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Viciados em ‘bets’ podem desenvolver outras dependências se não tratarem a doença

Ludopatia se tornou um problema de saúde pública no Brasil

Jackson Souza
Por Jackson Souza
Com fim das ‘bets’, desafio de tratar a compulsão por apostas ficou mais evidente
Com fim das ‘bets’, desafio de tratar a compulsão por apostas ficou mais evidente - Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

Antes de serem proibidas em todo o País, em setembro deste ano, as bets tiraram das famílias brasileiras R$ 37 bilhões, somente em 2025, mostram dados da Secretaria de Prêmios e Apostas, do Ministério da Fazenda. Mas, longe de ser um problema apenas econômico, a brincadeira se tornou um quadro de saúde pública.

Com a proibição das apostas on-line, especialistas alertam para a situação dos usuários que desenvolveram a ludopatia, a chamada “doença do jogo”, que causa dependência e compulsão; sem o acesso, pode levar a pessoa a outros vícios, se não tratada. Desde agosto, o Ministério da Saúde oferece gratuitamente ajuda pelo Meu SUS Digital, inclusive para familiares.

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Sintomas e cuidados

Irritação, ansiedade, inquietação, dificuldade para dormir, além de pensamento fixo em apostar e uma urgência de voltar a jogar são alguns dos sintomas que pessoas com a ludopatia costumam apresentar.

A doença, já é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, nesse cenário, mais do que a suspensão do acesso, a condição de dependente requer apoio especializado, inclusive para a família, como destaca a psicóloga Aila Cardial.

“Não adianta cortar o estímulo sem tratar a causa. É como quem usa medicação psicotrópica e não faz psicoterapia. Ajuda nos sintomas, mas não trata a causa, funciona como uma barreira, porque a facilidade de acesso alimenta muito esse comportamento, só que, se a pessoa não entende os gatilhos, as emoções e os pensamentos por trás da aposta, ela acaba achando outro caminho para jogar ou mudando o foco para outro tipo de ‘vício’, destaca. “Costumo dizer que tirar o acesso interrompe o comportamento, mas é o tratamento que muda o padrão de uma maneira definitiva”, observa.

Em agosto, o Ministério da Saúde passou a disponibilizar, de forma on-line, por meio da plataforma Meu SUS Digital, até 100 mil consultas mensais para pessoas e familiares que sofrem com o vício em apostas, servindo como uma porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (Raps). O acesso é além de gratuito, garante a segurança da identidade de quem busca o serviço.

“É importante tirar o problema do lugar da vergonha e colocá-lo no lugar do cuidado. A pessoa precisa de uma avaliação profissional para entender a gravidade do quadro e o que mantém aquele comportamento. A psicoterapia trabalha gatilhos, pensamentos, impulsividade, regulação emocional e estratégias para lidar com a vontade de apostar”, explica.

Aila Cardial destaca a terapia cognitivo comportamental, entre as abordagens com evidência de respostas para esse tipo de problema. “Dependendo do caso, também é preciso olhar para as dívidas, a organização financeira, a família, e tudo o que o jogo afetou”, observa a especialista.

Proibição

Legalizadas em 2018, durante o governo Michel Temer, as bets foram regulamentadas em 2023 pelo governo Lula, quando ainda operavam de maneira clandestina e sem pagar impostos pela exploração do serviço.

Em setembro deste ano, uma Medida Provisória (MP), editada pelo próprio Executivo, acabou com a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no Brasil. A MP definiu, inclusive, prazos, como a retirada voluntária de valores a receber por apostadores, bem como o fim do prazo para a retirada do ar dos sites até o dia 6 de outubro.

A proibição das apostas on-line por meio das bets é apoiada por 78% da população brasileira, mostra pesquisa Datafolha, divulgada em 1º de outubro.

A pesquisa evidencia o quão negativo o setor é visto – apenas 18% disse ser contra a proibição. As mulheres aparecem como as mais favoráveis à proibição, com 82%, contra 74% dos homens.

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Compulsão

“Percebi que passei dos limites quando comecei a jogar e tive tremedeira; ganhava determinados valores, sacava da conta do jogo – que ia direto para minha conta corrente via PIX – e reinvestia no jogo. Eram mais de 20 transações diárias entre saques e depósitos no jogo, e como havia um limite de saque diário de R$ 20 mil, eu não conseguia aguardar 24 horas para sacar o restante e acabava perdendo”, conta esse ex-apostador.

Esse relato feito por Carlos (nome fictício), de 47 anos, não é raro entre apostadores que desenvolveram a ludopatia.

Ele conta que teve o primeiro contato com “jogo do tigrinho”, que parecia lúdico e até infantil, segundo ele, em 2024, depois que um influenciador digital recomendou uma plataforma; as apostas que eram de apenas R$ 1, em menos de uma semana já atingia R$ 3 mil.

“Consegui me livrar do jogo quando perdi tudo, fiquei com saldo negativo de quase 20 mil reais no banco e percebi que aquilo tudo estava me fazendo mal. Hoje, com a proibição, sinto um alívio por todas as pessoas que desenvolveram a compulsão pelas apostas on-line. Muita gente tirou a própria vida, hipotecou a casa, perdeu o carro, se divorciou e comprometeu relações de amizade e familiares. É um respiro profundo de alívio”, desabafa.

Altas somas

Só em 2025, os brasileiros tiveram saldo negativo de 36,9 bilhões com as bets, segundo dados do Ministério da Fazenda.

Os mesmos dados mostraram, no ano passado, que as empresas com autorização federal para atuar no País receberam depósitos de apostadores que somaram R$ 220,6 bilhões.

“Depois de ganhar uma alta quantia, ele resolveu me contar. Fiquei com medo e muito apreensiva, meu coração disparou diante da minha impotência em relação ao vício. Pedi que ele parasse e ele disse que ia parar, mas percebi que continuava jogando escondido. Eu temia mais pela saúde, porque ele estava sonolento grande parte do dia. (...) Ele é um homem adulto e temia não poder ajudar só com palavras, então, sugeri procurar uma terapia intensiva, mas, graças a Deus, ele conseguiu se livrar espontaneamente”, conta Tereza, a mãe de Carlos (nomes fictícios).

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