POLÍTICA
X descumpre filtro do TSE e recomenda perfis de candidatos
Plataforma só ampliou filtro após questionamento



O X (antigo Twitter) recomendou perfis de candidatos nas redes sociais mesmo após uma regra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinar que as contas declaradas pelas candidaturas sejam retiradas dos sistemas de recomendação durante a campanha eleitoral.
A falha foi identificada por uma análise da Folha de S. Paulo e pela organização Sleeping Giants Brasil.
A regra começou a valer em 16 de agosto, início da campanha eleitoral. Na prática, o conteúdo de uma conta declarada ao TSE não deveria ser apresentado a usuários que não seguem aquele perfil. A exceção prevista é para publicações impulsionadas mediante pagamento.
Mais de 1,4 mil perfis ficaram fora do filtro
O X anunciou no dia 14 de agosto que aplicaria a determinação e divulgou o algoritmo utilizado para bloquear as recomendações. Até a tarde de terça-feira, 25, porém, a lista disponibilizada pela plataforma tinha 665 contas.
Uma análise feita pela Folha a partir dos perfis declarados pelas candidaturas ao TSE identificou mais de 2.107 contas na plataforma. Isso indicava que pelo menos 1.442 perfis poderiam continuar aparecendo nas recomendações para usuários que não os seguiam.
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Durante a navegação, a reportagem encontrou publicações de candidatos de diferentes partidos na aba “Para Você”, justamente o espaço em que o X havia informado que aplicaria o bloqueio.
X amplia lista após ser questionado
A Folha questionou o X sobre a diferença entre as contas declaradas ao TSE e aquelas incluídas no filtro. Na noite de terça-feira, a plataforma ampliou a relação para quase 2.400 contas.
Depois da alteração, a reportagem não identificou novas recomendações de perfis de candidatos declarados à Justiça Eleitoral. A empresa, no entanto, não respondeu aos questionamentos da Folha até a publicação do levantamento.
O intervalo entre o início da campanha e a correção do filtro criou uma diferença entre as candidaturas que tiveram os perfis bloqueados desde 16 de agosto e aquelas que continuaram sendo recomendadas pela plataforma.
Candidatos de diferentes partidos apareceram
Antes da mudança, a reportagem identificou conteúdos de candidatos de diferentes siglas na área de recomendações. Entre eles estavam Fernando Haddad (PT), Guilherme Derrite (PL), Erika Hilton (PSOL), Carlos Viana (PSD), Bruno Engler (PL) e Marcelo Freixo (PT).
A análise também encontrou publicações de candidatos ao Senado, como Marina Silva (Rede), Deltan Dallagnol (Novo), Benedita da Silva (PT) e Rodrigo Valadares (PL).
Entre os postulantes à Câmara dos Deputados, apareceram nomes como Rosangela Moro (PL), Orlando Silva (PCdoB), Jones Manoel (PSOL), Lucas Pavanato (PL), Anielle Franco (PT), Marina Helena (Novo) e Gil Diniz (PL).
A Sleeping Giants Brasil encontrou situação semelhante. A organização coletou dados da navegação por meio de ferramentas digitais e compartilhou os arquivos com a Folha.
Até presidenciáveis ficaram fora do filtro
O problema não atingiu apenas candidaturas de menor alcance. Até terça-feira, nomes que disputam a Presidência também não apareciam na lista utilizada pelo algoritmo do X.
Entre eles estavam Ronaldo Caiado (PSD) e Pablo Marçal (PRTB). O vice de Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar (PL), também não constava entre os perfis submetidos ao filtro.
Outro caso citado foi o de Nikolas Ferreira (PL), um dos nomes de maior alcance da direita nas redes sociais. O deputado não estava na relação do algoritmo até a tarde de terça-feira.
Candidaturas também tiveram problemas nos dados
A implementação da regra não depende apenas da plataforma. Algumas contas que apareceram nas recomendações não haviam sido declaradas ao TSE pelas candidaturas ou foram informadas com erros de digitação.
Para verificar o funcionamento do filtro, a Folha criou duas contas no X nos dias 24 e 25 de agosto e não seguiu nenhum candidato. Durante a navegação, perfis que haviam sido informados à Justiça Eleitoral apareceram na aba “Para Você”.
Além desse espaço, a reportagem questionou o X sobre a manutenção de recomendações de candidatos em ferramentas como “Quem seguir” e “Talvez você curta”. Nesses recursos, a plataforma sugere contas que o usuário pode acompanhar.
A empresa não respondeu sobre a razão de manter essas funcionalidades.
Regra busca limitar atuação dos algoritmos
A determinação do TSE busca reduzir a possibilidade de que os algoritmos das plataformas deem tratamento desigual às candidaturas durante a campanha.
A preocupação está relacionada ao alcance orgânico obtido por meio das recomendações. Ao deixar de sugerir uma conta de candidato para quem não a segue, a regra limita a capacidade das plataformas de ampliar artificialmente a exposição de determinados concorrentes.
A única exceção prevista é para conteúdo impulsionado mediante pagamento.
A medida, contudo, também recebe críticas. Uma delas é a possibilidade de que candidatos com menos seguidores e menor alcance orgânico passem a depender mais de anúncios pagos para alcançar novos eleitores.
Regra gera atrito entre Brasil e governo Trump
A decisão do X de aplicar a determinação eleitoral também provocou novo episódio de tensão entre Brasil e Estados Unidos envolvendo a regulação das redes sociais.
Após o anúncio da plataforma, Sarah B. Rogers, subsecretária de Estado para Diplomacia Pública do governo de Donald Trump, compartilhou a publicação do X e classificou a medida como uma “censura imposta pelo Brasil”.
O episódio ocorre em meio às discussões sobre o papel das plataformas digitais nas eleições e os limites da atuação dos algoritmos sobre a circulação de conteúdo político.


