabe que a Assembleia é um colegiado na Bahia de 63 deputados. Eu falei aqui no bate-papo que uma andorinha só não faz verão. Quando então, às vezes, você coloca um projeto de lei de interesse coletivo, chega na Comissão de Constituição e Justiça...

E para.

Para, não anda. O cara tem que ter, além de boas intenções e boas ideias, tem que ter bom relacionamento, articulação. E a articulação só não resolve, porque nós temos um governo muito forte. Quando o governo é muito forte, o legislativo começa a ficar fraco. E foi o que aconteceu na prática aqui. Um governo muito forte onde não atendia deputado. Deputado pra falar com o governo tinha que se humilhar e olhe lá. 

Caso o grupo de ACM Neto assuma o governo, qual a garantia de que esse modelo não vai ser mantido na Casa? 

A gente tem que acreditar, né? A vida é de esperança. A gente tem que acreditar que alguma coisa vai mudar. Tem que apostar em alguma coisa. Não é eu ficar aqui sofrendo, “o outro pode ser pior”. Não. Se está ruim aqui, tem que torcer pra que algo aconteça. Não estou dizendo que vou ficar com o Neto. Acho que é o caminho mais certo, mais propício, porque eu também tenho uma simpatia muito grande por João Roma e sou bolsonarista. Mas o que me admira na pessoa de ACM Neto é o resultado da administração que ele teve frente à Prefeitura de Salvador.

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