Busca interna do iBahia
HOME > SAÚDE

DIA DO ORGULHO AUTISTA

Diagnóstico tardio de autismo é comum em mulheres; entenda os sinais

O portal A TARDE conversou com a psiquiatra Fabrícia Signorelli no Dia do Orgulho Autista

Luiza Nascimento
Por
Autismo em mulheres
Autismo em mulheres - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em mulheres ainda é um desafio pois, em grande parte dos casos é feito de forma tardia, o que pode dificultar o tratamento e aumentar o risco de sofrimento emocional.

Uma pesquisa publicada no National Library of Medicine, envolvendo quase 2.500 mil crianças com autismo sugere que muitas vezes esse tipo de transtorno não é diagnosticado em meninas, o que poderia explicar o autismo parece ser mais comum em garotos.

Tudo sobre Saúde em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Além disso, a Diagnosis of autism in girls: Systematic review, de 2022, publicada na PePsic Periódicos de Psicologia, 20 estudos foram analisados e destes, 50% confirmaram o subdiagnóstico no gênero feminino, sendo que 40% desses mencionam o diagnóstico tardio.

No Dia do Orgulho Autista, celebrado nesta quinta-feira, 18, o portal A TARDE conversou com a psiquiatra Fabrícia Signorelli, pesquisadora do Ambulatório de TDAH da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que explicou como os sinais sutis podem atrasar o diagnóstico feminino.

Segundo a especialista, a apresentação clínica feminina possui características próprias, descritas na literatura científica como "fenótipo feminino do autismo", que frequentemente tornam os sinais menos evidentes durante a infância e a adolescência.

Como identificar autismo em meninas?

Os critérios diagnósticos do autismo foram historicamente construídos com base em estudos realizados predominantemente com meninos. Como consequência, muitas características mais comuns em meninas passaram despercebidas por décadas, contribuindo para que o diagnóstico aconteça apenas na adolescência ou na vida adulta.

Segundo a especialista, o autismo em meninas apresenta particularidades muito específicas na apresentação clínica desde a infância.

"A menina com autismo é capaz de apresentar um brincar muito mais funcional e simbólico quando comparado ao dos meninos. Ela consegue imitar a brincadeira, aprender a brincar com outras meninas e dar uma função real ao brinquedo. Além disso, os seus interesses restritos tendem a ser bem menos peculiares do que os dos meninos, que muitas vezes focam de forma muito específica em temas como pedras, bandeiras, dinossauros ou planetas", disse Signorelli.

Ela explica que nas meninas, desde a infância, esses interesses costumam estar mais relacionados a animais, bandas ou séries de televisão, que são temas frequentemente compartilhados por pessoas neurotípicas.

"A única diferença de que, para as adolescentes e mulheres dentro do espectro, trata-se de um interesse hiperfocado e restrito, enquanto outras pessoas conseguem transitar com mais facilidade por outros assuntos", explicou.

Autismo não diagnosticado em mulheres adultas

Ao longo da vida, muitas mulheres desenvolvem estratégias para lidar com as dificuldades sociais associadas ao transtorno. Por meio da observação e da prática, aprendem a reproduzir comportamentos considerados socialmente adequados, processo conhecido como camuflagem social ou masking.

Essa adaptação envolve ações deliberadas, como copiar expressões faciais, gestos e formas de interação para esconder dificuldades na comunicação e no entendimento das relações sociais.

"A mulher observa ativamente o comportamento das outras pessoas e o imita deliberadamente, como sorrir quando os outros estão sorrindo, mesmo que ela não compreenda o motivo exato daquela reação. Ela copia esses padrões de comportamento para que as suas próprias dificuldades sociais fiquem menos evidenciadas e ela consiga pertencer aos ambientes", detalhou a psiquiatra.

Todo o esforço da camuflagem social leva a uma sobrecarga grande, pois exige um esforço cognitivo e emocional elevado por parte da mulher. O fato aumenta o risco de desenvolvimento de comorbidades ao longo da vida.

"É fundamental que essas questões sejam identificadas precocemente, porque a ausência de um diagnóstico correto na infância, na adolescência ou na vida adulta funciona como um forte fator de risco para o surgimento de outros transtornos psiquiátricos secundários, como a depressão e a ansiedade, impulsionados pelos desafios diários do autismo que não são acolhidos", alertou.

Leia Também:

URGENTE!

Anvisa manda recolher remédio com fragmento de vidro
Anvisa manda recolher remédio com fragmento de vidro imagem

SAÚDE

Nova caneta Ozivy substitui a insulina? Veja quem pode usar
Nova caneta Ozivy substitui a insulina? Veja quem pode usar imagem

SAÚDE

Rival do Ozempic chega às farmácias com tratamento por menos de R$ 300
Rival do Ozempic chega às farmácias com tratamento por menos de R$ 300 imagem

Diagnóstico tardio

Em muitos casos, a identificação do autismo ocorre apenas quando a mulher passa a reconhecer que desafios presentes desde a infância continuam impactando sua rotina. Dificuldades para compreender nuances das relações sociais, interpretar intenções das outras pessoas e lidar com situações sociais complexas costumam estar entre os fatores que levam à busca por avaliação especializada.

"Quando ela começa a ouvir sobre essas dificuldades em interagir, em manter um diálogo ou em compreender as nuances das relações, o processo de identificação se inicia", pontuou.

A interação social gera um desgaste físico e mental absurdo, que é severamente agravado pelos aspectos como:

  • ambientes com muito barulho;
  • excesso de pessoas falando ao mesmo tempo;
  • questões como a seletividade alimentar;
  • incômodo extremo com texturas de roupas;
  • dificuldade real em decodificar as relações sociais.

"A mulher vai percebendo que apresenta esses comportamentos comuns desde a infância, e isso muitas vezes leva ao diagnóstico do autismo em mulheres", contou.

Importância do diagnóstico precoce

Independentemente do gênero, o diagnóstico precoce é considerado fundamental para pessoas com autismo. Os primeiros sinais podem surgir entre 12 e 24 meses de vida e incluem:

  • Atraso no desenvolvimento da linguagem;
  • dificuldade de contato visual;
  • movimentos repetitivos;
  • ausência de resposta quando a criança é chamada pelo nome.

Com a entrada na escola, também podem aparecer dificuldades de interação com colegas, resistência a mudanças de rotina e episódios de desregulação emocional, muitas vezes interpretados apenas como birras.

No entanto, em meninas com inteligência preservada e maior capacidade de adaptação social, esses sinais costumam ser mais discretos, o que contribui para atrasos na identificação do transtorno.

"Essa menina frequentemente consegue engajar em brincadeiras funcionais, copiar o comportamento de outras crianças e participar do faz de conta. Embora uma observação técnica mais detalhada possa revelar uma rigidez ou menor criatividade e espontaneidade no brincar simbólico, a capacidade dela de se integrar inicialmente mascara a condição", explicou.

O foco central na identificação precoce, idealmente nos primeiros anos de vida, justifica-se pelo aproveitamento máximo da neuroplasticidade cerebral, que é a capacidade natural do sistema nervoso de se reorganizar, modificar suas conexões e criar novas vias neurais em resposta a estímulos, experiências e aprendizados.

"Como o cérebro infantil possui um grau muito elevado de plasticidade, este é o período em que as intervenções multidisciplinares, envolvendo fonoaudiologia, psicologia e psicomotricidade, geram os resultados mais estruturais e duradouros", explicou.

Estimular a criança nessa fase permite otimizar o funcionamento cerebral e o desenvolvimento de habilidades compensatórias, tornando a observação atenta desde a primeira infância o pilar fundamental para o direcionamento a essas terapias.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

Autismo diagnóstico Saúde

Relacionadas

Mais lidas